Percebes: “Queremos editar música sem estar submetidos a qualquer tipo de pressão”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Hélder White

Pedro Caldeirão, João Pires (Ka§par), Sara Sirvoicar e Mariana Cruz (Sheri Vari) formaram a Percebes no arranque de 2018. No manifesto que traça o propósito e os ideais que defendem enquanto colectivo, a Percebes revela que quer quebrar os standards da indústria musical, objectivo compreensível quando se coloca a paixão como pilar principal na abordagem á criação e à edição de nova música.

A primeira grande aposta surge no capítulo editorial e Pedro Caldeirão vinca a vontade de editar em vinil os três projectos que tem em mãos para 2018. Despertardamente, de Sheri Vari, marcou o arranque do catálogo nos formatos físico e digital. Seguem-se Ka§par, com o EP Epicurismo, que deverá aterrar nas plataformas digitais a qualquer momento, e ainda Early Jacker, um dos alter-egos de Hugo Caldeira Vinagre, também conhecido como Miguel Torga.

 



O Rimas e Batidas esteve à conversa com Pedro Caldeirão, Ka§par e Sheri Vari sobre o que motivou a criação da Percebes e o que é que este colectivo tem para oferecer ao mapa musical português. A recepção aconteceu em casa, em ambiente familiar, sob o olhar atento do Chefe, não o responsável pelos óptimos percebes da costa que nos foram dados a provar, mas o simpático buldogue que parece interessado em tudo menos na acção no centro da pista de dança.

 



Há uma pré-história da Percebes?

[Pedro Caldeirão] Não sei se se deve chamar pré-história mas há uma parte submersa da Percebes, em que nós falávamos muito e debatíamos muito sobre se isto era possível. Eu, a Mariana Cruz, o João (Ka§par) e a Sara Sirvoicar, que não está aqui hoje. Nós tínhamos a ideia de fazer qualquer coisa, não sabíamos era o que é que poderia ser. Achávamos que criar uma editora, só por si, não seria nada de relevante, à partida. Isto tendo em conta a quantidade de editoras e projectos novos que vão aparecendo. Então, para nós, tinha de ser qualquer coisa especial. Essa especialidade tinha de ser aquilo que cada um de nós conseguia trazer para o projecto. Só iríamos iniciar a Percebes se tivéssemos a certeza de que cada um de nós iria trazer o input certo para aquilo que é o colectivo. As coisas não podiam correr mal. Não podia haver um passo em falso. Foram muitas conversas e muitas cervejas – não só com percebes mas também com outros tipos de marisco. Havia sempre muitas ideias que terminavam em “percebes o que é que eu estou a dizer?”

É daí que vem o nome?

[Pedro] Não só. O João já tinha essa palavra em mente, com um duplo significado. Ele achava que o nome ia ser forte e fazia sentido em termos de conceito. Foi ele quem lutou mais para que este projecto fosse feito. Nós os dois já trabalhávamos juntos. A Sara, indirectamente, por estar comigo na OpAmp. O João achava que faria sentido darmos esse passo em frente, de criar a editora. Para que, de certa forma, tivéssemos o controlo de toda a cadeia do produto.

[Ka§par] Mas não foi só isso. Na verdade há ali um gap. Basicamente, a equipa de artistas de quem eu gostava, que até já tinha reunido anteriormente para trabalhar na Groovement, avançou para a TINK! e, no fim, o Zé desligou-se um bocadinho e nós ficámos “ok, e agora? Trabalhamos juntos nisto há não sei quantos anos. Está na altura de sermos nós a tomar as rédeas do nosso trabalho”. Estávamos sempre a trabalhar em colectivos que não tínhamos conceptualizado e que não tínhamos começado de origem. Houve um dia em que eu fui à praia da Adraga e estava maré baixa. Eu encontrei nas grutas um pequeno túnel que só dava para passar de gatas e ia até ao outro lado da praia, que não tem acesso. Quando me levantei vi as paredes cheias de percebes. Achei aquilo uma visão única. Dava para fazer uma linguagem visual completamente diferente. É um símbolo nacional, cultural. Uma espécie de ser vivo exclusivo da nossa cultura. Tem um nome muito particular. “É mesmo isto”. Era o que eu estava à procura desde sempre e nunca estive tão certo de uma coisa como tive naquele momento. Nunca tinha tido uma ideia original e seguido em frente com ela. Eu quis logo que isto fosse uma editora mas o Pedro dizia que já existiam demasiadas. E é verdade. Mas eu trabalho em editoras há vinte anos. Não iria ser para mim um problema, porque eu sabia que ia fazer isto à minha maneira e não ia estar a repetir conteúdos. Mas percebi a hesitação dele.

