Pete Rock & CL Smooth: a era dourada percorrida a dois

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Podíamos listar a grande quantidade de duplas que trilharam o caminho para o sucesso na estrada do hip hop nos seus anos de ouro, mas não vamos fazê-lo – o propósito aqui não é esse. No entanto, a fórmula ainda faz sentido nos dias de hoje. Ao longo dos anos, duplas como OutKast, Gang Starr, Erik B & Rakim, Kool G Rap & DJ Polo, Mobb Deep ou Run The Jewels, se quisermos falar do presente, causaram um impacto notável. Tantos por essa via fora. Curiosamente, o duo que hoje se apresenta no palco do Plano B, no Porto, é um dos casos mais efémeros do rap, no que a duplas marcantes diz respeito: falamos de Pete Rock & CL Smooth, pois claro.

Voltando atrás no tempo, as parcerias a dois criaram químicas impressionantes. Se hoje, com a facilidade que existe na comunicação à distância, podemos facilmente lançar um convite a alguém após uma triagem nesse grande catálogo que é a Internet, no passado era muito mais fácil criar esse laço criativo com os que nos eram mais próximos. Pete Rock e CL Smooth são um desses exemplos, dois jovens de Mount Vernon, uma cidade do estado nova-iorquino, cuja relação teve início na fase do ensino secundário.

Foi Dante Ross, na altura A&R da Elektra, que haveria de dar com a dupla, muito devido ao facto de Pete ser primo de Heavy D, a quem o produtor cedeu alguns instrumentais. Para os Heavy D & The Boyz, Peter Philips tinha já assinado as batidas de “Big Tyme”, “Peaceful Journey” ou “Letter To The Future”. O seu nome rapidamente passou a ser equacionado para o catálogo da Elektra, que levava já um bom historial na cultura do hip hop ao editar trabalhos de Grandmaster Flash, Brand Nubian ou KMD, o projecto de Zev Love X que o mundo viria a reconhecer (e temer) como MF Doom.

 



Embora o Soul Brother também gostasse de se expressar ao microfone, é pelo trabalho nas batidas que melhor o conhecemos. CL Smooth veio complementar o seu ritmo de trabalho, actuando enquanto voz principal da dupla, algo que não impediria Pete Rock de arrecadar a maior parte do protagonismo no primeiro EP do duo. All Souled Out completou 26 anos em Junho, e o primeiro single contava com o produtor a auto-proclamar-se “The Creator”. CL Smooth surge no vídeo atrás dos pratos, mas é Pete Rock a assinar o beat e a letra do tema.

O ano seguinte viria a tornar-se decisivo na afirmação do grupo, com CL Smooth a cimentar por completo um lugar enquanto um dos mais aclamados MCs da década de 90 e Pete Rock a surgir cada vez mais apurado na arte do corte e costura, dando vida a 16 temas feitos a partir de mais de 70 samples diferentes. Um dos seus signature moves era a utilização de instrumentos de sopro para dar vida aos refrões dos temas, algo inovador para o hip hop da época. Um desses exemplos é, sem sombra de dúvidas, o mais emblemático single da carreira da dupla. “T.R.O.Y.”, acrónimo para They Reminisce Over You, uma dedicatória ao malogrado Troy Dixon, membro dos Heavy D & The Boyz. Nele ouvimos CL Smooth percorrer a sua própria história e a destacar uma “portuguese lover” aos 14 anos de idade.

A primeira faixa retirada de Mecca and the Soul Brother foi alvo de um processo de construção diferente do habitual na rotina do grupo, muito graças à pressão do momento com a perda de um amigo. “Eu escrevi a música sem a música”, explica CL Smooth num dos episódios de Magnum Opus, da Complex, dedicado à concepção de “T.R.O.Y.”. “Havia música na minha cabeça mas não estava nada a tocar. E o Pete tinha música. Ele meteu-a e eu estava na cabine, a fazer o que eu faço, e ele parou-a por um momento e pediu-me para guardar aquela sessão para ele poder construir algo em torno do que eu estava a dizer”. É aí que surge Tom Scott, o saxofonista que dá vida ao tema, recuperado por Pete Rock para uma das mais emblemáticas canções dos anos dourados da cultura hip hop.

 



Foram precisos mais dois anos até Pete Rock & CL Smooth concluírem o disco que sucederia ao trabalho de estreia. The Main Ingredient voltou a reunir mais 16 faixas construídas a partir dos mais obscuros temas do cancioneiro soul e jazz americano. Roy Ayers, Les McCann, Ahmad Jamal ou Cannonball Adderley surgem na lista dos artistas samplados pelo Soul Brother, que voltaria a testar as suas rimas ao microfone pelo terceiro projecto consecutivo.

Ainda que o impacto comercial continuasse alguns furos abaixo do desejado, a dupla formada por Pete Rock e CL Smooth continuava a somar várias críticas positivas, sendo mesmo um dos grupos mais acarinhados pelo rap norte-americano. O trabalho mostrado até 1995 dava para imaginar um futuro promissor, até que ambos os artistas decidiram seguir caminhos diferentes após algumas divergências. No entanto, o afastamento mostrava-se uma ferida possível de sarar. Corey Penn viria a ser convidado para alguns dos trabalhos do produtor, como é o caso do primeiro e segundo volume da saga Soul Survivor. A situação foi agora totalmente ultrapassada e há até em vista um novo álbum a meias, 23 anos depois do último trabalho em conjunto. Tudo aponta para que o sucessor de The Main Ingredient chegue ainda este ano, e o Plano B surge no horizonte para colocar já alguns dos temas novos à prova em frente ao público português.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira