Os 10 melhores álbuns nacionais de 2017

[ILUSTRAÇÃO] Abel Justo

O momento actual da música portuguesa é, sem sombra de dúvida, enérgico, plural e criativo. Do rock ao jazz, do hip hop à electrónica e do fado à pop, os autores estão a “aldrabar” os limites geográficos e, olhando para o panorama geral, isso deve-se a um cada vez maior à-vontade de mesclar géneros sem medos e, melhor que tudo, recorrendo aos “recursos naturais”. Usar e abusar da “nossa” Lisboa multicultural nunca soube tão bem.

O Rimas e Batidas procura dar voz a todos os “credos”. Transpiramos com a electricidade de Nídia, meditamos com a paz de espírito de Surma e barafustamos com a escrita punk-rock-Lou-Reediana de Tilt. Vamos à festa mais ecléctica com Slow J e sentimos, a certa altura, a audiência a reagir às mudanças de “humor” através dos Orelha Negra e Roger Plexico. Encontramo-nos num beco escuro com Blasph, experimentamos todo o tipo de “drogas” com Ângela Polícia na esquina seguinte e, sem nos apercebermos, estamos num club britânico a ouvir o Portugal dos Ermo. No final disto tudo, a caravela de SP Deville está pronta para nos levar à descoberta.

Faz-se omeletes com cascas de ovos e cria-se a melhor “comida” deste planeta. Não acreditam? Perguntem lá à Pitchfork ou à FACT se não é verdade.

 


[SLOW J] The Art of Slowing Down

O mais unânime dos discos portugueses lançados em 2017. Depois de The Free Food Tape EP, a fasquia estava alta, mas, como todos os grandes artistas, Slow J não meteu o pé em falso e distribuiu 15 faixas superlativas — é complicado encontrar uma música que, à sua maneira, não seja um sinal de grandeza do autor. O cantautor a sonhar com coliseus esgotados (“Serenata”), o MC monstruoso (“Comida”) ou o aventureiro à procura de terrenos exóticos (“Casa” e “Mun’Dança”) convivem harmoniosamente em TAOSD. E, à sua maneira, colocou o presente e futuro da música portuguesa nos créditos do disco — Nerve, Gson, Papillon, Fumaxa e sleep在patterns, caso não estejam a par. O ditado “devagar se vai ao longe” nunca foi tão bem aplicado…

– Alexandre Ribeiro


[ORELHA NEGRA] Orelha Negra

Aquela que é uma das maiores bandas de sempre da música portuguesa insiste na fórmula que a torna única, mas sem a tornar chata e repetitiva. É a sua essência. Embarcamos em mais uma jornada sinfónica épica pelos caminhos do hip hop, da soul, do funk, do disco ou até da synth pop, guiados por samples e notas quentes, frias e amenas deste quinteto de excelência. O terceiro álbum de originais de Orelha Negra é ouro, como os anteriores, resulta tanto em casa como nos concertos, e a maturidade e experiência só vêm consolidar mais toda a peça. Rendidos, como sempre.

– Ricardo Farinha


[SP DEVILLE] Black Gipsy

Não é por acaso que, mesmo sem qualquer tipo de jogada a nível de marketing/promoção/comercialização, o nome de SP Deville continua a brilhar bem lá no alto, nessa constelação enorme que é o panorama do hip hop português. A produção de Black Gipsy está ao nível do homem grande que é, com letras cantadas ou ritmicamente faladas sem qualquer tipo de espinhas que nos façam torcer o nariz. SP está longe, mas o disco que sorrateiramente despejou no YouTube faz-nos ignorar o facto de que este pode ser o seu último registo na língua de Camões — e ficamos a ouvi-lo por mais um bocado, até entrar em cena o replay seguinte.

Portugal precisa de mais artistas assim. Aqueles que, mesmo com o avançar da idade, dão provas de que se conseguem reinventar, mantendo sempre a fasquia elevada consoante os parâmetros da actualidade musical. Black Gipsy é o novo fado. Daqueles que deixará saudade.

– Gonçalo Oliveira


[ERMO] Lo-fi Moda

Existiam poucas dúvidas sobre o talento dos Ermo. Em 2013, a dupla entrou a pés juntos com Vem Por Aqui, um disco incrível que, apesar das suas inegáveis qualidades, ainda os colocava ao lado das suas referências — a própria capa do trabalho nos remetia para isso. E, sem grande aviso, sejamos sinceros, cai-nos Lo-fi Moda no colo, um devaneio electro-pop-experimental a pedir, novamente, audição atenta. Numa mudança pensada e ancorada numa nova sonoridade e renovação do imaginário visual — começaram a usar máscaras nos concertos, por exemplo –, António Costa e Bernardo Barbosa gritaram, em alto e bom som, que estão cá para agitar as águas portuguesas. E precisamos tanto disso.

