Pioneiros: Juan Atkins, o techno rebel

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Quando Alvin Toffler procurou extrair sentido dos rápidos avanços tecnológicos que no final dos anos 60 empurravam o mundo inexoravelmente em direcção à realidade que hoje conhecemos não podia imaginar que o best-seller que lançou em 1970 – “O Choque do Futuro” – teria uma tremenda influência no campo da música: esse livro inspirou uma canção de Curtis Mayfield no álbum Back to The World (1973) que uma década mais tarde seria revisitada por Herbie Hancock e daria título ao álbum Future Shock onde se incluía o mega-hitRockit”. Algures entre a soul clássica de Mayfield, o jazz electrónico de Herbie e a projecção de uma “super sociedade industrial” onde despontaria uma classe de “techno rebels”, segundo as ideias de Toffler, haveria de se situar a visão de Juan Atkins, justamente apontado como o padrinho do techno: “sim, sou um futurista e isso significa, muito simplesmente, fazer coisas que nunca foram feitas antes…”

O homem por trás da “máscara” Model 500 que é também um dos principais ideólogos do techno esteve há alguns anos em Portugal para participar no evento Red Bull Music Academy Taster e proferiu uma palestra perante uma plateia atenta composta por Djs, músicos e produtores oriundos das comunidades electrónica e hip hop. Na arejada sala perto do Chiado, em Lisboa, onde o encontro teve lugar todos sabiam que estavam perante uma lenda: o som criado por Juan Atkins e outros visionários como Derrick May e Kevin Saunderson – a “santíssima trindade” – espalhou-se de Detroit para o mundo para se afirmar como uma língua franca que hoje, de certa forma, domina o planeta. Não mais “uma nação sob a mesma batida”, o mais correcto será agora falar de um planeta a pulsar perante o mesmo groove.

 


 


A história do techno começa na cidade que deu ao mundo a Motown e que serviu de primeiro trampolim a bandas como os Stooges e os MC5, oriundos de pequenas comunidades vizinhas. “Eu cresci durante a época do disco,” referiu Atkins, “e nesse tempo todos os DJs tocavam os mesmos temas e por isso a forma mais rápida para alguém se distinguir era tocar a sua própria música.” A necessidade é sempre mãe da invenção, até na música. Juan Atkins vinha de uma família musical, recebeu a sua primeira guitarra aos 10 anos e formou um gosto eclético a ouvir The Midnight Funk Association, programa em que a enigmática figura de The Electrifying Mojo tocava uma eclética mistura que ia de Jimi Hendrix a Parliament e de J.Geils Band aos B.52’s. “Eu sempre soube que queria fazer música. Tocava guitarra e baixo e bateria e por isso não precisava de depender tanto das máquinas. Em 1981 isso era necessário pois não havia ainda MIDI e os sequenciadores eram muito limitados. As máquinas de uma marca não comunicavam com as de outra marca.” E comunicação é um conceito central na música que Atkins ajudou a inventar.

As primeiras experiências de Juan Atkins com Derrick May eram inocentes mixes criadas com a ajuda do sintetizador Korg MS10 e de gravadores de cassetes que serviam para impressionar Mojo e marcar presença nos seus programas de rádio. As coisas ganharam uma maior seriedade quando Atkins conheceu Rick Davis na faculdade: “ele era um tipo isolado que nunca tocava com ninguém,” recordou Atkins a propósito do seu companheiro nos influentes Cybotron. “Um dia levei-lhe uma demo que criei no meu quarto e ele finalmente convidou-me para ir a casa dele. Quando entrei no seu quarto foi como entrar numa nave espacial – só se viam as luzes dos inúmeros teclados que ele tinha e isso impressionou-me imenso. Eu só tinha o Korg, mas o Rick tinha o Arp Odyssey, o sequenciador da Roland MSQ 100, tudo ligado, com aquelas luzes todas a piscar.” A química foi evidente pois o primeiro tema que criaram, como revelou Juan Atkins, foi “Cosmic Raindance”, uma das faixas de Enter, o mítico álbum de 1983 que colocou Detroit no centro da revolução electrónica cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir. “O resto, pode-se dizer, é história,” rematou, com justificada autoridade, Juan Atkins. A terceira faixa criada nessa sessão com Rick Davis levou o título de “Clear”, uma pequena obra-prima cuja longevidade se tornou evidente quando Missy Elliott a usou como base para “Lose Control”.

 


 


Atkins, que mais tarde criaria alter-egos como Model 500 ou Audio Tech e a influente editora Metroplex, fez questão de esclarecer que o impulso para criar música electrónica na Detroit de início dos anos 80 não veio, por simples desconhecimento, dos Kraftwerk, “mas quando os ouvi isso deu-me força, pois percebi que havia mais gente noutro continente a explorar as mesmas ideias.” Como o house de Chicago que encontrou um público na Europa antes de ser “descoberto” no resto dos Estados Unidos, o techno também precisou do trampolim do velho continente para se impor: “com a Europa o que aconteceu é que finalmente começámos a ser pagos pelo nosso trabalho. Não mudou a música, mas permitiu-nos encontrar um mercado. Quando comecei a vir à Europa era engraçado porque podia estar num Pizza Hut e ouvir house e isso seria impossível na América.”

Juan Atkins mantém-se activo até aos dias de hoje. O seu lançamento mais recente em nome próprio data de 2013: Borderland é uma criação conjunta com Moritz Von Oswald (discípulo claro de toda a escola de Detroit e fundador da influente Basic Channel) e foi lançado pela Tresor, a mesma editora que lançou The Berlin Sessions em 2004. Já o seu alter-ego Model 500 tornou-se, nos últimos anos, a designação sob a qual opera um colectivo que além de Atkins inclui, entre outros, os préstimos de Mike Banks, homem dos Underground Resistance. A última criação conjunta desta nova versão de Model 500 data já de 2015, tem por título Digital Solutions (a faixa “Hi Nrg” tem a colaboração de Amp Fiddler) e tem selo da própria Metroplex, etiqueta que completou este ano três décadas de histórica actividade.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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