MEO Sudoeste: Uma noite inteira a ouvir as diferentes nuances do hip hop português

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Daniela K. Monteiro

A maior representação nacional do hip hop português em festivais de verão aconteceu no MEO Sudoeste 2017. 1, 2, 3, 4, 5, (pausa para respirar…), 6 (!) concertos com rimas e batidas nacionais.

E deu para tudo, mas comecemos devagar e pelo “jogador da casa”. Valas, o talentoso artista de Évora, contou com o apoio do Alentexas para brindar-nos com uma actuação segura, digna e assertiva. Este rapper não entra em grandes voos, mas não é isso que lhe compete: ouçam “Alma Velha”, “Bitches & Dogs” ou “Die Like a Rockstar”.

Depois de chamar o resto da Matilha (Perez, Brazza, Bob O Vermelho) para se juntarem a ele, a DJ Sims e a D. Beat, Valas aproveitou a oportunidade para demonstrar (demasiada?) sinceridade com o público e revelou que tinha perdido a virgindade neste mesmo festival há cerca de 12 ou 13 anos. Não é todos os dias que se actua num sítio que nos diz tanto…

Como aconteceu no Sumol, Valas fez-se rodear daqueles que o acompanham desde sempre, algo que demonstra a enorme humildade do artista natural de Évora.

 


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“Dragões e Demónios” foi a banda sonora de saída para o palco Moche X Spot – onde decorreu a curadoria dos Orelha Negra – , local em que Kappa Jotta actuava ainda o concerto de Valas não tinha terminado. Com o DJ nas costas, o rapper da Linha de Cascais mostrou o poder que carrega na voz rouca.

E fê-lo com um pé no passado e outro no presente: “Movs”, faixa lançada recentemente, ou “Sem Convite”, tema produzido por Lhast e um dos maiores singles de K, meteram as centenas de pessoas presentes a contribuir para a festa com voz e mãos ao serviço de um artista que sabe comandar a multidão.

Antes de partirmos para o concerto de GROGNation – sim, a noite foi tão intensa como parece – , o autor de Vírus trouxe Bad Tchiken a palco para cantar “#ÀVONTADE II” e trazer um pouco de afrotrap para a festa. “É um sonho estar aqui”, conta Kappa Jotta. O MEO Sudoeste era uma meta desejada por muitos rappers nacionais e o artista da Linha de Cascais não é diferente.

 


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Ainda nem sequer vislumbrávamos qualquer elemento do grupo de Algueirão,  Mem Martins e o público já entoava 2725, um cântico que era uma espécie de calmante para os nervos, “nós estamos aqui. Vai tudo correr bem”. Não sabemos se foi preciso ou não, mas a verdade é que já existe pouco a acrescentar sobre as actuações do grupo, até porque eles têm química, energia e todos, sem excepção, são talentosos.

A actuação passou maioritariamente pelo álbum de estreia com “Vou na Mema”, “Chama-me Nomes”, “Problemas”, “Barman”, “Amar Para Esquecer” ou “Molio”, faixa que teve direito a recriação do videoclipe ou seja, todos de azul a disparar versos sem dó nem piedade.

Com a audiência – uma das melhores e maiores que vimos no palco LG – conquistada à partida, os GROGNation não se deixaram intimidar e, 3 anos depois de terem passado pelo festival, reclamaram o título de melhor grupo português de hip hop da actualidade.

 


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Por falar em colectivos vibrantes, a Think Music, editora liderada por ProfJam, estreava-se num grande festival – ou em qualquer tipo de festival, na verdade – com a equipa completa a invadir o palco Moche X Spot. Oseias., Rkeat. e Osémio Boémio ficaram atrás da mesa enquanto os MCs foram “cuspindo” no meio dos destroços sonoros que ocorreram durante o showcase de novos talentos na Zambujeira do Mar.

A experiência proporcionada pela label foi estruturada com minúcia: a segurar a bandeira do wordplay, Benji Price. e L-Ali entraram em primeiro lugar e atiraram-se a um tema que, muito provavelmente, nunca se irá repetir, pelo menos com aqueles versos e instrumental. Mas a faixa colaborativa terá que acontecer. O rap nacional precisa disso.

A dupla continuou em palco durante uma série de faixas como “2 am in shibuya”, “40.oz freestyle”, “Tanque”, “Baba”, “Banghello” e “Trono”, novo tema de Benji que ainda não foi lançado. O culminar desta fase foi a entrada de ProfJam para se juntar ao resto da turma e rebentar com “UIAIA”, um dos bangers do ano, sem dúvida.

Neste evento especial, oportunidade para uma actuação inédita de Phoenixx MG, rapper que ainda não foi oficialmente apresentado como membro da Think Music.

De seguida, YUZI entrou em palco e recebeu a maior ovação da noite. O artista era, claramente, o nome mais esperado no concerto e #YuziGang conseguiu causar o caos total na frontline. É impossível negar a força que o trapper tem ao vivo. Adiante.

A chamada foi feita e quem atendeu foi Prettieboy Johnson, outra das coqueluches da editora. “Money Bags” e “Vitamina” mantiveram a vibe carregada de graves. Com todos os membros em palco, o final aconteceu com “XXX” e, adivinhem, o pandemónio à porta aberta. O futuro é promissor.

 


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Depois do adiamento de Lil Wayne para actuar depois de Martin Garrix, os Wet Bed Gang foram o nome que se seguiu no horário. Bafejados pela sorte – era inevitável que muitos dos fãs de Weezy também fossem os seus – , o grupo composto por Kroa, Gson, Zizzy e Zara G entrou com o pé errado (fora de tempo) em “Todos Olham”, mas recompuseram-se imediatamente, sendo servidos de forma excelente por Conductor, o DJ da actuação.

O brinde da noite foi um remix de “All The Way Up”, faixa de Fat Joe e Remy Ma, mas bombas como “Essa Life é Good”, “Aleluia” ou “Kill’em All” obrigaram as pessoas a saltar sem parar, uma bela continuação da festa começada pela Think Music.

No palco Moche X Spot, um dos momentos mais bonitos e emocionantes da noite aconteceu com “Já Passa”, faixa que conta apenas com Gson e Zizzy. O segundo acabou por se emocionar quando entrou na segunda parte da música. Com a velocidade dos acontecimentos recentes para o grupo, é natural que os sentimentos acabem por vir à tona. No entanto, isto só veio dar alguma “cor” ao concerto dos WBG. O grupo tomou de assalto o festival com uma das actuações mais explosivas que vimos na Zambujeira do Mar.

 


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Para fechar as actuações de rappers no palco Moche X Spot, Bispo entregou-se ao público presente – que diminuiu para metade em relação aos Wet Bed Gang. Na companhia de Fumaxa, o MC de 2725 começou com “Dinâmico” e criou uma nova narrativa com uma série de faixas do EP Fora D’Horas ou do álbum Desde a Origem.

O fim do penúltimo dia aproximava-se, mas os MCs nacionais ainda não estavam dispostos a deixar de dar um ar da sua graça. DJ Big convidou Kristóman e DJ Stikup levou Phoenix RDC, dois nomes que não teriam ficado nada mal no cartaz do MEO Sudoeste.

A vitalidade do hip hop português não é um mito e esta série de actuações serviu para comprovar isso mesmo. No final, venceram as rimas e batidas nacionais. E que vitória contundente!

 


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