Nicolas “Nik Pascal” Raicevic: um mistério redescoberto pela Wah Wah Discos

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

A catalã Wah Wah Discos acaba de relançar a discografia de Nicolas “Nik Pascal” Raicevic: trata-se de 5 LPs de edição limitada (500 exemplares apenas…) que recolocam no presente o catálogo da Narco Records originalmente lançado em curtíssimas prensagens privadas no arranque dos anos 70, na Califórnia.

Esta discografia já tinha recebido atenção da Creel Pone de Keith Fullerton Whitman (este catálogo “oficioso” em CD-R parece aliás funcionar como guia para muitas reedições legítimas, casos, por exemplo, de trabalhos de Tod Dockstader, Zanagoria ou Jocy de Oliveira, para citar apenas alguns exemplos recentes) que reuniu num duplo CD todo o material da Narco. Mas agora, os álbuns The Sixth Ear (1972), Magnetic Web (1973) e Zero Gravity (1975), originalmente assinados como Nik Pascal, e ainda Numbers (1970), creditado a 107-34-8933 (e que foi também lançado pela Buddah Records e creditado a Head), e Beyond The End… Eternity (1971) de Nik Raicevic merecem relançamento em edições de 500 exemplares em vinil de alta qualidade.

 



Trata-se, claro, de um importante reencontro com o presente. Raicevic pertence aquela obscura classe de pioneiros da electrónica que trabalharam separados do mundo, num plano de pensamento à parte, e sem que quase ninguém reparasse nisso contribuíram para o futuro com desafiantes usos de uma tecnologia que era então ainda emergente e para a qual ainda não se tinha propriamente erguido um novo léxico. Estes discos representam, muito literalmente, o desbravar de uma nova fronteira.

 


Quatro tesouros da electrónica na fornada mais recente da espanhola Wah Wah


A Wah Wah, como de resto é habitual, faz um incrível trabalho nestes relançamentos, devolvendo aos discos a sua justa glória analógica com prensagens limpas em vinil de qualidade que rendem sérios dividendos sónicos quando escutados numa aparelhagem decente. Claro que o material original – sobretudo os dois registos mais remotos, Numbers Beyond The End… Eternity – pode soar lo-fi, afinal de contas tratava-se de experiências caseiras e exploratórias de um apaixonado pelas possibilidades tímbricas e expressivas dos primeiros Moogs modulares, sem o enquadramento técnico mais sério que os estúdios profissionais poderiam proporcionar. Mas mesmo esses primeiros exercícios soam de forma fantástica nestas edições que a Wah Wah agora disponibiliza.

Para lá destes discos – e de uma breve menção na ficha técnica de Goats Head Soup, álbum que os Rolling Stones lançaram em 1973 e para que um misterioso “Pascal” terá contribuído com congas – muito pouco se conhece sobre a vida de Nicolas “Nik Pascal” Raicevic. Na informação dispersa que se vai encontrando fica-se a saber, entre outros dados curiosos, que Raicevic terá vendido os seus sintetizadores a Steve Roach, nome fundamental da cena new age. Mas os discos contam uma história.

O primeiro trabalho, Numbers, poderá ter sido criado por volta de 1968 e os títulos dos temas – “Cannabis Sativa”, “Methedrine” e “Lysergic Acid Diethylamide” – bem como o irónico autocolante que acompanhava todas as edições da Narco e que instava os potenciais ouvintes a não escutarem os discos se estivem “pedrados” remetem-nos para um universo pós-hippie em que o culto das drogas lisérgicas se afirmava como uma forma de aceder a outros planos de realidade. E outros planos de realidade foram, de facto, explorados por Raicevic. A Buddah Records relançou Numbers creditando o projecto a “Head”, muito provavelmente para tentar capitalizar nos últimos resquícios da cultura psicadélica, mas também, muito provavelmente, para responder à edição por parte da Nonesuch de Silver Apples of The Moon de outro explorador californiano das possibilidades electrónicas dos nascentes sintetizadores (o Buchla, neste caso).

 



Os trabalhos seguintes, Beyond The End… EternityThe Sixth Ear, Magnetic Web Zero Gravity foram crescendo de complexidade, revelando um domínio cada vez mais sério das ferramentas electrónicas com a adição de primitivas caixas de ritmos, por exemplo, e posicionaram Raicevic naquela remota divisão de visionários pioneiros que entenderam o sintetizador como portal para uma nova linguagem musical, como, do lado de cá do Atlântico, o fizeram artistas como Conrad Schnitzler. E esse carácter visionário tinha ainda por cima equivalência nas delirantes pinturas que o próprio Raicevic executava para adornar as capas dos seus álbuns.

Com estas reedições obtém-se, enfim, mais uma importante peça do puzzle que nos mostra a complexa imagem da história da mais exploratória música electrónica da segunda metade do século passado. Nicolas Raicevic desapareceu em 1994, com 61 anos.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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