NBC // Toda a Gente Pode Ser Tudo

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[TEXTO] Pedro Arnaut

A barba grisalha não é por acaso. NBC já tem quase 20 anos disto, desde que se fez acompanhar do irmão Black Mastah nos Filhos de um Deus Menor, ainda nos anos 90, a década de Rapública. Muito tempo passou desde Afro-Disiaco, estreia a solo já de 2003, mas a grande mudança vem anexada a este Toda a Gente Pode Ser Tudo: 1º álbum enquanto músico a tempo inteiro. Mas se o físico amadureceu, o entusiasmo com que avança parece ser o mesmo daquela primeira faixa do disco de estreia. E esse entusiasmo é proporcional à emoção que coloca em tudo, seja numa grande canção, através de um convidado ou numa publicação de Facebook.

Toda a Gente Pode Ser Tudo, já o confessou em várias entrevistas, é extremamente autobiográfico e assenta muito na ideia do sonho adiado, o de viver exclusivamente da música. Que bela metáfora para descrever a evolução do hip hop tuga que, independentemente da qualidade que foi tendo, foi chegando com delay em relação às revoluções que se iam fazendo lá fora. Durante muitos anos, NBC terá sido vendedor a full-time e músico a part-time. Em “Pulmão” canta (e como canta!) sobre o assunto:

 


“Não quis abrir mão de ser um cidadão normal / escondi o pulmão que me deixa respirar normal”.


O disco gira à volta de letras pessoais, por norma cantadas, que respondem aos beats muito 2016 de Slow J, o produtor do presente e do futuro. Este equilíbrio entre passado, presente e futuro está em toda a parte, na voz e na produção, sim, mas também em pormenores como os do vídeo de “Pulmão”, que arranca com o próprio NBC rodeado de gravador, caneta e papel, longe das linguagens digitais que também domina, do Facebook ao YouTube. Numa das entrevistas de promoção referiu que este disco é para ouvir de phones, com atenção ao detalhe, mesmo que para isso tenhamos que ouvir uma canção e outra daqui a pouco. Ou seja, não importa que oiçamos o álbum de forma fragmentada desde que em cada fragmento dediquemos 100 por cento da nossa atenção, bloqueemos o smartphone e fechemos os olhos.

Este título já vem de 2010, na sequência de Maturidade. Será uma alusão à capacidade dos rappers nacionais de ser várias coisas: compositores, músicos, fotógrafos, escritores, editores e jornalistas. É uma descrição que soa contemporânea, mas cuja realidade em 2003 é completamente diferente da de 2016 ou mesmo da de 2010. Sendo um álbum tão pessoal, formato de que NBC sempre se afastou salvo uma ou outra excepção, não são de estranhar algumas referências divinas e até uma inerente redenção: resolvidas as “quezílias”, é o pai de NBC, ex-pastor protestante, que encerra o disco num monólogo que ocupa a mais larga faixa do disco, a última.

Isto nota-se mas não é mera especulação, sendo que o próprio foi confirmando em entrevistas: NBC é hoje um músico feliz, finalmente a fazer aquilo que gosta a tempo inteiro, alguém que está a cumprir um sonho. Isto também pode ser tudo.

 


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