Quanto vale um milhão de views no YouTube? Os números do rap tuga vs. a restante música nacional

[TEXTO] Ricardo Farinha [ILUSTRAÇÃO] João Guapo / Dialogue.pt

Para todos os que têm acompanhado a evolução do rap português, não é necessário enaltecer o enorme crescimento que se deu nos últimos anos: há cada vez mais artistas a actuarem em festivais (que também têm no alinhamento rappers estrangeiros, o que representa igualmente um sinal de aposta no género) e existe uma maior abertura por parte dos meios de comunicação tradicionais.

O panorama da indústria musical também se alterou, a um nível global. As vendas de discos diminuíram, as plataformas online de streaming aumentaram, as grandes editoras perderam força, as redes sociais e os projectos independentes ganharam-na, os concertos começaram a ser a principal fonte de rendimento para muitos artistas e o conceito de álbum viu a sua relevância questionada face aos singles.

Há uns anos, os músicos davam concertos para promover e vender álbuns, hoje fazem álbuns para dar concertos e poderem viver da sua música. E os singles — os hits de sucesso, desejavelmente num estado de quase viralidade — têm sido decisivos para tornar isto possível, mesmo que nem todos os artistas trabalhem com a mesma fórmula e tenham esta visão da coisa.

Esta introdução muito resumida desta realidade serve para expôr uma questão, uma problemática, um assunto que abordámos na página do Rimas e Batidas no Facebook, onde questionámos a importância que é dada aos feitos de uns e outros artistas, servindo este apenas como um mero exemplo.

Os The Gift, banda com uma larga carreira de sucesso na música portuguesa, tinham lançado há três semanas o vídeo para o single “Love Without Violins”, que — a bem da internacionalização — tinha estreado no jornal britânico The Independent e tinha a participação e produção de um dos mais reconhecidos produtores mundiais de sempre, Brian Eno. A novidade transmitida pela comunicação da banda — e, nada contra, é para isto mesmo que serve a promoção profissional dos artistas, é o seu papel — era, que em três semanas, o vídeo tinha atingido as 100 mil visualizações no YouTube, sendo assim “um recorde de popularidade e o vídeo dos The Gift que chegou mais rapidamente a este número”.

 



100 mil visualizações não parece nada mau (e não é!). Mas podemos e devemos comparar esse desempenho com o de alguns artistas do hip hop nacional que não têm os mesmos meios e ferramentas para promoverem a sua música nem atingem, de todo, o nível de internacionalização de uma banda como os The Gift, por vários factores. Olhemos, por exemplo, para o caso de Piruka, cujo vídeo para o novo single “Ca Bu Fla Ma Nau”, com a participação de Mota Jr, lançado na sexta-feira, 28 de Outubro, tinha ultrapassado as 100 mil visualizações em menos de 24 horas. À altura da publicação deste artigo, 6 dias depois de o single ter sido disponibilizado, já soma cerca de 870 mil visualizações.

Mas não é caso único, de todo. Focando-nos apenas em singles lançados durante o mês de Outubro, vejam o que se passou com “Limonada”, de 9 Miller, que tem 311 mil visualizações a contar desde o primeiro dia do mês; ou o tema que junta Kappa Jotta, Barrako 27 e M’Cirilo, chamado “Atiradores”, que soma 230 mil em três semanas.

Estes nomes são, muito provavelmente, desconhecidos para as pessoas do meio da indústria musical, agentes e managers, ou para as grandes editoras, que, na verdade, até já começam a olhar para este género musical com outros olhos: Valas assinou com a Universal; e os eternos independentes do hustle Força Suprema assinaram com a Sony Music este mês. Ainda bem para eles, ainda bem para a cultura e ainda bem para as grandes editoras que parecem (finalmente) estar mais abertas e a perceber a (cada vez maior) força do rap. A questão não é esta.

 



A questão que lançamos para esta mesa virtual de debate chamada Internet, e que depois pode ser transposta para espaços físicos por quem o desejar fazer, e para as conversas do quotidiano de cada um, é o facto de se sublinhar que um single tenha atingido 100 mil visualizações naquelas condições — e nada contra os The Gift nem contra quem trata da sua promoção, há muitos outros a fazê-lo — em comparação com artistas independentes que, em números, fazem muito melhor do que isso e subiram a pulso sozinhos, criando música de um género que demorou vários anos a ser “aceite”. Este artigo não pretende passar a ideia de que o hip hop é um género “coitadinho” tantas vezes “vitimizado”, mas quer, isso sim, abrir espaço para se pensar nestes assuntos que tanto nos interessam — aquilo que as pessoas estão a ouvir, de que forma, as diferentes dinâmicas e variáveis na relação entre música e comunicação, e por aí adiante.

