:papercutz no Plano B: A conquista do onírico

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTOS] José Crispim

O Plano B é um espaço no mínimo estranho para acolher a música etérea e assombrosa dos :papercutz: uma mistura de cabaret e bordel com museu de arte clássica, em que os reposteiros escarlates, as bolas de espelhos disco, os sofás de estofos de cabedal e os néons vermelhos em cima do palco servem de vivo contraste às estátuas gregas em cima do bar. Mas foi aí que a dupla nortenha de dream pop escolheu apresentar o seu novo álbum, King Ruiner, antes de o lançar, gesto que em si encerra uma coragem digna de louvor.

E embora tocar músicas ao vivo pela primeira vez seja sempre um ato arriscado, o que é certo é que os ingredientes da sonoridade da banda continuam os mesmos de sempre: a voz etérea e onírica de Catarina Miranda envolta nas batidas pulsantes dos sintetizadores analógicos de Bruno Miguel. Harmonias vocais pop em cima de paisagens eletrónicas densas, feitas de ritmos e melodias quentes, texturas ambientais, e percussão tribal. Isto é, um dream pop que tanto consegue ser mais intimista como épico.

A julgar pelo que foi ouvido esta noite, o novo álbum é muito mais semelhante a The Blur Between Us, e tão ambicioso, embora menos soturno. Desta vez não há efeitos de chuva e trovão, violinos plangentes, pianos de ambiência cinematográfica (pelo menos ao vivo) e a habitual justaposição de elementos acústicos a tratamentos eletrónicos (não ouvimos a guitarra de “Where Beasts Die”, por exemplo).

O foco da música está todo nos sintetizadores de Bruno e na voz de Catarina. Mas há a mesma percussão tribal e sonoridade épica de fim do mundo, e a voz assombrosa e surreal de Catarina Miranda, uma competente seguidora a Melissa Veras.

De fora ficaram, pois, as melodias delicadas e pueris de instrumentos acústicos (como o xilofone de “A Way To Emerge”, ou o piano preparado à Aphex Twin de Drukqs), o namoro com a música clássica, as batidas glitch, e a voz lânguida de Melissa Veras, presenças tão ubíquas em Lylac, o seu álbum de estreia.

 


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E a música continua a ser complexa e detalhada, feita de suaves oxímoros, simultaneamente épica e íntima, orgânica e electrónica, capaz de nos fazer sentir algo de intangível e indescritível, como a música desta índole deve fazer.

Posto isto, que dizer dos músicos em palco? A sempre mui feminina Catarina Miranda, de kimono e cara pintada, armada de uma simples pandeireta, um sintetizador analógico e um pedal de efeitos, foi amplificando e processando a sua voz durante o concerto, por meio de loops e ecos, de forma a conferir-lhe uma textura coral e celestial.

Sempre de olhos fechados, dentro do seu próprio mundo (o que passará na sua cabeça enquanto canta?), enquanto acariciava os seus cabelos ruivos, ora erguia as suas mãos em direcção ao céu ora se ajoelhava no chão, em contacto telúrico com as vibrações da terra, qual divindade pagã.

De grande alcance vocal, conseguiu sempre alternar entre a quietude e a intensidade quando era preciso, com perícia, confiança e carisma. Compará-la a Enya talvez seja demasiado óbvio, mas a sua voz possui as mesmas qualidades etéreas, harmónicas e a mesma aura de luz, embora, quando queira, consiga soar tão pop como Robyn ou Karin Dreijer.

Quanto a Bruno Miguel, manteve a sua guitarra Fender de lado durante quase todo o concerto e focou-se nos seus sintetizadores analógicos, sempre pulsantes, intensos e hipnóticos.

Como me confessou Bruno (sempre fascinado pelas relações humanas e em música que nos faz sonhar e nos liberta da condição humana), em modo semi-off the record antes do concerto, o novo álbum aborda a temática de vencer as adversidades e superar as expectativas frustradas com esperança no futuro. Liricamente, há aqui ideias de fuga, liberdade e desprendimento (como em “Trust/Surrender”), o que se traduz em letras como “I’ll find a way”, “Big things have small beginnings”, “You know that I’ll breakthrough” e “Ziooooooon!”.

O ambient drone que estava a tocar na sala antes do concerto serviu de perfeita introdução à densidade sonora do novo álbum, que deverá sair ainda este ano.

O concerto foi crescendo em intensidade, e as coisas começaram a agitar-se a meio, a partir de “Trust/Surrender”, com ritmos bem mais velozes e dançáveis. Continua a ouvir-se o synth pop de Ladytron ou The Knife e o ambientalismo de David Sylvian ou Enya lado a lado na música de Bruno Miguel e Catarina Miranda, prova salubre do seu ecletismo e força criativa.

E ainda houve tempo para revisitar “Rivers”, do seu segundo álbum, The Blur Between Us, para saciar os fãs que quiseram ouvir um clássico.

A última música começou por um ambient drone prolongado envolto em mistério, acompanhado por uma nuvem de fumo em palco, e aquilo que se assemelhou a uma dança do ventre de Catarina ao som de um kick drum insistente. O segredo, a sensualidade e o sonho juntos a terminar uma noite rica em cada um deles.

 


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Em entrevista ao Ouvido Alternativo, em Agosto deste ano, Bruno Miguel disse que a música era a derradeira forma de escapismo. Foi isso mesmo que o seu dream pop nos ofereceu ontem. Também disse que a música permite uma identificação profunda, mas talvez o sentimento seja antes de alienação, ou de imersão num mundo tão longínquo quanto surreal.

A sensação de ouvir :papercutz é, pois, a de entrar no mundo hipnagógico dos sonhos, de mão dada pelos dois músicos, e sair de lá mais feliz.

Escrever sobre música é sempre difícil, mas é uma tarefa ainda mais ingrata quando se trata de descrever música tão abstracta, que nos leva para tão longe. Bruno e Catarina cumpriram esse propósito, e mais não lhes podemos pedir. A sua música está viva e recomenda-se, e melhor aperitivo para o novo álbum não poderíamos ter pedido.

 


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