Os Mandamentos do Moisés #1: não subestimarás o rap português

[TEXTO] Moisés Regalado [ILUSTRAÇÃO] Riça JL

Já todos ouvimos alguém dizer que não acompanha ou que não gosta de rap português. A opção é tão válida como qualquer outra e apenas se torna uma questão quando a escolha assume contornos de julgamento ou desdém. O fim dos anos 90 confirmou o “hip hop tuga” como subcultura de raízes firmes e o início dos 2000 viu nascer a primeira geração de rappers influenciados, quase em exclusivo, pelo rap feito em Portugal. Os mais entusiasmados adeptos da altura já diziam, com toda a propriedade, que o nosso rap era o melhor do mundo, mas aquilo que não passava de uma prova de amor, evidentemente exagerada, pode hoje dar lugar a uma discussão séria e perfeitamente legítima: consegue o rap português competir, em qualidade, com o que é feito no resto do globo? O mandamento esconde a resposta, só que é importante perceber o porquê.

O seu arranque oficial foi em 1999 mas já tínhamos entrado no novo milénio quando Sam The Kid provou que é possível acrescentar algo às técnicas que todos importavam, criando uma identidade que se distinguia a léguas. Ensinou-nos que o talento de DJ Premier para cortar e reagrupar samples pode ter paralelo e meteu, antes de qualquer outro, a música portuguesa a gostar dela própria. Se parece descabido considerar Sam e Premo como farinha do mesmo saco, basta ouvir e comparar “Recognize“, produzida por Premier para o colectivo The LOX, com “Não Chores Mais“, do rapper Kacetado, com instrumental made in Chelas. O ponto de partida é semelhante e o resultado obtido pelo produtor português não deve nada ao que Premier fez três anos antes. Mas Samuel Mira, que foi, durante largos anos, exemplo solitário para quem ambicionava produzir ao mais alto nível, já não é caso único de talento, competência e sucesso.

O trabalho de Here’s Johnny, a qualidade de quem o acompanha e a identidade da Superbad não são coisa pequena. Lhast, Khapo e Spliff já se afirmaram como nomes maiores de uma geração que, à sua maneira, também abriu caminho, e já ultrapassaram todos os tipos de fronteiras. A parceria de Khapo com Piruka rendeu-lhe uns quantos milhões de visualizações e fez da sua música um fenómeno tão grande quanto o MC da Madorna, a exemplo do que aconteceu com Spliff, braço direito de Dillaz que entretanto já cruzou o oceano para marcar presença num single de Costa Gold, uma das mais afamadas crews da nova escola brasileira. O currículo de Lhast, repleto de sucessos rap, pop e r&b fala por si, e o mais atentos já terão percebido que os artistas major adoram trabalhar com Last Hope. E, queiramos ou não, o mercado que agora “usa” o hip hop também faz a sua parte para alimentar a cultura, ainda que involuntariamente.

Os alicerces — imprensa, circuitos locais — já estavam montados mas tremiam, e nunca houve nada que não sacrifício próprio a reforçá-los. Os projectos não davam lucro e, mais do que isso, não fazia sentido mantê-los quando apenas representavam despesas. A boa vontade consegue, porventura, manter um programa de rádio local ou um blogue de periodicidade irregular, mas não assegura a distribuição nacional ou a presença online de uma revista, nem garante que haja público para um festival. Hoje, também graças à popularidade que bafejou o estilo, há estruturas incríveis que dificilmente desaparecerão, de tão entranhadas que estão na indústria. Há estúdios, técnicos, realizadores e organizadores de eventos altamente capacitados, e de agenda cheia, em quase todo o território nacional, e a influência da música hip hop permite desejar uma longa vida a plataformas como o ReB, o Rap Notícias ou o podcast Três Pancadas.

A quantidade, está visto, continua a ser o calcanhar de Aquiles, mas a qualidade já não é exclusivo de uns poucos: há mais do que um rapper a destacar-se ao nível do Boss AC de 1998, mais do que uma ou duas editoras a entrar no jogo e, pelo menos, mais ou um dois nomes a provocar os mesmos arrepios que Sam provocou e continua a provocar. A métrica de Regula, a escrita de NERVE, a entrega de GSon e o hustle de NGA não devem rigorosamente nada aos atributos dos seus camaradas norte-americanos, e a dimensão reduzida do país acaba por beneficiar o movimento, suficientemente pequeno para que não haja grandes barreiras entre sub-géneros. Se um dia foi possível ouvir Xeg e Adamastor com Fuse e Martinêz — figura maior do cenário independente mas responsável por edições de Freddy Locks, Prince Wadada ou Ngonguenha –, hoje temos L-Ali, parceiro de Vulto no underground, a levantar as bandeiras da Think Music de ProfJam e YUZI e, agora, da Superbad de Holly Hood.

O apoio das estruturas mainstream, que normalmente se manifesta através da procura (quando uma escola de música ou empresa de ghostwriting convida um rapper ou produtor, ou quando uma Universal contrata um Valas, que até há pouco tempo representava o paradigma do rapper para rappers), é essencial para incentivar um crescimento sustentável. Mas, para que o sucesso se prolongue, terá que funcionar a partir da base, e nunca de fora para dentro. Há espaço para o hip hop em canais de YouTube ou nas rádios privadas, bem como para relações prolíficas com organizadores de eventos e compositores de música ligeira. Só que o futuro, assumindo que a febre não dura para sempre e que o mercado não será “nosso” para sempre, depende mais da TV Chelas e de projectos semelhantes do que da Mega Hits, dos médios auditórios do que dos grandes palcos. Não só em nome da quantidade mas, sobretudo, da diversidade que sempre pautou o rap português.

 


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