Também não existem aqui quaisquer ilusões. Apesar de não termos estudos estatísticos acerca da realidade portuguesa, sabemos que diferentes tipos de “públicos” ouvem música de diferentes maneiras. Talvez o YouTube, que potencia conteúdos mais virais por associar imagem ao som, seja mais utilizado por um público mais jovem que ainda é a base dos ouvintes do hip hop nacional. Se calhar até é possível que os jovens oiçam mais música, no geral, em comparação com as gerações mais velhas, mas isso ainda é mais discutível e carece de bases científicas para poder representar um argumento.

O que também interessa perceber é o que, de facto, é música “popular” em Portugal e porque é que alguns têm oportunidades e outros não. Ou pelo menos porque é que alguns têm mais do que outros. Já mencionámos que os meios de comunicação tradicionais têm vindo a ter uma abertura maior em relação ao hip hop — depois de muitos anos de “nãos” (com as devidas excepções) e de um tentar abrir (ou escancarar) portas dos nomes mais veteranos desta cultura — mas será que chegou, e que já estamos num patamar justo, em igualdade de género com outros tipos de música?

 



Comparemos agora os números no YouTube de alguns dos grandes artistas nacionais, dos mais populares, e de alguns exemplos do universo das rimas e batidas.

Ana Moura é uma das maiores fadistas portuguesas de sempre e tem dado concertos em todo o mundo — esteve no início do mês de Outubro numa actuação de tributo a Prince no Minnesota, nos EUA, com a própria banda do ícone que desapareceu em Abril deste ano. O seu maior sucesso no YouTube é, de longe, “Dia de Folga”, com 4 milhões e 300 mil visualizações, o que é imenso, claro. Mas é sensivelmente o mesmo que Dillaz tem na mesma plataforma com “Mo Boy”, o single de um rapper que nunca deve ter aparecido na televisão ou nos jornais, e que conta muito poucos minutos de rádio. É aqui que queremos chegar. Isto significa que Dillaz tem mais fãs do que Ana Moura? Não, já todos demos por nós a carregar repetidamente no botão de replay de um vídeo no YouTube. Mas se calhar o rapper da Madorna — que tem cerca de uma dezena de temas com mais de 1 milhão de visualizações — merecia um bocadinho mais de destaque quando se fala de música em Portugal.

Como este exemplo, há tantos outros. “Melhor de Mim” e “O Tempo Não Pára”, de outra fadista de renome internacional, Mariza, somam, respectivamente, 4 milhões e 400 mil visualizações, e 5 milhões e 300 mil visualizações no YouTube — ainda mais do que os singles de Ana Moura e Dillaz. Mas “Solteiro”, da segunda mixtape dos Orelha Negra, que conta com as rimas de Sam The Kid e Regula, tem 7 milhões e 300 mil plays.

“Um Contra o Outro”, dos Deolinda, conta 3 milhões; ; “A Minha Casinha”, dos Xutos e Pontapés, 2 milhões e 500 mil; “Jardins Proibidos”, de Paulo Gonzo, tem 2 milhões e 200 mil; assim como “Flagrante”, de António Zambujo; “A Máquina”, dos Amor Electro, soma 2 milhões e 190 mil; apesar de não ser oficial, “Anel de Rubi”, de Rui Veloso, tem 2 milhões e 180 mil; e “Scorpion Flower”, dos Moonspell, chega aos 2 milhões de visualizações.

São números aparentemente expectáveis para os êxitos de alguns dos artistas portugueses mais populares, mas são todos ultrapassados pelo rapper de Vila Nova de Gaia Deau, cujo single “Diz-me Só” tem 4 milhões e 600 mil visualizações no YouTube; ou pelo já referido Piruka, que tem singles como “Vim Pra Ficar” e “Tens de Intervir” com 3 milhões; por Regula, que tem faixas como “Mêmo a Veres”, com Blaya, a rondar os 6 milhões de plays, ou “Casanova”, com 4 milhões. O primeiro tema que junta Mundo Segundo a Sam The Kid, “Tu Não Sabes”, tem neste momento 4 milhões e 200 mil visualizações; e ainda há o one-hit wonder Player, cujo tema “Dias Cinzentos” tem 6 milhões de cliques no YouTube.

 



Claro que isto também terá a ver com o investimento de tempo e o trabalho que cada artista faz nas plataformas digitais, até porque há músicos como Jorge Palma, Sérgio Godinho ou Luís Represas, por exemplo, que não têm nenhum tema no YouTube com mais de 1 milhão de visualizações, apesar de serem figuras incontornáveis da música portuguesa.

