Russa sobre o hip hop em Portugal: “Estamos a viver uma fase incrível, mas acredito que há muito por explorar”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Katia Shipulina

A família da Kimahera cresceu: Russa é a nova artista no roster da editora do Algarve e tem o seu álbum de estreia já a caminho. “Entre Lisboa e Londres” é o primeiro avanço do projecto, um tema que conta com a assinatura de MAF no instrumental.

Nunca o hip hop esteve tão na moda como agora e, obviamente, essa é uma questão que levanta alguns problemas que chocam com os fundamentos da cultura originada no Bronx na década de 70. Num cenário de mudança, a ideia é conseguir retirar o máximo de pontos positivos da situação. Um dos pontos destaca-se bem acima dos outros todos: o mercado abraçou o género e hoje há muitos mais artistas que conseguem viver do hip hop.

O poder económico tem uma consequência directa no grau de fertilidade no jardim onde moram as batidas e a poesia. Todos os dias há alguém num qualquer recanto deste globo a pegar num microfone pela primeira vez, a desbravar caminhos com os primeiros versos, a explorar flows em ritmos e melodias nunca antes imaginados.

Num género cuja história é repleta de nomes no masculino, o boom do rap tem ajudado na inclusão de mais mulheres numa cultura que nem sempre concede o espaço necessário para um crescimento sustentado. Que o diga Cardi B, que ainda recentemente igualou um feito que se mantinha inalcançável desde “Doo Wop (That Thing)”, de Lauryn Hill.

Há muitos outros talentos no feminino a borbulhar por esse mundo fora e Portugal não é excepção, existindo até alguns nomes de referência no panorama nacional a dar a mão a estas caras novas — Sam The Kid lançou Muleca XIII na sua TV Chelas e Capicua vai dando a sua aprovação a alguns projectos que partilha através do seu Facebook, como é o caso da ainda recente compilação Hellas Mixtape. Russa também já contou com o apoio da rapper do Porto, que se mostrou surpreendida com um dos temas embrionários desta newcomer.

 



Embora indirectamente, também Sam The Kid está metido ao barulho neste caso mais recente, já que foi da sua plataforma TV Chelas que foram descarregadas as batidas que serviram de base para as rimas de Russa. Foram vários os temas publicados no decorrer de 2017, muitos deles pertencentes à sua mixtape de estreia, TPC. Registos amadores em que a vontade e a capacidade superaram a falta de qualidade nas vertentes mais técnicas da música. Essa persistência deu vida a um novo projecto, que levou Russa até Reflect e G.I.Joe na algarvia Kimahera, a label que agora “acolhe” este novo talento nacional.

Uma volta de 180 graus na arte que a rapper está a explorar — novas metodologias, novas condições, novas metas. Com o mesmo empenho de sempre, salta à vista este single de estreia, “Entre Lisboa e Londres”, um tema que fala de uma relação à distância e no qual o amor nutrido pela língua de Camões se demonstra inabalável, através da competência no jogo das rimas, adornadas com um flow fora-da-caixa digno da nova geração de liricistas que ousa pegar no microfone e torná-lo seu.

O primeiro passo nesta nova aventura de Russa: o tema, que surge acompanhado por um videoclipe — realizado por Katia Shipulina, em Londres, e editado por Tiago Mindrico –, fará parte de um projecto ainda maior: o álbum de estreia pela Kimahera que a MC ribatejana planeia editar em Março. MAF é quem assina a batida do mais recente single, um dos produtores em destaque para o disco que Russa prepara — Sickonce aka G.I.Joe e Holly são os outros dois artesãos responsáveis pelas sonoridades desse trabalho. “Até ao final deste mês, sai o segundo single“, avança a artista ao Rimas e Batidas.

 



Acabas de estrear o primeiro single pela Kimahera, mas a tua história enquanto MC já vem de trás. Fala-nos sobre o teu trajecto enquanto Russa.

Escrevi os meus primeiros poemas durante o último semestre na faculdade. Cerca de um ano mais tarde, aos 22 anos, comecei a escrever com beats. Nessa altura surgiram os meus primeiros sons. No entanto, não gravava as letras. Deixava-as apenas escritas em papel. Acho que a minha primeira experiência em termos de gravação foi a convite de um rapper japonês. Estava a viajar e escrevemos e gravamos uma letra quando visitei a cidade em que ele morava. Gravámos na casa dele com um PC, microfone e headphones. Nada mais. Só há cerca de um ano entrei num estúdio “mais a sério”. A Embaixada, uma crew da vila onde cresci, Fazendas de Almeirim, convidou-me para gravar uns sons no Casulo, o espaço de gravação que eles têm. Fizemos uns testes, mas infelizmente como eu raramente estava por lá não lançámos tanta música como ambicionávamos. No ano passado, em Londres, decidi escrever uns sons e lançar a minha primeira mixtape. Escolhi uns beats do canal TV Chelas e gravei as letras em casa de uma amiga italiana.

