P. Adrix // Álbum Desconhecido

p. adrix álbum desconhecido

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Nídia em Bordéus, Lycox em Paris, P. Adrix em Manchester: o catálogo da Príncipe não é apenas uma clara montra da batida de Lisboa, é igualmente um mapa da diáspora. A disseminação global do som que a nossa “afro Lisboa” viu nascer sob tantos olhares desconfiados sobre a sua validade estética é uma realidade que resulta de ambição artística — certamente — mas também uma objectiva consequência das naturais necessidades dos que habitam as periferias: não apenas geográficas, mas também sociais ou culturais. Parece haver apenas duas opções: tomar de assalto o centro ou tentar a sorte noutro subúrbio, noutra equação, noutra realidade.

E talvez isso explique a melancolia que atravessa Álbum Desconhecido  que P. Adrix agora apresenta na Príncipe e que desemboca no oblíquo assomo fadista de “Tejo”, tema que abre o último terço do alinhamento e que se faz de um loop de cordas que são tão digitais quanto de aço, tão reais quanto imaginadas. Consequência de uma saudade alimentada pela distância? Mais do que provável. Mas tudo isso acontece porque, como será possível até certo ponto inferir pelos títulos, muitos destes temas funcionam como “retratos”: senão de lugares (“Tejo”, “Estação de Queluz”), talvez de momentos (“Zelda Shyt”, “Abertura de Roda”), de sentimentos (“Viva La Raça”) ou emoções (“Ovni”, “Sonhos”).

O “P.” que precede Adrix, esclarece-nos logo na sua abertura o texto que serve de apresentação de Álbum Desconhecido na plataforma Bandcamp, é inicial da palavra Produtor. Poderemos ver na utilização desse designativo o vincar de uma diferença em relação a muitos dos outros artistas do catálogo que não abdicam do prefixo DJ nas suas identidades artísticas (DJ Marfox, DJ Nigga Fox, DJ Lycox, DJ Firmeza…). Ou seja, um criador menos atraído pela gestão da eficácia para a pista de dança e mais interessado na exploração das possibilidades discursivas ao seu alcance? Talvez. O que não significa que P. Adrix descarte por completo a procura de eficácia de pista nas suas criações: logo no tema de abertura, “Zelda Shyt”, o jovem de 22 anos que aos 19 anos se estabeleceu em Inglaterra, procura demonstrar que apesar de ter a cabeça no espaço, a sua música nunca se afasta em demasia da órbita do planeta kuduro, ainda que a sua trajectória elíptica o possa trazer mais perto ou levar para longe da sua força gravitacional. Como acontece, por exemplo, no belíssimo “Estação de Queluz”, que no seu desenho melódico de tons menores revela uma natural saudade de momentos certamente especiais, provavelmente vividos com amigos. E lá está a psicogeografia periférica a assumir um lugar distinto neste tal mapa que o catálogo Príncipe também desenha.

A parte final do álbum, com “Sonhos”, primeiro, “Tejo”, logo depois, mas também “Viva La Raça”, representa o mais importante depósito de tons nostálgicos que pontuam todo o alinhamento. São temas em que o “produtor” assume o comando, com uma óbvia ambição narrativa e discursiva. Adrix não quer apenas agitar a pista, quer também ilustrar os filmes que rodam na sua cabeça e consegue-o com momentos de uma singular beleza: “Sonhos” flutua, literalmente, nos nossos ouvidos, mercê de um arranjo etéreo que parece capaz de nos elevar uns quantos centímetros acima do chão. E “Tejo”, como já sugerido, parece querer agarrar numa ideia tradicional de Lisboa e projectá-la no futuro, como se os Dead Combo de repente colaborassem num tema original com Jlin depois de saírem de madrugada de uma noite Príncipe no Cais do Sodré. O tríptico conclui-se com “Viva La Raça” que ao kick insistente contrapõe uma flauta moldada pela força do MIDI a um crescendo que poderíamos descrever como épico ou dramático.

É um ponto final perfeito para um álbum conciso, mas a transbordar de ideias, a que se regressa uma e outra vez com idêntica e renovada paixão porque há sempre um novo ângulo, um novo gancho que nos segura e nos agarra. Na versão digital há mais um tema bónus a considerar, um autêntico “Tornado” em que a “dikanza” da funda identidade angolana de Adrix é projectada no espaço sideral numa autêntica explosão rítmica a que é impossível resistir.

O catálogo da Príncipe, como o universo de resto, continua a expandir-se, não apenas em tamanho, mas também em ideias válidas para o futuro, fundamentais para o presente. A de P. Adrix resulta num Álbum Desconhecido, mas perfeitamente acessível. Basta clicarem abaixo…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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