Podemos dar mais exemplos: o maior sucesso de Tiago Bettencourt no YouTube, “Morena”, tem 1 milhão e 700 mil views; o primeiro single de Rita Redshoes, “Choose Love”, tem 300 mil; um dos temas do último disco dos Deolinda, “Corzinha de Verão”, tem 600 mil; que estão ao mesmo nível ou são largamente ultrapassados pelos êxitos de rappers portugueses como Bispo (“Lembra-te” tem 2 milhões e “Pormenores” 1 milhão e 500 mil); Wet Bed Gang (“Não Tens Visto” tem 1 milhão e 500 mil); NTS (a versão acústica de “Ela Quer” tem 1 milhão e 200 mil); Plutónio (“O Amanhã” e “Orgulho” têm 1 milhão); ou Malabá (“O Nosso Som” com 1 milhão).

E podíamos estar a falar de outros nomes: Dealema, Mind da Gap ou Jimmy P somam outros tantos milhões de visualizações, além da Força Suprema, de NGA, Masta, Don G e Prodígio, que tanto em grupo — editaram a mega produção E A União Fez a Força com cada faixa com um videoclip — como a solo, é campeã lusófona, apesar de não ter a mesma projecção nos media que os artistas mais populares de outros géneros.

Esta é uma realidade que não se restringe ao hip hop, mas sim à música feita na periferia das cidades, nos “bairros”, onde existe o maior número de comunidades imigrantes — um fenómeno abordado no artigo do jornal Público de Joana Gorjão Henriques depois da sessão no TEDxLisboa de António Brito Guterres, sobre a “cidade invisível” de Lisboa.

Se os números são apenas consequência da maneira como se trabalha as plataformas digitais? Também não é verdade. Sam The Kid e Valete, que não editam álbuns desde 2006 — apenas um ano depois da fundação do YouTube — nunca usaram (pelo menos até à criação da TV Chelas de STK) a plataforma activamente, para promover os temas dos seus discos (Valete usou, sim, mas para divulgar faixas soltas), e não é por isso que os álbuns deixaram de ir parar ao YouTube e as suas faixas somarem milhões de escutas.

Se isto se prende, ao fim e ao cabo, com a forma eleita pelo público para ouvir música, podemos olhar para os maiores sucessos de bandas recentes com um público mais jovem, como os Linda Martini, os PAUS ou os Capitão Fausto. A música com mais sucesso dos primeiros é “Amor Combate”, com 575 mil visualizações, sendo que o single do novo álbum, “Unicórnio de Sta. Engrácia”, não alcança os 100 mil; o tema mais conhecido dos PAUS, “Deixa-me Ser”, tem 560 mil visualizações; e os maiores êxitos do novo disco dos Capitão Fausto são “Amanhã Tou Melhor” (435 mil visualizações) e “Morro na Praia” (200 mil), sendo que os outros temas do álbum lançado este ano não atingem sequer a marca dos 50 mil.

Pelo contrário, Holly Hood tem 1 milhão e 700 mil visualizações em “Fácil”, e 1 milhão e 100 mil em “Cobras e Ratazanas”, os dois principais êxitos do seu disco de estreia, editado este ano, O Dread Que Matou Golias. O novo single de Valas, “As Coisas”, lançado a 21 de Outubro, tem 178 mil visualizações — apesar de este já contar com a promoção da Universal. Supostamente, estamos a falar de um público com uma faixa etária semelhante e que deveria ouvir música da mesma forma.

 



Obviamente, e se há coisa que o hip hop também nos ensinou em muitas ocasiões, é que aquilo que verdadeiramente interessa é o conteúdo, e não as visualizações, os cliques ou os likes nas redes sociais. Quantidade não significa qualidade. O que é realmente importante é a música e a liberdade de opção e de gosto.

Ainda assim, esta reflexão continua a fazer sentido para nós, mesmo que, daqui a uma semana, falte na lista um novo single viral de rap português, ou os números das visualizações se tenham alterado de forma significativa — mas acreditamos firmemente que a tendência se manterá a mesma.

Se em Portugal o meio e a indústria do hip hop não atinge a grandiosidade da dos EUA — com as devidas adaptações à realidade local, claro — só nos resta perguntar se não teria a mesma força e impacto (até noutros países lusófonos) se houvesse um maior tratamento de igualdade de género musical. Será este o reconhecimento que falta ao hip hop português? Aqui colocam-se as perguntas, as respostas caberão a cada um encontrar.

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha