Orelha Negra 2010-2017: A segunda mixtape do grupo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Prosseguimos aqui a publicação de uma série de textos do arquivo de Rui Miguel Abreu que abordam diferentes momentos da história que os Orelha Negra iniciaram em 2010. Desta feita, a crítica à segunda mixtape do grupo. O motivo para este regresso ao passado é, claro, a edição recente do terceiro ópus do grupo de Sam The Kid, DJ Cruzfader, Fred Ferreira, Francisco Rebelo e João Gomes. Podem para já ler entrevista com o colectivo e a nossa visão crítica do novo álbum antes de mergulharem nesta viagem ao passado que agora vos propomos.

 


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A mixtape é uma instituição do hip hop, é a ponte entre os criadores e as ruas, o documento que circula de mão em mão, pelo bairro e pela cidade, que nos enche os ouvidos de novas possibilidades, que vai mostrando o desenvolvimento do artista, como os traços na ombreira da porta com que os nossos pais iam acompanhando o nosso próprio crescimento. A mixtape é o espaço entre dois capítulos do livro, o interlúdio carregado de significado, a nova ideia que surge depois, o acrescento que se coloca sem pedir licença, o impulso reciclado, o lugar revisitado, o groove reenquadrado. E os Orelha sabem tudo isto muito bem.

Parece haver uma calculada simetria nos trabalhos assinados por Cruz, Mira, Rebelo, Ferreira e Gomes: dois álbuns em dois anos pares (2010 e 2012), ambos titulados simplesmente Orelha Negra. E agora a história deste supergrupo conta também com duas mixtapes, editadas em anos ímpares (2011 e 2013). O verso e o reverso. A história e o interlúdio. Mas faz tudo parte do mesmo caminho.

 



A Mixtape número 2 dos Orelha Negra vem carregada de novidades, mas também contém um par de repetições no que aos convidados diz respeito.  “Blue Tu” é o tema que merece mais versões, sendo revisitado por Osso Vaidoso (“Blue Marina”), Da Chick (“Blues Booze”) e pelo norte americano Amp Fiddler (“Queen of Hearts”), nativo de Detroit, amigo da lenda J Dilla, colaborador de Moodymann e membro dos Parliament/Funkadelic de George Clinton nos anos 80. Tanta história aqui. Duas mulheres que representam duas gerações e duas sensibilidades diferentes, Kika Santos (“My Best Kept Secret”) e Capicua (“A paixão é às vezes, o amor é todos os dias”), encontram a base perfeita em “O Segredo”, carregando de alma e consciência um tema que é suportado pelo sopro de um assobio e que combina balanço e cordas com total classe. Depois há outras duas gerações, estas de pés fincadas no hip hop, que partilham o “Espelho”: Fuse (“A noite em que eu nasci”) e Ruas (“Circulo Perfeito”) dão vida e rimas a um tema que parece ter sido resgatado à banda sonora de um filme dos anos 70, tal a tensão e o dramatismo que exibe. Há ainda espaço para Mónica Ferraz (“Heartbreaker”) que dá nova vida a “Throwback”, Carlos “Pac” Nobre (“Sempre Tu”) que atira as suas palavras faladas a “Bala Cola” e NGA (“Ovelha Negra”) que traz Prodígio e Van Sophie para o centro de “Viva Ela”. Sam The Kid, Regula e Heber dos HMB (“Solteiro”), entretanto, surgem em cima da remistura que Roulet criou para “Round4Round” enquanto que a participação de Amp Fiddler é pretexto para o exercício de alteração do tempo que Fred opera na pitchdown remix de “Queen of Hearts”.

Além de Amp Fiddler, as ligações internacionais dos Orelha Negra revelam-se ainda nas novas vidas insufladas por Georgia Anne Muldrow (“Round4Round (Fight Hard)”) em “Round4Round” e por Peter Hadar (“Dominoes”) em “Juras”. Para o fim fica a repetição do homem que já deu a melhor rima de sempre em cima de um tema dos Orelha Negra e que volta para contar histórias sobre a prodigiosa “Aurora” que fecha o segundo álbum deste colectivo: chama-se Valete (“Bastidores”). Juntamente com DJ Riot, Valete é o nome que repete a dose nesta mixtape. O DJ dos Buraka Som Sistema injecta breakdowns e graves em “Luta”, um dos temas cujas coordenadas são alteradas pela via da remistura: o mesmo acontece a “Golden Hotel” (Ezekiel?????), “Bala Cola” (Pocz & Pacheko), “O Segredo” (Stereossauro & Razat) e “Throwback” (que merece duas remisturas de Zombies for Money e DJ iZem).

 



Palavras onde antes havia apenas melodia e ritmo, rimas onde antes surgiam apenas as promessas oferecidas pelas cadências rítmicas, novas ideias, novas vestes pensadas para pistas de dança e auscultadores. A nova mixtape dos Orelha Negra volta a ser um ponto de encontro, um espaço para receber amigos e convidados, próximos e distantes, portugueses e de fora. Mas toda a gente fala aqui uma mesma língua, a da música que nasce do ponto em que a soul, o funk, o hip hop e algo mais se cruzam e se entendem.

 


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