Oddisee: “As pessoas preferem ser entretidas a serem educadas”

[ENTREVISTA] Alexandre Ribeiro e Ricardo Farinha [ILUSTRAÇÃO] Dialogue

Algures entre a realeza mainstream do rap americano, os novos miúdos do SoundCloud que cresceram na era digital e os clássicos veteranos, está um músico que é rei e senhor do próprio espaço. Oddisee estreia-se em Portugal a 24 de Novembro no Vodafone Mexefest, em Lisboa. O concerto que arranca às 21h20 no palco principal do Capitólio não vai contar com a sua habitual banda de apoio, os Good Compny, mas apenas com o rapper/produtor e o seu DJ.

De qualquer forma, é altura de finalmente apresentar aos portugueses os temas de discos como The Iceberg, lançado este ano, ou The Good Fight, Tangible Dream, The Beauty In All ou People Hear What They See, entre vários outros. O mais recente trabalho foi lançado esta sexta-feira, 10 de Novembro: Beneath The Surface é o primeiro álbum ao vivo de Oddisee e já pode ser escutado no BandCamp.

Oddisee falou com o Rimas e Batidas sobre o seu processo criativo, mas também acerca do que tem ou não mudado nos EUA a um nível social e político, a representação dos afro-americanos nos media, o rap que está no top da Billboard, as colaborações que tem feito e até sobre séries de televisão e a influência da paternidade na música.

 



Antes de mais, parabéns pelo nascimento da tua filha. Supomos que tenha sido difícil sair de perto dela e arrancar para uma nova tour noutro continente. O teu mindset mudou assim que te tornaste pai ou já estavas preparado para essa nova fase da tua vida? Sempre foste uma espécie de professor ou educador na tua música…

Muito obrigado. Sim, foi. Acho que, quando sabes que vais ter um filho, começas a preparar-te imediatamente. No meu caso e da minha mulher, nós decidimos que queríamos ter uma criança um ano antes, por isso a minha filha foi planeada há algum tempo. E depois tivemos nove meses para esperar por ela. Por isso ela está quase há dois anos a ser criada nas nossas mentes. Estávamos à espera e bem preparados para ela. Eu fui um daqueles miúdos surpresa, por isso queria ter a certeza de que, quando fosse a minha altura de ter filhos, as minhas crianças nunca seriam uma surpresa [risos].

E para ti, um artista que tenta, sem paternalismos, educar através da sua música, algo que crias a partir das tuas experiências, a motivação deve ser diferente agora. Imaginamos que cantares para milhares de pessoas, muitas delas jovens, possa ser uma forma de melhorar o mundo e o futuro em que ela vai viver… Pensas nisso desta forma?

Ainda não. É interessante, uma pessoa imaginaria que estariam correctos, mas acho que, por a minha filha ser tão nova na minha vida, ainda não me foquei no mundo exterior. Neste momento, só penso nela. Quando estou fora do palco estou a pensar nela, mesmo antes de subir ao palco estou a pensar nela. Quando termino uma tour, penso nela, e na minha mulher. Por isso, estou mesmo concentrado na minha família directamente. Acho que vai chegar a altura em que vou perceber o impacto que a minha família vai ter na minha arte e como vai afectar as pessoas que a estão a ouvir.

“What is there to fear? / I’m from Black America, this is just another year” Este teu verso parece endereçar uma verdade que foi negada durante a presidência Obama: as coisas não mudaram, só foram empurradas para debaixo do tapete. Sempre foste um céptico quanto à mudança de mentalidades nos EUA?

Essa é difícil. Acho que depende da pessoa que está a observar a minha opinião para decidir se sou um céptico, um pessimista, um optimista ou um realista. Depende mesmo de cada pessoa que está a ouvir aquilo que estou a dizer. Só conheço a minha realidade: e na minha realidade de crescer numa era Reagan, e na era Clinton, e de ambos os Bush, e Obama, e agora Trump, não houve grande mudança na América negra — onde eu fui criado. Porque, como sabem, a América pode ser muito segregadora. É quase como se existissem vários mundos a existir num só mundo nos Estados Unidos. Como é o caso de muitos outros países desenvolvidos no Ocidente, não é exclusivo à América. Mas no mundo em que vivo não tem havido grande mudança apesar de cada presidente que tem estado no poder. E isso é algo que não pode ser negado. Por isso não sei se é cepticismo ou realismo.

