(Re)tratamento cultural

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Direitos Reservados

O texto que se segue pode chocar alguns amantes do hip hop. Foi escrito no início do ano de 2016 depois do Classroom beats ISCTE-IUL, o concerto que marcou de forma irreversível a minha cultura.

Usam camisolas largas com carapuço. Abanam a cabeça e os braços ao ritmo do beat. Debitam palavras e palavrões para um microfone em riste de forma pouco ortodoxa. Rimam directo às feridas da sociedade, do meio onde cresceram, da vida que levaram, que levam. Usam calão que tanta gente não conhece. E andam em grupo, daqueles que faria tanta gente mudar de passeio. Gente que não eu!

Dei um passo em frente, admirada com o número de pessoas que em fila ordeira fazia o mesmo. Não fazendo parte das minhas vivências, de uma branquela de classe média que não cresceu nos subúrbios de uma grande cidade, quis dar uma hipótese ao hip hop que não toca no rádio do meu carro.

Primeiro olhei em volta. Estavam menos de cem pessoas à frente do palco e lá em cima estava Sacik Brow. Ele dizia que não era nada disto que queria para ele, que “rap na tuga não está para ninguém”. Mas o recinto enchia e aumentava a energia também em palco. Sacik vestia preto e um sorriso nos lábios. Puxava pelo público e rimava ao amor, à sociedade, à família, a Quarteira que o viu crescer. “A nossa life é complicada”. Auto-retratos despudorados.

Já eu mexia o pézinho quando Bispo subiu a palco. Rodeado de amigos como um mural, por um lado, uma caixa forte, por outro. Fácil foi perceber de onde veio. 2725, Algueirão, Mem Martins. Por todo o lado o local onde cresceu, como uma marca tatuada no peito, uma bandeira, um status, uma forma de estar. Mas não são um bando de putos de rua que se junta para aterrorizar a vizinhança, tocar às campainhas e correr. “Rap não é violência, papel e caneta é vício”, canta em brinde à sua raiz com “Mentalidade Free”. E entre facadinhas em tudo e em todos aqueles que não acreditavam no sucesso do rapper que ali fazia abanar centenas de cabeçinhas e outros tantos braços no ar podia gritar-se que o “convívio está fixe assim”.

Estava fixe! Com energia, com alegria, com música que afinal era muito boa e que todo aquele público cantava em uníssono. Mais ainda quando os GROGnation entraram em palco. Rimam a cinco vozes e cinco cérebros. Julgo que foi aí que me rendi, ao ouvi-los. “E se o relógio não pára e o tempo não volta”? Ainda bem! Porque a verdade é que mergulhei nesse “Shot de Grog” e quis/quero perceber mais da tal cultura hip hop cheia de pré-conceitos e preconceitos, mas tão pura quanto olhar para o Mundo com pensamento crítico.

O hip hop para mim é uma espécie de namoro. Depois do primeiro date marquei o segundo, fui descobrir mais e de repente dei por mim a tentar contribuir para que desse certo e a querer mostrar aos que me rodeiam, principalmente através do De Sol a Sol, que a cultura hip hop faz muito sentido.

Tenho, claro, dificuldade em avaliar aquilo que vejo e oiço. Não tanto pela envolvência, mas pela falta de memória do passado que só agora vou conhecendo. Já não o vejo nem oiço da forma como descrevi acima. Continuo a dar primazia à mensagem e tenho percebido, em tantas conversas e entrevistas, que é importante preservar o hip hop como veículo de realidades. Já sei separar o que gosto do que não gosto (não digo o bom e o mau porque tudo isso é relativo) e continuo a perceber que o que afasta tanta gente da cultura hip hop são alguns tiques e hábitos pouco socialmente aceites que me justificam de todas as vezes com um mero “faz parte”.

O hip hop aconteceu-me. Frase estranha, não é? Mas não me surge agora outra forma de o dizer. Aconteceu-me e invadiu os meus dias em conversas, em filmes, em séries, em documentários, em playlists e CDs no carro. Oiço em loop NBC, Capicua, Bling Projekt, Sam the Kid, Dealema, Dillaz, Kendrick Lamar, De La Soul e tantos outros. E nas entrevistas que tenho feito há sempre uma pergunta que não falha: lembras-te do primeiro contacto que tiveste com o hip hop? É esta a pergunta e desafio que vos deixo. As respostas, acreditem, surpreendem sempre!

 


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