Muitas editoras querem ser americanas ou berlinenses. Vocês querem representar Portugal no mundo, é isso? Daí também a escolha do “percebes”?

[Ka§par] Claro. Podíamos ter feito isto com um nome em inglês. A música que estamos a lançar não é nada que não exista noutros lados. A cena é que, em Portugal, tu muitas vezes vês isso como uma certa apropriação cultural exterior, porque não é assumido. Nós estamos a lançar o conteúdo que nos está mais acessível e acho que nenhum de nós tem uma pretensão de ser super coeso e previsível na estética que a editora seguirá no futuro. Temos mais duas edições programadas e a partir daí logo se vê.

Vocês anotaram essa ideia na altura em que arrancaram com o projecto?

[Pedro] Sim, há um manifesto.

Quais são as linhas que vos guiam e que constam desse manifesto?

[Pedro] A filosofia — e isso vai ao encontro da ideia do nome — é não estarmos direccionados para as massas. Em termos estratégicos, logicamente que estamos no mercado global e queremos fazer algo que não seja só relevante em Portugal. O que nós tentamos é não ceder face àquilo que são as nossas influências e identidade. Queremos editar música sem estar submetidos a qualquer tipo de pressão.

[Ka§par] Aquilo que estamos a editar na Percebes são projectos que foram rejeitados por outras editoras mas nos quais nós acreditamos na mesma.

[Pedro] Mas nós não queremos que isto seja só uma editora. Somos um grupo de pessoas que quer fazer qualquer coisa. A editora é a ponta do iceberg, que o público vê. Mas até lá chegar há uma parte não visível, que são as nossas reuniões, a nossa forma de estar, os encontros com os amigos, dos quais podemos obter opiniões.

Vamos falar dos discos. Num momento em que se tanto se fala de representatividade feminina, é possível ler no vosso primeiro lançamento uma declaração de intenções?

[Sheri Vari] Nós decidimos que o primeiro lançamento iria ser o meu, não tanto por ser uma menina mas mais por ser um talento que estava a ascender. Queríamos começar com algo fresh.

[Ka§par] Não ponderámos esse argumento. Nunca ligámos ao facto de ser mulher ou homem. Interessa ser um bom artista. Não precisa de mais nada.

[Sheri Vari] Compreendo essa luta mas eu sempre me senti privilegiada por poder pertencer a um meio composto por tantos homens.

[Ka§par] Achámos que o disco da Sheri Vari é realmente particular. A única intervenção que eu tive foi enquanto engenheiro de som. Só misturei e masterizei. São ideias, exercícios e gravações dela. Tudo coisas que ela fez sozinha. Quando ela o terminou, eu não consegui descobrir um único tema que me fizesse soar a algo que eu já tinha ouvido noutro lado. O meu disco, por exemplo, está muito mais formatado do que o dela.

 



Falem-me dos planos para o catálogo da Percebes em 2018. Primeiro Sheri Vari, depois Ka§par. Que tipos de territórios vão mais percorrer?

[Pedro] Em princípio – e espero que assim o seja – vamos acabar 2018 com três discos. Esse catálogo foi logo pensado quando escrevemos o manifesto. Declarámos as nossas intenções. Nós não queremos ser uma editora de house ou techno. Achamos que temos qualquer coisa de diferente. O disco da Sheri Vari é uma viagem por entre diversos estilos. Muita gente até tem dificuldade em defini-lo e ainda bem. Propusemos ao Carlos Nilmmns para remisturar um dos temas de modo a completar o alinhamento.

Para onde é que aponta o do Ka§par?

[Pedro] Esse é mais acido, mais fogo. Já temos o test press do disco e queremos lançá-lo ainda em Junho. Depois vamos ter o Early Jacker, que eu gostava de ter cá fora no máximo até Outubro.

E o que apontam para o futuro? No vosso manifesto também falam em world dominance? O que nos espera em 2019?