Ano após ano, os concertos na Europa continuam a ser uma constante na tua agenda. Com toda a problemática política e social dos EUA, como falámos agora, as viagens devem ser, de certa forma, uma mudança necessária de ambiente. Para quem ataca directamente alguns assuntos tão delicados, precisas de viver os acontecimentos para poder pintar imagens mais vívidas nas tuas canções? Ou seja, funcionar quase como um jornalista de guerra…

Sim e não. Não preciso de sair dos Estados Unidos, na verdade adorava simplesmente ficar em casa e trabalhar em música. Fazer uma digressão é uma necessidade, é uma parte da minha carreira. Se não tivesse de fazer tours, não fazia, para ser sincero. Sou uma pessoa muito caseira. Mas descobrir o quão parecida é a política na América e no resto do mundo é uma vantagem que tenho ao viajar, percebes que qualquer coisa que pensas ser pessoal ou exclusiva às tuas próprias experiências são universais. Acontecem em todo o lado. E isso é uma das coisas de que te apercebes quando viajas. Não preciso de viajar para ver a América ou para escapar dela, não preciso de uma pausa da América. É a minha casa, é onde quero estar. Mas é bom experienciar o que está a acontecer na América e estar em Londres durante o Brexit. Ou dar um concerto em Espanha, onde a Catalunha se quer separar do país, ou ouvir conversas entre os meus fãs em Itália sobre rumores de o norte do país se querer separar, ou a Escócia a lutar para sair do Reino Unido. Ou a crise da imigração na Suécia, ou na Alemanha, ou em França. E ter governos extremistas de direita quase a serem eleitos. Descobres que estas coisas não são exclusivas à América e que é a natureza humana. Levas as coisas menos a peito e ajuda-te a lidar com elas e a chegar ao máximo de pessoas possível, porque percebes que estamos todos a passar pelo mesmo.

Falando do teu mais recente álbum, The Iceberg: és alguém que escreve e produz durante as tours ou só começas a pensar em nova música quando estás em casa?

Eu tenho ideias que me aparecem na cabeça enquanto estou em tour, mas não trabalho demasiado nas coisas quando estou na estrada. É difícil, estou sempre a movimentar-me e não é um ambiente confortável. Mas tenho ideias para melodias ou assuntos para canções, títulos ou nomes de temas, escrevo-os no meu telemóvel e depois tenho uma série de notas de referência. E quando vou para casa, e estou finalmente fora da estrada, olho para essas referências e funcionam quase como um manual de instruções, ou uma planta. Ajudam-me a terminar mais rapidamente um álbum, porque acumulei tantas notas que funcionam como um guião. Conduzem-me àquilo que quero produzir, para não estar a criar cegamente, com esperança de que algo fique. Tenho mais confiança no que estou a produzir porque estou a seguir as minhas notas.

A Good Compny é a extensão do que fazes criativamente. Este disco tem dedo deles ou continuas a ser tu a assumir a produção e a deixar que depois eles interpretem os instrumentais para as versões ao vivo?

É um bocadinho dos dois. Eu produzo sempre tudo, e depois a minha banda toca por cima. É a mesma situação com este álbum: vou para casa, produzo um álbum completo, e, depois, um por um, levo o meu baixista, o meu guitarrista, o meu teclista, e faço-os retocar coisas que produzi. Neste disco em particular não fiz bateria ao vivo, o meu baterista Jon não está no The Iceberg, eu fiz todos os drums. Mas ele já esteve noutros álbuns anteriores.

Pode-se dizer que tens um groove único no hip hop americano. De onde é que isso vem? Da tua educação musical?

Acho que vem do meu próprio contexto. Ser de Washington D.C., que é uma cidade de música ao vivo, crescer numa zona predominantemente negra, onde havia uma mistura de vários tipos de música e culturas, e simplesmente estar ali ajudou a moldar a sonoridade da minha música. Sou apenas um produto do meu ambiente.

Como alguém que quer ser mais do que “beats e rimas”, achas que o hip hop actual — aquele que está a ocupar mais de metade dos lugares da Billboard Hot 100 —  está a falhar com aqueles que têm uma mensagem real para passar?

