Niagara // Ímpar

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Não é só nos títulos – Ouro Oeste primeiro, Ímpar agora, mas também, olhando para os temas, onde se encontram coisas como “Arruda” ou “Abacaxi Limão” – que se deve procurar a diferença dos Niagara de António e Alberto Arruda e Sara Eckerson. Mas os títulos são importantes, sobretudo em obras onde a abstracção nos liberta de algum pendor narrativo mais claro: Fountain de Marcel Duchamp é um exemplo óbvio disso mesmo e o terceiro gesto radical do criador que em 1917 decidiu exibir um urinol invertido numa exposição promovida em Nova Iorque pela Sociedade dos Artistas Independentes. A obra nunca chegou a ser exibida publicamente e o original perdeu-se (as réplicas que existem foram encomendadas por Duchamp nos anos 60), mas o importante ali era a ideia e os tais gestos criativos radicais: a escolha de um objecto ready made, a decisão de o inverter, alterando o seu propósito original, invertendo literalmente o seu sentido, e, finalmente, o seu baptismo como Fountain, espécie de coroação poética e irónica com uma espessura conceptual profunda que marcou a história da arte no século XX.

De volta aos títulos do novo EP do trio Niagara: “Arruda”, “Abacaxi Limão”, “Legume”, “Cheetah” e “Alagarta”. Cinco momentos de luz branca que apontam para o futuro e para o passado ao mesmo tempo. Niagara é uma cascata de sons que se precipita sobre a pista de dança a partir da história do house. Niagara é, obviamente, o resultado do estudo atento das dinâmicas de um género fulcral na história da música do século XX e que obviamente também se tem vindo a transmutar, assegurando a sua vitalidade neste novo século. E “Arruda” é aqui provavelmente o mais claro gesto de vénia a esse passado do house, com o sample de voz a posicionar-nos algures entre Chicago e Nova Iorque, que é, precisamente, onde fica “Arruda” se em Arruda existir um estúdio equipado com 808s e 909s e 303s e Junos e Yamahas prontos a embarcar numa viagem que pode nascer no passado, mas tem definitivamente o futuro como destino último. O baixo e as percussões de “Abacaxi Limão” deslocam um pouco a acção: Nova Iorque ainda, mas com Kid Creole a dirigir a orquestra da cantina de Star Wars. “Legume” começa com um queixume digital, ruído que se esmaga debaixo de um kick quadrado que antecipa a chegada de um pad anos 90 que não soa totalmente resolvido e que por isso nos dá a ideia de que continuamos a ouvir house, sim, mas num sonho – som de pista ainda, mas estamos todos a flutuar e a tocar nas estrelas. “Cheetah”, como o nome indica, é urgência: tão urgente que o tema soa como se os Niagara tivessem cozinhado uma música de nove minutos, mas aproveitado para a prensagem em vinil apenas os quatro minutos finais – o tema chega aos nossos ouvidos já avançado, com ecos distantes de electro escola Jonzun Crew a libertarem os Space Invaders que existem dentro de nós. O EP fecha com um extraordinário “Alagarta” que é funk distorcido numa bola de espelhos, Dâm-Funk a brincar no estúdio de Derrick May, com claps tortos e synths em overdrive.

Entre o sonho e a realidade, entre o funk e o techno, entre o house e a experimentação, entre Nova Iorque e Chicago e Detroit e Arruda, entre a Terra e o espaço, entre o groove e o silêncio: multiplicar as referências é reconhecer a dificuldade de posicionar os Niagara que pegam no house, invertem o seu sentido de pista e chamam-lhe qualquer coisa poética. Como Ímpar.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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