[Sheri Vari] Eu estou confiante no que estamos a fazer. Mais do que qualquer outra coisa na qual trabalhei. Acho que tem tudo para correr bem.

[Pedro] Talvez a Sara e a Mariana não tenham tanto esse problema. Mas eu vim de economia e sempre disse ao Ka§par que temos de ter os pés bem assentes na terra. Editámos o primeiro disco e agora, para o segundo, eu só vou investir o mesmo quando o primeiro me der alguma coisa. E no terceiro, se for preciso, invisto um bocado menos do que no segundo.

[Ka§par] E tem de ser assim. Muitas editoras com catálogos bastante interessantes estouraram por não terem percebido o tamanho do passo que deviam dar a certa altura.

[Pedro] Com isto queremos dizer que em relação ao futuro… Vamos ver do que é que daqui sai. Há algumas coisas que eu gostava de fazer que não passam só pela edição em disco. Acho que há outras formas de mostrar música. Nem nos é possível ter um catálogo todo ele editado em vinil.

 



Que editoras é que vos inspiraram a formar a Percebes?

[Ka§par] Tenho de apontar aquelas pessoas que me apoiaram no início e me esclareceram sobre o funcionamento das coisas. O Rui Torrinha, da Groovement, apoiou-me bastante naquela fase inicial da editora e foi com ele que eu aprendi muito sobre a mecânica funcional do mercado musical. Com o José Salvador, da TINK!, a experiência foi muito diferente. Porque ele, ao contrário do Rui, já tinha sido músico e produtor. Com ele aprendi o lado da engenharia de som, dos arranjos, da produção executiva e também dos direitos de autor. Se na Groovement era mais por paixão e menos racional, na TINK! era o contrário. O Rui Murka também me ensinou muito enquanto eu trabalhei com ele, com o Kalaf e com o João Barbosa, já há muitos anos. Eu percebi o tipo de expectativa que se deve criar na música, de como é que as pessoas vão receber o nosso trabalho, etc. Mas também há uma série de aspectos contrários que eu não quero repetir.

Que cenário é este que vivemos actualmente? Lisboa Electrónica, Lisboa Dance Festival, DJs nos principais festivais nacionais… Vivemos um momento propício para uma editora como a Percebes se impor?

[Ka§par] Eu acho que sim, embora seja seguro dizer que se não o fosse nós criávamos a Percebes na mesma. Nós estamos a tentar viver isto muito aparte dessa situação toda que estás a descrever, mas que é real. A minha sensação é que há projectos mais sólidos e mais bem assentes do que outros.

[Sheri Vari] E o problema é que tu depois encaixas tudo no mesmo saco.

[Ka§par] Tu falas numa cena portuguesa e, normalmente, aquilo que vai parar à imprensa internacional, que raramente põe cá os pés, é uma narrativa muito fabricada sobre a realidade efectiva, sobre o que é a cultura de DJing em Lisboa. Não tem nada a ver com o que as pessoas lá fora pensam que é.

Em 2009, quando aconteceu o LX Taster, uma jornalista inglesa, que estava cá a convite da Red Bull, virou-se para mim e disse-me: “vou precisar que me leves a uma loja de discos onde eu possa encontrar discos do género dos Buraka Som Sistema”. Na altura não havia mais discos a soarem ao que soava o dos Buraka. Mas havia essa narrativa lá fora de que esse era o som de Lisboa, uma vibrante cena afro que não existia ainda.

[Ka§par] E nem sequer existe agora, tal como ela é descrita lá fora. Se nós vamos sair aos sítios principais onde se manifesta a cultura underground – o Suave, o Capela, o Lounge, o Musicbox, o Desterro ou o Lux Frágil – os DJs que eu vejo a tocar tanto tocam essa parte representativa luso-africana como a integram em linguagens internacionais completamente correntes e não a segregam. Não estás constantemente a ouvir os beats mais swingados de kuduro da Quinta do Mocho durante a noite inteira. Isso não é verdade. É muito mais realista tu ouvires um gajo sacar um beat desses no meio de um set de house, techno e funk.

[Pedro] Acho que é tudo relevante neste mercado da Internet. Isto é tudo uma grande montra. Todos os eventos e todas as festas, mesmo aquelas mais ou menos pirosas. Ainda bem que existem e que tu possas ter tudo nesse cardápio de possibilidades em Lisboa.

 


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