Raymond Scott // Three Willow Park

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Na história há sempre aquelas figuras que seguem à frente e em frente, que inauguram caminhos nunca antes trilhados e que, muito literalmente, inventam novas ferramentas, novas linguagens, novas formas de comunicar. Atente-se nesta última ideia: “novas formas de comunicar”. Criar uma nova linguagem é uma tarefa complexa: implica, para começar, ignorar tudo o que veio antes, começar de novo, imaginar uma forma distinta de fazer uma mensagem – porque na comunicação há sempre uma mensagem – chegar do ponto A ao ponto B e dotar ambos os pontos dos meios apropriados de gerar ou codificar essa mensagem e, obviamente, dos consequentes meios de a receber e descodificar. Parece simples, mas, na verdade, e aproveitando o título de uma faixa presente na mais recente – e, diga-se já, absolutamente excelente e imprescindível – compilação de Raymond Scott, “It’s a Little Complicated”.

 



Three Willow Park – Music From Inner Space 1961 – 1971: o título da antologia agora lançada na Basta – e que sucede a outros importantes tomos lançados pela mesma editora e que cobrem a obra de Raymond Scott, nomeadamente aos igualmente incríveis Manhattan Research Inc. (2000) e à trilogia de Soothing Sounds For Baby (1999) – refere-se a um espaço e a um tempo específicos. Three Willow Park era um espaço – um edifício – num complexo em Farmingdale, Long Island, Nova Iorque, onde se encontravam armazéns, pequenas fábricas e escritórios de corporações. Construído num estilo arquitectónico de linhas modernistas, era o espaço apropriado para Scott instalar o seu estúdio e projectar a partir daí as suas ideias para o futuro. As detalhadíssimas notas de capa desta impressionante edição (e quem conhece o luxuoso Manhattan Research Inc. saberá qual o standard que está aqui em causa; os interessados podem e devem ainda complementar a leitura destas notas com o material mais vasto que os herdeiros de Scott recentemente disponibilizaram digitalmente e de que demos conta aqui no ReB) descrevem o espaço, recolhem depoimentos de quem conheceu Scott e com ele trabalhou e reúnem um vasto acervo gráfico de fotos, plantas, diagramas de circuitos electrónicos, facsimiles de cartas, etc, que são importantes documentos que nos permitem visualizar o ambiente em que Raymond Scott criava. Gert-Jan Blom, Irwin Chusid e Jeff Winner asseguraram a parte de leão deste monumental trabalho, recolhendo e organizando os documentos, assinando os textos e, sobretudo, organizando e restaurando a música. 61 faixas ao todo, distribuídas por dois CDs embalados desta vez como uma “long box” com insert a condizer.

 



Como já referido, a faixa 8 do primeiro CD tem por título “It’s a Little Complicated” e é um diálogo entre Raymond Scott e um visitante não identificado do seu estúdio (Raymond recebeu ao longo dos anos muitos visitantes notórios no seu estúdio, de Pierre Henry a Berry Gordy, fundador da Motown, passando por Bob Moog ou Jim Henson). O visitante começa por confessar estupefacção perante um determinado setup: “I don’t understand”, concede ele. Raymond entra depois numa detalhadíssima explicação de ligação de cabos, “into one of the things over there”, concluindo, certamente ao perceber a incredulidade no rosto do seu interlocutor, “it’s a little complicated”. O problema essencial das novas linguagens é que poucos as entendem.

Raymond Scott percebeu desde o início que as suas ideias e investigações precisavam de um contexto para serem apreendidas e aceites. O material exposto nestes dois CDs é diverso – ideias rítmicas, sons modulados, pulsares, ruídos, sequências simples de novos tons, arpégios. Títulos como “Cyclic Bit # 1”, “Rhythm Sample”, “Idea # 36”, “Nice Sound # 3”, “Ripples Effects # 1”, “Nice Set-up # 7” ou “IBM Probe #4” dão bem conta da natureza exploratória e ensaística do material aqui contido. Algumas destas faixas têm apenas alguns segundos e são, muito literalmente, anotações de ideias sonoras, rítmicas ou simplesmente técnicas para referência futura de Raymond Scott que as poderia depois integrar em peças já mais estruturadas. Poderiam igualmente servir como exemplos da capacidade do seu estúdio que Raymond usaria para vender os seus projectos a potenciais clientes. E Scott não era um homem desprovido de humor, um recurso sempre hábil quando se trata de vendas: uma das faixas começa com uma advertência do compositor – “listen to the sound of money being wasted” – a que se seguem depois uns bons 10 segundos de uma sequência simples de sons electrónicos produzidos num equipamento certamente muito caro. Raymond Scott manteve-se em Three Willow Park até 1971, altura em que foi contratado por Berry Gordy como investigador da Motown e se mudou para Los Angeles onde ao longo da seguinte meia dúzia de anos trabalhou no seu Electronium queimando, de acordo com relatos incluídos no booklet, cerca de um milhão de dólares no projecto que nunca chegou a ter aplicação prática – que se conheça… – nos discos da editora de Stevie Wonder e Marvin Gaye. “money being wasted” é por isso mesmo uma descrição muito precisa de vários dos momentos aqui reunidos.

Ainda assim, em temas como “Dorothea”, “A Rhythm Ballet”, “Carribea”, “In a 21st Century Drwaing Room” ou, por exemplo, “Toy Funk” (e muitos destes títulos, como de resto se assume nas notas, foram dados pelos compiladores a exercícios não titulados arquivados em bobines de fita) as ideias de Scott assumem formas musicais plenamente realizadas, com estruturas ou modelos melódicos inspirados na música popular da época, na cena exótica ou até no universo mais vasto da música erudita. Scott parecia, no entanto, funcionar alheado de outros mavericks que operavam nas caves da academia, nos Estados Unidos e na Europa, e que procuravam gerar idêntico ruído de onde esperavam ver emergir novos mundos musicais. É que Scott era um pragmático que acreditava que todas as suas experiências, mesmo as mais obtusas, poderiam ter uma aplicação comercial, o que veio a suceder, como bem demonstrado em Manhattan Research Inc., no mundo da publicidade. Esta nova linguagem não servia, portanto, apenas para transmitir ideias simples, mas podia igualmente ser aplicada a discursos musicais mais elaborados e complexos.

 


Trailer-Deconstructing Dad from Stan Warnow on Vimeo.


Várias das faixas aqui incluídas, sobretudo as que fazem uso mais intensivo do Electronium, são mais longas e possuem uma beleza muito particular, exercendo o mesmo tipo de atracção que uma peça de design clássico de Dieter Rams: sentimos que estamos numa espécie de museu a observar um artefacto – neste caso aural – de um passado muito particular que teve como consequência directa o presente que todos habitamos. De Aphex Twin a Mike Paradinas, de todo o roster da Ghost Box a projectos como Not Waving, de Luke Vibert a Armando Teixeira, é impossível não identificar no vasto e complexo presente electrónico marcas do legado de Raymond Scott e da nova linguagem que nos ensinou a falar. Uma linguagem em que as máquinas foram capazes de gerar novas palavras e novas figuras de estilo, novas narrativas e novos sentidos.

Raymond Scott abandonou este plano de existência em 1994, mas é inegável que o seu espírito continua a habitar todos estes bleeps e bloops, todas estas ideias e, muito provavelmente, o espaço antes ocupado por Three Willow Park. A sua linguagem, essa é hoje falado por milhões em todo o mundo.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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