Pioneiros: Tod Dockstader, o homem que via o som

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Os dois volumes de Electronic recatalogados em 2012 pela britânica Mordant Music actualizaram dois álbuns originalmente lançados na Boosey & Hawkes, em 1979 e 1981. O que faz pleno sentido: a Boosey & Hawkes é um dos míticos selos de library music (música criada propositadamente para “ilustrar” documentários, filmes, anúncios publicitários ou genéricos de programas em rádio e televisão) britânica que influenciou boa parte do presente electrónico. Incluindo o presente imaginado pela Mordant Music cujo catálogo inclui importantes edições de gente como Vindicatrix ou, sobretudo, Ekoplekz, projeto do incansável Nick Edwards, ultimamente bastante activo com lançamentos na Planet Mu.

A Mordant Music é uma das etiquetas que na última década ofereceu um contributo para a denominada cena “hauntológica” que tem na Ghost Box o seu principal quartel-general. Parte da associação da Mordant Music a essa “cena” deve-se precisamente ao facto de também no seu catálogo se refletir a influência da memória catódica, com parte das suas produções a lidarem com o peso dos ecos dos sons criados pelo Radiophonic Workshop e instituições similares. Ora, a edição original destes dois álbuns de Tod Dockstader pela Boosey & Hawkes dita que muito provavelmente alguns destes temas poderão muito bem ter chegado à televisão britânica na transição dos anos 70 para os anos 80, bem a tempo de influenciarem gente como Nick Edwards ou Baron Mordant, o cérebro por trás da Mordant Music, que pode até ter-se deparado com um tema como “Knockwhistle” (de Electronic Vol. 2) num qualquer programa de sábado de manhã sobre a rede ferroviária britânica ou os serviços postais.

A importância destes dois álbuns de Tod Dockstader pode ainda ser reforçada pelo facto de ambos terem feito parte das reedições não autorizadas na Creel Pone, a etiqueta de “fac-similes” em CDR comandada por Keith Fullerton Whitman, ele próprio um ativo membro da comunidade eletrónica experimental internacional que tem na sua discografia obras como Generators ou Occlusions que devem, certamente, alguma coisa à visão pioneira de Tod Dockstader.

 


 

O primeiro trabalho publicado de Tod Dockstader data de 1961 e foi lançado na incontornável Folkways, a histórica editora de Moses Asch que se haveria de revelar fundamental na documentação de muita música de raiz, americana e não só, mas que deu igualmente profunda atenção aos desenvolvimentos pioneiros na música eletrónica. O título desse primeiro trabalho foi Eight Electronic Pieces (reeditado na Locust Music há uma dúzia de anos), ainda passível de aquisição no site da Smithsonian Folkways (como download digital, “custom CD” ou, pasme-se, cassete). No link atrás indicado podem aliás descarregar uma reprodução da capa original e das respetivas notas assinadas por Tod Dockstader a 30 de julho de 1961.

“As velhas batalhas em torno do uso do termo música em música electrónica deram lugar a novas batalhas em torno do termo electrónica. A electrónica é hoje geralmente aceite como um meio para fins musicais. Mas o que é ‘electrónica’ e o que não é tem gerado uma acesa discussão entre os compositores que hoje usam essa técnica. Os alemães e os holandeses têm insistido na pureza da sua música eletrónica usando apenas osciladores como fontes sonoras. Para os franceses, tal insistência na pureza é típico fanatismo alemão: eles preferem fontes sonoras naturais (concretas). Os americanos têm geralmente tomado um caminho intermédio, e esta opção parece ser a mais frutuosa, uma combinação de osciladores e fontes naturais. As oito peças neste álbum representam essa combinação”. E com esta introdução, Dockstader apresentava a sua visão programática e pragmática da música, posicionando-se entre escolas de vanguarda para encontrar o seu próprio caminho, fazendo da investigação em torno do efeito da voltagem nos osciladores e da manipulação de fita um terreno comum para a sua expressão musical.

Dockstader vinha de um background diferente, como relatou em 2005 à revista britânica Wire: “Talvez um trabalhador”, explicava, tentando definir-se. “Compositor sempre significou notação, instrumentação. Mas sim, eu componho o que sempre foi, para mim, música. Naqueles tempos havia muito conflito em torno da palavra música. Toda a gente passou por isso naquele tempo. Você sabe: O que é isto? Parecem efeitos sonoros. Mas eu sempre tive certezas no que estava a fazer. Porque, sabe, venho de um background muito diferente da maior parte dessas pessoas porque eles eram todos, sabe, músicos com M grande. O meu background era o de efeitos sonoros para cinema e engenharia de som por isso sempre me vi mais como um trabalhador, um operário, do que como um músico com M grande. Eu estava só a trabalhar com som”.

