Nathan Fake // Providence

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[TEXTO] Diogo Santos [FOTO] Direitos Reservados

Cinco anos após a edição de Steam Days, Nathan Fake regressa à mesa de trabalho (agora pela Ninja Tune) para explorar distorções, ruídos e uma faceta bem diferente daquela apresentada pelo produtor britânico nos seus três outros trabalhos de longa duração anteriores a Providence. Outrora contemplativo e criador de ambientes confortáveis q.b., de onde saltavam ao ouvido óbvias referências como Boards of Canada, Nathan Fake decide reinventar-se e entregar-se a forças mais obscuras – capazes de nos transportar para a fábrica de pesadelos de Aphex Twin – e bem mais destrutivas – sorrateiramente à lá Fuck Buttons, por exemplo. O risco, contudo, é bastante controlado ou não estivéssemos nós na presença de um dos mais criativos e competentes produtores da última década e picos.

Para começar, a capa do disco – um quadrado pixelizado e distorcido onde o cinza domina – diz-nos logo ao que vamos. E a introdutória “feelings 1” não puxa nada aos sentimentos de um céu outrora cor-de-rosa. A partir daqui, Providence – referência a algum do material utilizado na feitura do álbum, nomeadamente o sintetizador Korg Prophecy – parte para paisagens, vamos chamar-lhes, mais duras e desafiantes. À quarta faixa surge o brilhante single-epopeia “DEGREELESSNESS”. E, por esta altura e quase sem dar por ela, já estaremos a procurar por discos de Tim Hecker e Ben Frost…

 



Em minutos, é aqui que o disco se parte ao meio. Até ao final, mais 8 faixas que só em duas ocasiões (“SmallCityLights” e “RVK”) se esticam para lá dos 4 minutos – um pouco à semelhança do que acontecera em Steam Days. “The Equator & I” é uma dos temas mais doentios, vivendo de um loop com uma invejável capacidade de chatear até os menos impacientes… Talvez sabendo disto, Nathan Fake apresenta-nos logo depois “unen”, um curto manual de comunicação ambiental alienígena. A já citada “SmallCityLights “traz alguma tensão e glitch, enquanto “Radio Spiritworld” é outro choque frontal com ruídos sónicos que nos preparam para “CONNECTIVITY”, talvez o mais próximo que já estivemos dos Fuck Buttons, se estes fossem capazes de se confinar a composições com menos de 180 segundos.

Para o final, Nathan Fake guarda “RVK”, tema que se inspira num beat próximo do dubstep de Burial e em sonoridades sem fronteiras bem capazes de encaixar que nem uma luva num set de Flying Lotus. “REMAIN” serve para nos lembrar uma vez mais que Providence é obra de um produtor a apalpar novos terrenos. E “feelings 2” é uma bela despedida, digna de um fim de noite em Los Angeles, embelezado por um carro maravilhosamente manobrado por um condutor que pode muito bem ser o companheiro da Eva Mendes. Dificilmente Providence causará o burburinho de Drowning In a Sea of Love, mas é possível que estejamos perante a metamorfose daquele que aqui há uns 10 ou 13 anos era uma das coqueluches da Border Community. Em 2017, Nathan Fake baralhou e voltou a dar. Se é joker e vem com trunfo na manga, o futuro o dirá.

 


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