Não, acho que temos de entender que existem sempre mais ouvintes do que criadores. Em tudo. Há mais consumidores do que fornecedores. Esta é a natureza do negócio. E quando entendes isto, tens de perceber que a música que é popular só é popular porque a maioria da população quer. E podemos ser elitistas e autoritários, dizer que “isto é o que as pessoas precisam”, como criadores, e tentar controlar o que a população quer, mas as pessoas têm-nos dito ao longo de gerações e gerações que preferem ser entretidas do que preferem ser educadas. Podemos ir até aos coliseus romanos, onde o império distraía as pessoas ao dar-lhes jogos como os Olímpicos para os distrair de situações que estavam a acontecer na política. Os humanos preferem entretenimento à educação. Isto não é culpa do artista, e não posso culpar qualquer artista que decida dar mais entretenimento do que educação porque é isso que a maioria das pessoas quer. Em Portugal, em Espanha, na América, no Reino Unido. Uma discoteca na sexta-feira à noite vai estar mais cheia de pessoas, a querer festejar e a tentar escapar das dificuldades da sua realidade, do que uma biblioteca.

 

 



Há cerca de dois meses, entrevistámos uma das maiores bandas em Portugal, eles chamam-se Orelha Negra, e diziam-nos que ouviam os teus discos para tentar chegar à melhor fórmula para misturar sampling com banda ao vivo. Tens noção dessa tua influência noutros músicos e bandas? Costumam abordar-te a mostrar esse apreço?

Não [responde com ar surpreendido], ninguém vem ter comigo para dizer coisas assim. Não acontece.

Queríamos também falar contigo sobre as colaborações que andas a fazer. Estás no novo álbum do L’Orange. É o vosso primeiro tema juntos, certo?

Sim, a Mello Music convidou-me para gravar algo para um beat dele. O Mike da Mello Music enviou-me a faixa, eu gravei e enviei de volta. Basicamente foi isso.

Também estiveste no estúdio com os Jazznova, um grupo do qual já assumiste ser grande fã. Como é que foi trabalhar com eles? Cumpriu com as tuas expectativas?

Foi fixe. Acho que muitas vezes as pessoas ficam surpreendidas com o quão rápido eu trabalho. Os Jazzanova tinham enviado a faixa para o meu manager uns dias antes da sessão, o meu manager enviou-me a faixa, eu escrevi a letra nalgumas horas, e depois fui ao estúdio e gravei nuns 15 minutos. Acho que eles estavam à espera de que eu escrevesse a letra no estúdio, mas não sou um fã de escrever em frente de outras pessoas. Acho que é uma perda de tempo eles estarem sentados a olhar para mim a escrever. Por isso, escrevo sempre antes de ir para o estúdio. Acho que a experiência toda deve ter durado uns 15 minutos.

Mas sentes-te desconfortável por outras pessoas estarem a ver-te a escrever, ou à tua espera?

Não, eu é que sou mesmo de usar o tempo de forma eficiente. Em muitos estúdios as pessoas pagam à hora. Por isso, porque é que haveriam de se sentar e olhar para mim a escrever?

Reparámos num post do teu Instagram sobre a série Insecure, escrita e protagonizada pela Issa Rae. És fã? Com tantos concertos, tens tempo para acompanhar alguma televisão e cinema?

Claro, vejo televisão e filmes com a minha banda, a minha mulher, e quando estou sentado a viajar de cidade em cidade. Tenho visto uma série animada chamada Big Mouth, estou à espera que Stranger Things comece [a entrevista aconteceu no dia 26 de Outubro], A Guerra dos Tronos, Legion, Vikings, Atlanta, Broad City, Curb Your Enthusiasm, sou um grande fã e estou feliz que tenha começado a nova temporada.

Pegando em Insecure e juntando-lhe séries como Master of None, por exemplo. Há uns dias, reparávamos num comentário numa rede social a falar da falsificação da representação multicultural nas novas séries e filmes, ou seja, que andavam a forçar um multiculturalismo que não existe só para ir de encontro ao politicamente correcto. Falando da tua experiência: sentes-te representado na cultura popular, actualmente?

Sim, sinto-me representado, o máximo que posso ser. Até a população do mundo ocidental se alterar drasticamente acho que sou representado o máximo que posso ser. Como um americano negro, eu só faço parte de 11% da minha população nos EUA. E somos uns 11% muito, muito fortes, que têm feito coisas incríveis na nossa história. E acho que somos representados o máximo que podemos ser numa sociedade sistematicamente racista que nos introduziu ao mundo ocidental pela escravatura. E o facto de apenas sermos 11% e termos esta quantidade de programas de televisão, e que a nossa luta tenha permitido que os índios ou os asiáticos tenham os seus próprios programas de televisão, etc, isto foi tudo feito por uma pequena percentagem da população que deixou tudo isto passar e existir. Temos um caminho longo a percorrer pela igualdade, mas nem sequer sei se a igualdade é algo exequível num sítio onde só compomos 11% da população. Acho que a maioria da América branca nunca estaria verdadeiramente confortável com o tipo de igualdade que as minorias querem ter, como representação igual nos media. Como se dá representação igual a uma população que não é igual em número?