E o som foi sempre grande fonte de fascínio para Tod Dockstader, que, nascido em 1932 (no Minnesota, Estados Unidos), numa era pré-televisão, desenvolveu uma enorme paixão pela rádio que está na base de todo o seu interesse pelo som. Aliás, a série de três CDs Aerial lançada na Sub Rosa em 2005 e 2006 (continuam a ser os seus últimos trabalhos publicados) debruça-se precisamente sobre o estudo dos ruídos apanhados em emissões de ondas curtas, gravados para cassete e trabalhados depois como som em estado puro.

 


 

Foi nos estúdios da UPA, em Hollywood, que Tod Dockstader começou por trabalhar, nos anos 50, sonorizando séries animadas como Mr. Magoo. Quando a UPA faliu em finais dos anos 50, Tod Dockstader mudou-se com a sua mulher para Nova Iorque, para trabalhar como engenheiro nos estúdios Gotham Recording. Com acesso livre às horas mortas do estúdio, geralmente em períodos noturnos, Dockstader começou a usar as técnicas apreendidas na sonorização de filmes para compor diretamente para fita magnética.

Talvez por causa do seu passado em sonorização, a verdade é que a música de Tod Dockstader tem um misterioso poder visual, o que há-de ter justificado não só a encomenda da Boosey & Hawkes em finais dos anos 70, mas também, por exemplo, que Federico Fellini tenha usado material de Eight Electronic Pieces no seu filme Satyricon. Nas páginas da Wire, em 2005, o compositor oferecia uma explicação, dizendo que sempre gostou das dinâmicas no som, do seu caráter percussivo. “O som para mim é sempre muito físico. Consigo senti-lo e não apenas ouvi-lo. Tem personalidade. Tem peso, proporção. É como se lhe pudesse pegar e segurá-lo. Foi sempre assim, não sei porquê. Não tem nada de abstrato. Ele existe. E para mim não é invisível”.

Tod Dockstader trabalhou sempre fora dos circuitos académicos onde a música eletrónica foi sendo criada e imposta. Durante a década de 60, o compositor desenhou o seu espaço muito lentamente enviando peças da sua autoria para rádios com programas que passavam música de gente como John Cage ou Pierre Schaeffer, conseguindo por vezes ser tocado ao lado desses nomes estabelecidos. Pouco interessado nas dinâmicas académicas desta área, até os títulos dos seus discos e composições eram diferentes: “Queria títulos que soassem bem, em vez de Estudo em tal”. Curiosamente, uma das suas inspirações haveria de ser Quatermass, uma obra de ficção científica do escritor Nigel Kneale que haveria de ter um grande impacto em Inglaterra, precisamente devido a uma adaptação para televisão que mereceu banda sonora de Trevor Duncan e do BBC Radiophonic Workshop. Quatermass foi pois o título do seu segundo trabalho, em 1966.

(A obra de Nigel Kneale e a sua influência no universo da música electrónica foi aliás alvo de uma série de palestras em 2012 em Nova Iorque com o material principal reunido no livro The Twilight Language of Nigel Kneale cuja primeira edição m 2013 veio acompanhada de uma cassete recheada de exercícios de música electrónica, alguns dos quais criados por nomes contemporâneos associados à tal “cena hauntológica”. E se têm a sensação de estarmos a andar em círculos é porque essa é mesmo uma sensação apropriada: tudo isto está ligado. No artigo sobre a Recollection GRM disponível aqui citava-se Tristram Cary do Radiophonic Workshop e a sua ideia de que a música concreta lhe permitia “realizar música como uma gravação em vez de como uma performance”, ecoando assim as ideias de Tod Dockstader sobre o mesmo assunto. O livro sobre Nigel Kneale pode ser adquirido aqui).

 


 

Depois de Quatermass, Tod Dockstader ainda editou Luna Park, Omniphony 1 (com James Reichert) e Drone; Two Fragments from Apocalypse; Water Music, álbuns de 1966 com carimbo da Owl Records. Dockstader só voltaria a editar em 1979 e 1981 na Boosey & Hawkes (os álbuns relançados como Electronic Vol. 1 e Vol. 2 receberam originalmente os títulos Recorded Music For Film, Radio & Television: Electronic Vol. 1 e Vol. 2). Entre estes discos e a série Aerial da Sub Rosa há ainda que referir os álbuns Pond e Bijou realizados a partir de gravações de campo com o artista sonoro e plástico David Lee Myers e lançados na ReR Megacorp em 2004 e 2005, respetivamente.

A edição dos dois volumes de Electronic pela Mordant Music faz parte de um renovado interesse pela música do compositor que não só levou a Sub Rosa a editar a série Aerial há alguns anos como está na base de um planeado documentário sobre a sua vida e obra. Dockstader faleceu em Fevereiro de 2015, mas a demência roubou-lhe nos seus últimos anos a lucidez que em 2005 ainda marcava o seu discurso para o jornalista da Wire, Ken Hollings (um dos autores incluídos no livro sobre Nigel Kneale e um estudioso da história da electrónica). A música, no entanto, permanece clara e luminosa, tocada pelo génio e pela visão avançada de um homem que sempre teve uma relação de pura intimidade com o som.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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