Royce Da 5’9″ // Book of Ryan

[TEXTO] Moisés Regalado

Book of Ryan é o sétimo álbum de Royce mas parece inevitável ouvi-lo de acordo com a bitola estabelecida pelo mais recente disco de PRhyme. 5’9″ e Premier chegaram a 2018 numa forma invejável e superaram todas as expectativas que pairavam no ar desde o lançamento do primeiro volume da dupla, sendo esse o perfeito reflexo da carreira de Ryan Montgomery. Sempre que a sua relevância como liricista ou vanguardista da técnica se começa a perder nas malhas de um movimento que não vive sem renovação, Royce avança com a confiança de quem não precisa da idade como posto para sobreviver.

Assim aconteceu em PRhyme, Slaughterhouse ou Bad Meets Evil. Sozinho ou acompanhado por alguns dos DJs mais reconhecidos da praça, como Whoo Kid, Statik Selektah ou Green Lantern, foi ainda responsável pela edição de onze mixtapes, extensa lista em que sobressai a saga The Bar Exam. Book of Ryan vem juntar-se à meia-dúzia de LPs com que se manteve activo entre 2002 e 2016 e não serve apenas para cumprir calendário ou meter o skill (e a agenda) em dia: esta é a obra que ainda faltava na estante de Royce da 5’9”.

O “grown man rap” está na moda. Jay-Z não ganhou os principais galardões a que propôs 4:44, só que ajudou a popularizar a expressão. Book of Ryan corresponde ao chavão sem no entanto se fazer valer de grandes panfletos ou bandeiras, apesar da “Intro” indicar o contrário. Royce começa por se afirmar como “grown-ass man” mas basta um minuto para que a primeira faixa seja interrompida por “Woke”, uma espécie de início alternativo em que o rapper cilindra o instrumental de Key Wane com facilidade, num exercício técnico de fazer inveja a qualquer rapper da nova escola.

 



A naturalidade com que molda sílabas e constrói rimas, dote que lhe é reconhecido desde que Royce Da 5’9” se apresentou a Detroit e ao mundo, é cada vez mais impactante, juntado-se-lhe uma capacidade ímpar, e que nunca tinha exibido com tanta convicção, para construir uma narrativa sem nunca comprometer a história ou o pen game. Em Book of Ryan, régua e esquadro pesam tanto como os afectos e emoções que servem de combustível ao guião de Royce, orquestrado com a excelência e solidez que poucos, como Masta Ace, conseguiram até hoje.

Os conselhos sobre o consumo de álcool e drogas sucedem-se (a sobriedade do MC tem sido um dos seus tópicos de eleição), num convívio pacífico com as presenças mais gangsta de Jadakiss, Fabolous ou até Boogie, enorme talento de Compton (não confundir com A Boogie Wit Da Hoodie). “Cocaine” acaba mesmo por se revelar como um dos melhores temas do alinhamento, numa espécie de sumário dedicado ao assunto em que Royce desfila nova métrica e entrega. Os momentos ou flows cantados são mesmo uma constante e, excepção feita a “Life Is Fair”, Ryan passou no teste com distinção.

 



A tracklist faz suceder momentos aparentemente tão antagónicos como “Legendary”, numa abordagem semelhante à de “Woke” e igualmente certeira, ou “Summer on Lock”, posse cut em formato clássico, com direito a rimas em catadupa e um cheirinho de dancehall entre versos. Eminem foi igual a si próprio, numa sucessão de fintas sem direito a golo que podem entreter os mais predispostos, mas J. Cole falou mais alto e foi dele a melhor participação deste Book of Ryan. E porque nem sempre rap é competição, foi bonito ver Royce promover a single uma das músicas em que se mostrou mais linear.

Há vários MCs de excepção cujas escolhas ou características parecem ter condicionado a solidez dos seus percursos a solo. Busta Rhymes e Twista, nomes maiores do fast flow, serão exemplos paradigmáticos, mas também Slim Shady, há muito afastado da qualidade discográfica, ou Method Man, teimosamente fiel aos trabalhos conceptuais durante largos anos, apesar do planeta se curvar perante os seus momentos mais descomprometidos. Se há ainda quem associe o nome de Royce a uma playlist de bangers e colaborações aleatoriamente ordenadas, Book of Ryan vem reforçar o que PRhyme 2 sinalizou com êxito – 5’9” é um dos melhores rappers de sempre e já não lhe faltam argumentos para entrar na discussão.

 


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