– Alexandre Ribeiro



[NÍDIA] Nídia é Má, Nídia é Fudida

Ao longo das onze faixas do álbum (mais três na versão algo mais dilatada em CD), que quase sempre se detêm abaixo dos três minutos (apenas três temas ultrapassam esta marca enquanto que a faixa mais curta se extingue após meros 48 segundos), a intensidade urgente que sempre foi sua marca permanece. A diferença é que Nídia consegue agora injectar muito mais drama dentro de cada uma das faixas. Escute-se, por exemplo, “Dedo”: uma dramática linha de sintetizador, samples sobrepostos de vozes masculinas, pads que carregam ritmo, um pulsar afro-house e uma mais ampla distribuição de frequências pelos espectros de graves transformam esta peça numa insuperável bomba para as pistas, um tema que parece conter tanto de 24 de Julho às 5 da manhã numa noite de sábado de 1999 como de fim de tarde no Boiler Room em Nova Iorque em 2017.

– Rui Miguel Abreu


[TILT] Karrossel, Karma

Roubando as palavras ao Roger, que acompanhou de perto a evolução de Tilt em CO3 e ORTEUM: “O Karrossel, Karma é o Tilt a fazer yoga.” Este é um dos projectos mais profundos de 2017, uma triste pintura em aguarela com recurso às gotas de sangue derramadas pelas amarguras que a vida em sociedade por vezes implica.

Essa Roma que vive de “pão e circo”, cega de tanta ostentação, arde nos pensamentos mais explícitos vociferados pelo rapper da Margem Sul. Uma viagem sem regresso à qual se junta também Muka, um talento em bruto que assina a solo o tema de encerramento de Karrossel, Karma — “Fantasma” é dos mais sinceros e cristalinos poemas que o hip hop tuga viu nascer.

– Gonçalo Oliveira


[SURMA] Antwerpen

A música de Surma é tão frágil como a sua pessoa: faz-se de etéreas melodias que parecem viver suspensas de uma qualquer memória pop algo difusa; faz-se de melodias finas que remetem para territórios familiares, mas sempre complicados de identificar; faz-se de uma voz mágica, presa entre o sentido e a abstracção, entre um tom infantil e outro mais maduro; faz-se de palavras pouco perceptíveis e outras imaginadas por quem a escuta; faz-se de névoa electrónica, de rendilhados subtis de guitarra e farrapos de piano; faz-se de uma inocência incomum entre nós e de uma imaginação livre; faz-se de faunas e duendes e de sombras e luzes; faz-se de canções que se instalam na nossa cabeça como quem chega a um sofá confortável e encontra um merecido pouso para descanso. Faz-se de vida, em suma. Em Surma.

– Rui Miguel Abreu


[BLASPH] Stracciatella & Braggadocio

Carregamos no play e somos imediatamente comandados pelas rimas de Frankie Diluvio, que, mais do que pela sua Margem Sul, nos levam pelos meandros da sua mente blasphémica. Não há publicidade enganosa: a palavra braggadocio está no título do EP, mas os versos não são apenas para levantar o ego e entregar punchlines subliminares. Encontramos sombra e luz da vida do artista nas entrelinhas deste dilúvio de palavras. Além disso, o rapper — hábil no drible da lábia –, mostra toda a sua versatilidade a saltar entre estéticas jazzy, boom bap de 2017 e sonoridades trap — até sai da zona de conforto e abraça por momentos o auto-tune. O regresso de Blasph entra com nota alta na lista dos melhores álbuns do ano.

– Ricardo Farinha


[ÂNGELA POLÍCIA] Pruridades

Um dos casos sérios da Crate Records deu em 2017 o seu primeiro passo a solo. Vocalista nos Bed Legs, Fernando Fernandes arrumou as ideias que militavam no seu pensamento há demasiado tempo. O resultado ouve-se sob a forma de Pruridades, um ambicioso disco em que as produções arrojadas mostram que também em Portugal é possível criarem-se tendências exemplares de frescura, num sério jogo de ritmos e melodias avant garde.

As letras punk arruaceiras contracenam com a mescla sonora que paira na mente de Ângela Polícia. Influenciado pelo rock, o grime ou o drum’n’bass — com aquele doce sabor a rave de garagem ao estilo britânico. O resultado é mais uma nova mutação do hip hop, capaz de se reinventar a qualquer momento para nos surpreender vezes sem conta…

– Gonçalo Oliveira


[ROGER PLEXICO] Where The Sidewalk Ends

O segredo mais bem guardado da música nacional é Roger Plexico. Em Where The Sidewalk Ends, Taseh e Slimcutz multiplicaram-se e transformaram-se numa espécie de BadBadNotGood portugueses, capazes de mexer com linguagens jazz ou rap com mestria inabalável. Estão a precisar de uma banda sonora para a vossa vida? Tomem lá seis e escolham…

– Alexandre Ribeiro

ReB Team

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