Como é que responderias a essa questão? Qual é o caminho para chegar à igualdade?

Não tenho a certeza se muitas vezes as pessoas querem igualdade ou querem reconhecimento. Não tenho a certeza. Essa é uma questão que tem sido um puzzle para mim há muito tempo. O Kanye West quer igualdade no mundo da moda, em relação a todas as casas europeias, ou quer reconhecimento? Queremos um Grammy ou um Óscar por ser um prémio, mais do que um BET Music Award, ou queremos reconhecimento? Pessoalmente, eu não quero reconhecimento de ninguém. Não quero saber se um Grammy ou um Óscar me reconhecem. Ou se uma instituição famosa da arte me reconhece, como a Billboard. Porque elas são-me desnecessárias. A minha população reconhece-me, e consegui chegar a pessoas fora da minha cultura. Consegui chegar a elas sem me comprometer a mim próprio. Mas receio que muitas pessoas que lutam pela igualdade na verdade queiram reconhecimento: querem ser aceites, procuram aprovação, o que é uma longa conversa sobre aquilo que experienciámos com a escravatura. De querer reconhecimento, aprovação e aceitação dos nossos opressores. Em vez de abdicarmos do poder que lhe damos. Sim, estas instituições são o que seguram o poder: as distribuidoras, as editoras, as cerimónias de prémios. Têm tanto poder em determinar quem tem sucesso e quem não tem. Quem é famoso e quem não é. Porquê? Porque é que queremos tanto saber? Porque é que lhes damos tanto poder? Eu não dou.

Ouvíamos a tua entrevista na Hot 97 na altura em que saiu The Good Fight e achámos graça à forma como falavas do teu estilo de vida, muito diferente de grande parte dos rappers que conhecemos. Por exemplo, falaste de museus. Existe algum artista — não-musical — que inspire directamente o teu trabalho? Tens referências no mundo visual?

Sim, são vários. Frank Lloyd Wright foi um arquitecto americano muito popular na arquitectura de meio do século [XX], e no design dos anos 50 e 60, e muita da minha estética e de como faço o meu processo criativo é inspirada por ele. Sou um grande fã do Tinker Hatfield, um dos designers da Nike. Adoro a abordagem dele ao estilismo de ténis e a incorporação dos materiais, mas sem nunca esquecer a importância do pragmatismo, e ao mesmo tempo tem beleza e estética. São coisas que tento pôr no meu próprio trabalho, não quero comprometer a aparência ou o som de algo apenas para dar uma lição e inspirar as pessoas. Uma coisa não deve comprometer a outra. Só porque é educativa, não significa que não possa entreter. E porque entretém não quer dizer que não possa ser educativa. Tento dar os dois e inspiro-me muito em designers para o fazer.

O que é que tens ouvido recentemente?

Oiço tanta música. Gostei do álbum do Daniel Caesar, tenho ouvido muito. Tenho ouvido Migos, o álbum Culture é um dos meus favoritos do ano. Oiço pelo menos uma vez por semana. Também tenho ido atrás e ouvido bastante Outkast, UGK e Three 6 Mafia, do início dos anos 2000, tenho saudades, era o que ouvíamos em casa em DC, antes de eu ter saído de lá. Também tenho ouvido Battlecat, que é o meu produtor favorito da Costa Oeste.

E a tua playlist muda consoante o que fazes?

Sim, claro. Viagens grandes de carro, comboios, aviões, viagens de manhã, cozinhar o jantar em casa, andar de bicicleta em Brooklyn, são diferentes playlists e diferentes vibes musicais de que estou à procura, que dependem do que estou a fazer.

Vai ser a tua primeira vez em Portugal no Vodafone Mexefest. Conheces alguma coisa do nosso país?

Sei onde é, sei qual é a língua, conheço alguma da história colonial e o papel de Portugal nas Américas. Sei mais a um nível histórico do que sobre o Portugal actual.

 


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