Deste claramente um passo em frente na tua carreira — já tens uma editora, o capítulo do audiovisual ficou mais profissional e tens alguns produtores a compor as bases dos teus temas. Como se deu toda esta mudança no teu trajecto artístico?

Tudo começou em Londres quando pus um vídeo acapella no Instagram com umas rimas que tinha escrito naquele dia. O MAF encontrou esse vídeo e convidou-me para escrever uma letra para um beat dele. Mandei-lhe uma demo e ele adorou. Mandou-me mais beats e escrevi três letras nessa altura. Lancei a mixtape TPC para mostrar que não estava parada e porque sabia que algo mais a sério demoraria tempo a sair. Adoro o trabalho do Holly e quando voltei a Portugal escrevi algumas letras para beats dele. Por coincidência, descobri que havia uma editora, a Kimahera, em Armação de Pêra. Tinha acabado de me mudar para lá, pedi-lhes para ir gravar um som e gostaram do meu trabalho. Adorei o profissionalismo durante o processo de gravação e quando vi o resultado final percebi que já tinha chegado ao ponto em que gosto de me ouvir. Não só pela qualidade do meu trabalho como também pela de quem influencia cada momento do processo até ao lançamento de uma música. Daí ter começado a dar mais atenção a tudo. Desde os beats, ao local de gravação, etc.

O teu talento já chegou aos ouvidos da Capicua, uma MC feminina com um trajecto de sucesso em Portugal, que partilhou um dos teus temas no Facebook. Ficaste surpreendida? Como achas que está o hip hop feito por mulheres a nível nacional?

Eu não cresci num grande centro urbano. Não conhecia muita gente ligada à cultura hip hop, mesmo depois de já começar a fazer rap. Acabava por identificar algumas lacunas na minha arte, mas não sabia como melhorar. Nessa altura enviei um vídeo acapella para a Capicua, mesmo sem a conhecer, na esperança de ter algum feedback. E qual não foi o meu espanto quando ela perdeu mesmo algum do seu tempo para me fazer uma crítica construtiva. Quando lancei a mixtape voltei a mandar-lhe o resultado pelo Facebook e naturalmente ela percebeu que eu tinha evoluído desde a altura em que lhe enviei aquele tal video acapella. Fiquei surpreendida porque não achava que o meu trabalho já tivesse qualidade suficiente para ser partilhado por alguém que faz disto vida.

Infelizmente há poucas mulheres a apostar no rap em Portugal. É pena. Além disso, a meu ver, não faz sentido dar a minha opinião sobre o hip hop feito por mulheres. É como se me pedissem para dar a minha opinião só sobre os rappers loiros ou sobre os que têm olhos castanhos. É hip hop. É arte. Por isso prefiro focar-me no trabalho que tem sido feito em Portugal, no geral. Estamos a viver uma fase incrível, mas acredito que há muito por explorar. Ainda há muito por onde se pode inovar.

“Entre Lisboa e Londres” é o primeiro avanço deste novo capítulo, um tema que fala de uma relação à distância. O que te levou a abordar este tema?

Não é simplesmente um tema autobiográfico. Um mundo cada vez mais sem fronteiras leva a que muitos casais enfrentem esta realidade. Senti mesmo necessidade de abordar este assunto.

Apontas para um álbum já em Março. Como tem sido estar em estúdio para te focares num projecto desta dimensão?

Tem sido incrível e cansativo. Estou na Kimahera todas as semanas. Nunca tinha estado em estúdio tantas vezes num curto espaço de tempo. Tem sido uma aprendizagem que não consigo traduzir em palavras.

Já tens título para esse trabalho? Quem são as pessoas que têm estado a trabalhar contigo?

Já tem título, mas não quero revela-lo já. Os beats são do MAF, Holly e Sickonce. Conheci o Sickonce na Kimahera e é a primeira vez que estou a trabalhar com um produtor com quem posso falar pessoalmente. Com o MAF e o Holly não tinha a possibilidade de contacto pessoal. Tratávamos de tudo pela net. Ele tem um trabalho incrível e uma paciência de santo para mim.

O Pedro (Reflect) trata da gravação, edição, mistura e masterização do som. O trabalho dele é absolutamente incrível. É impossível pôr a dedicação e profissionalismo dele em palavras. Na minha opinião, o trabalho dele é o mais importante em todo o processo. O trabalho “invisível” dele faz com que as pessoas oiçam a minha música e a encarem como uma obra de arte.

 


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Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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