Portugal não merece o SP Deville

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [ILUSTRAÇÃO] Carlos Quitério

Acho que nada me incomoda mais do que ver artistas notáveis a serem postos de lado. Por culpa própria ou do contexto em que estão inseridos, existe uma série de pessoas de qualidade superior que não consegue vingar. Em Portugal, é notório que ainda estão construídos alguns muros que merecem ser demolidos e, como todos sabemos, um certo atraso em relação a ideias que vingam, de forma certa ou errada – não estou aqui para definir isso -, fora de portas.

Quando ouvi o novo single de SP Deville, voltei a sentir o que senti quando meti a rodar Sou Quem Sou: isto é demasiado bom para ser ignorado. Na altura em que escrevi a crítica ao disco, comparei-o com Anderson .Paak porque, lá está, achava que existia uma “sujidade” sónica que os impedia – mais ao SP do que ao .Paak – de serem muito maiores do que na realidade o são. No entanto, SP não só é um intérprete e escritor de canções acima da média, como também é um produtor que, num país moderno onde a pop fosse reflexo da música mais entusiasmante, seria requisitado por todos os grandes nomes.

À conversa com o próprio artista por e-mail, a mágoa está implícita no seu discurso: “Estou pelo Reino Unido e vou seguir a minha carreira por aqui como produtor musical e DJ. Se não são vocês ou outros blogues de hip hop, o meu trabalho é completamente ignorado pela indústria musical tuga. Cresci aqui pelo Reino Unido no meio de pessoal que mudou a história musical do mundo e já ‘tá na hora de tentar deixar minha marca por aqui”.

 



Sendo o mais sincero possível, o que vejo em Pedro Sousa não vejo em mais nenhum artista nacional: com 34 anos, a música que cria e manda cá para fora está cada vez melhor. Existe alguém com esta capacidade de reinvenção e evolução no hip hop nacional? A polivalência, mas, acima de tudo, a qualidade em todos os momentos. Ouçam-se alguns exemplos: “Longe” tem vibe lo-fi no instrumental e poética na escrita, “Olha Para Trás” é storytelling autobiográfico assombroso e “Kamasutra” é mantra sexual que vão cantar em voz baixa em casa, mas, na verdade, queriam entoar em uníssono com milhares de pessoas no vosso festival favorito.

Colaborou com Sam The Kid, Carlão, TNT, Blasph, Tekilla, Agir, Karetus, Karlon, Phoenix RDC, Beatoven, NGA, Bdjoy, Stereossauro, Gatos do Beko, Dom Rubirosa, Kroniko ou Malabá; teve sucesso em grupo com os Makongo e SP & Wilson. Depois de trabalhar com tantos nomes e em formatos tão diferentes, o álbum de estreia a solo editado foi uma autêntica bomba que comprovou a sua vitalidade e maturidade musical, algo obtido através da experiência variada, mas também daquele brilho a mais que separa os grandes dos soberbos.

Enfim, tudo isto para chover no molhado: há muitos rappers e cantores portugueses que já o ouviram e que sabem no seu íntimo que ele é bem melhor. Da mesma forma, há produtores nacionais que se viram obrigados a rever as suas notas depois de ouvirem mais um dos seus instrumentais. Por aqui, vamos continuar a segui-lo de perto, mesmo que deixe de comunicar musicalmente em português até porque o talento, quando é sério e sólido, tem dimensão universal. Ainda não sabes quem ele é? Espera:

“Queres saber quem eu sou
escuta meu som bro
Pedro Augusto Sousa
nascido a 29 de maio de 82 no Porto
filho da Nela e do Beto
que navega no vento
criado no ghetto
mas ensinado
que a maior derrota na vida
é o pensamento
e eu quero o Mundo
mas com pouco me contento
fui parar ao fundo
todos os dias pesadelos
tentei o suicídio
procurei o fim
perdi o equilíbrio
mas encontrei-me a mim.”