Rep(r)ensar o passado em vinil reinventa o presente ao vivo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Ontem, algo de muito curioso — e sintomático – aconteceu em Lisboa: em duas salas muito diferentes, dois concertos igualmente diferentes resultaram de um similar estímulo que tem que ver com um concertado esforço de investigação do passado através do relançamento de importantes discos que a história parecia ter esquecido mas que, percebe-se, o presente afinal de contas até reclamava. No Maria Matos, os renascidos Telectu de Vítor Rua e agora também de António Duarte apresentaram Belzebu, obra de 1983 que a Holuzam se prepara para relançar cumprindo assim o anunciado propósito de recuperar “obras relevantes para o presente”. Mais no centro, no Musicbox, Pedrinho, velha glória de Cabo Verde, interrompeu um silêncio de palco de três décadas com um concerto que serviu para assinalar a reedição de Aleluia pela Mar & Sol Records de De Los Miedos.

Em ambos os casos, os concertos resultam dessa vontade editorial de trazer para o presente obras que se encontravam esquecidas no passado: tanto Aleluia de Pedrinho como Belzebu dos Telectu foram originalmente lançados por selos – La Do Si Discos e Cliché Música, respectivamente — desaparecidos há três décadas e meia (curiosamente, ambas as editoras datam de 1983 as suas últimas entradas em catálogo: Unidade Luta Progresso de N’Kassa Cobra e Belzebu dos Telectu).

Acontece que por um diverso conjunto de razões, o presente exigia de certo modo esses regressos: se por um lado se assiste actualmente a uma vaga de fundo de reedições que exploram a memória mais experimental da electrónica, por outro já há anos que o vastíssimo continente africano tem sido redescoberto através dos oportunos lançamentos de etiquetas como a Soundway, Analog Africa, Awesome Tapes From Africa, Hot Casa, Mr. Bongo, Strut, Africa Seven, etc. E se, no exterior, essa continuada exploração do passado tem devolvido aos palcos do presente uma série de importantes pioneiros — de Gigi Masin ou Suzanne Ciani a Laurie Spiegel e Ariel Kalma, no campo da electrónica, ou Mulatu Astatke, Ebo Taylor, Pat Thomas e a Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, no caso de Africa – o mesmo seria inevitável que acontecesse em Portugal.

No campo da electrónica mais ousada, por assim dizer, não há tantos exemplos quanto se desejaria, mas, por exemplo, Carlos Maria Trindade, que viu a obra prima Mr. Wollogallu , que co-assinou com Nuno Canavarro, ser relançada pela espanhola Urpa i musell, embora não tenha propriamente regressado aos palcos que de facto nunca abandonou (é músico nos Madredeus), não deixou de se ver recentemente integrado numa acção do Festival Lisboa Electrónica promovida pela Red Bull Music Academy na esteira desse relançamento. Bitori, músico de Cabo Verde e lenda do funaná que viu o seu trabalho relançado pela Analog Africa, é outro músico que percebeu que os palcos contemporâneos estão dispostos a acolhê-lo (também já passou pelo Musicbox, em Lisboa) e até Bonga, cujos clássicos Angola 72 Angola 74 foram recentemente reeditados, percebeu que tem um novo público à sua espera nos mesmos festivais que os DJs que tocam os seus discos antigos têm vindo a agitar nos últimos anos.

Estes Telectu 2.0 de Vítor Rua e António Duarte que ontem subiram ao palco do Maria Matos e que já têm datas asseguradas para o Semibreve e uns quantos outros eventos e Pedrinho que ontem fez o baile chegar-se ao centro através da sua noite no Musicbox são mais dois claros exemplos de artistas que vêem o interesse nas suas obras clássicas traduzir-se igualmente numa ampla vontade de compra de bilhetes para espectáculos.

O acto de reeditar não tem que ser um mero gesto de gestão de memória ou de impulso arquivista e pode também ser uma forma de alterar o presente, de apresentar velhos tesouros a novos públicos que nunca tiveram a oportunidade de os conhecer no seu contexto original. A Holuzam e a Mar & Sol Records estão a fazer o que lhes compete: a recolocar nos escaparates obras a que o presente confere novo sentido, mas também a proporcionar a artistas que pareciam estar esquecidos uma nova oportunidade de brilharem em cima do palco. Que venham outras ideias destas. O presente tem espaço para muito mais.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu