Murlo promete “muito garage e funky” para a próxima festa da XXIII

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

A curadoria da XXIII volta a marcar presença no Maus Hábitos no próximo sábado para uma festa que vai contar com as presenças dos britânicos Murlo e TSVI. TEMPEST e Cash From Hash são os talentos nacionais da XXIII que também vão ser figuras de destaque no Porto.

Através de uma troca de e-mails, o Rimas e Batidas esteve à conversa com Murlo, ele que tem dado que falar no Reino Unido muito graças ao novo formato de espectáculo ao vivo que apresentou no ano passado. AV é um projecto no qual a música passa para um plano secundário, com Murlo a focar-se na projecção e manipulação de imagens e desenhos por si criados em estúdio. A estreia de AV aconteceu em Londres, no ano passado, e a lotação da sala esgotou para assistir ao inovador show de sons e cores.

Não será desta que AV acontece pela primeira vez fora do Reino Unido, já que Murlo se encontra ainda no laboratório a retocar a sua obra. Na mala de viagem, o DJ e produtor traz consigo muita música. Um verdadeiro militante e também um atento espectador dos movimentos que vão acontecendo na cena club e underground britânica. Murlo tem editado algum do seu material pela Mixpak — Club Coil foi o seu último lançamento pela editora de Brooklyn. Mais recentemente, Murlo fundou a sua própria Coil Records e editou também pela Butterz, selo criado por Elijah e Skilliam, dois impulsionadores da música urbana do Reino Unido que também estão ligados aos tempos primordiais da Rinse FM.

 



A cultura do beat é hoje um fenómeno à escala global e Portugal não foge à regra. Conheces ou segues algum beatmaker português?

Posso dizer-te que não estou familiarizado com a cena portuguesa. Assim de repente não consigo lembrar-me de ninguém que me tenha enviado música de Portugal. Estou bastante inclinado a ouvir algumas coisas e adorava ter sugestões.

É claro que cada região do globo tem a sua própria identidade sónica. Para ti, que cresceste num país europeu com uma cultura underground bastante particular, o que é que te inspirou para começar a produzir?

Eu comecei a produzir graças aos edits que fazia para os meus sets quando comecei a ser DJ. Não me sentia confortável a fazer música até há alguns anos. O Reino Unido tem uma herança de club music muito rica e isso sempre foi uma inspiração.

Artisticamente falando, tens alguns heróis locais?

Há muitos produtores que tiveram uma grande influência na música do Reino Unido mas posso nomear-te dois. O Zed Bias tem sido uma constante na cena garage há já muitos anos e continua a fazer cenas incríveis actualmente. Sticky é outro produtor que me influenciou muito quando comecei a fazer música.

O grime e o garage, géneros típicos do Reino Unido, estão novamente debaixo do foco dos artistas e media internacionais. Da perspectiva de alguém que está a viver bem de perto de toda a acção, como descreverias o actual momento da música urbana britânica?

Sinto que o dinamismo desses géneros nunca acaba. Alguns produtores envolvidos num movimento acabam por começar a criar estilos ligeiramente diferentes. O UKG, funky, bassline e o grime passaram por períodos em que seguiram direcções opostas mas sempre existiram DJs a representá-los. Sobre os críticos internacionais a mencioná-los, isso é algo que eu nunca consegui perceber. Nos últimos anos tem-se lido que determinado género “reapareceu” e eu não entendo o significado disso. Existem grandes bases de fãs para muitos tipos de som que nem sequer chegam a ser mencionados. Tens o exemplo da cena bassline, que está enorme de momento, e não se vê praticamente ninguém dos media internacionais a falar sobre isso.

Tens assinado muitas remisturas ultimamente. Vais da Rihanna ao Fetty Wap, do Drake ao Seal. Alguma dessas recriações te deu mais gozo fazer?

Eu adoro remisturar porque, de certa forma, foi assim que comecei. Conseguir despir um tema e vesti-lo de novo à minha maneira é muito divertido. Gostei muito de remisturar o Seal porque abordei o tema de uma maneira bastante diferente daquela que tenho por hábito. Tinha uns ficheiros MIDI e passei muito tempo a criar sons estranhos de pássaros com sintetizadores. [risos]

 



Club Coil foi o teu último EP lançado na Mixpak. Qual era o conceito que tinhas para aquelas seis faixas?

Quis fazer algo menos focado no club e mais introspectivo. Estava também prestes a começar o espectáculo AV nessa altura e, por isso, concentrei-me em fazer música que fosse também “visual”.

Fala-me da produção desses temas. És o típico produtor de computador e software ou também trabalhaste com algumas máquinas?

Criei o EP com vários VSTs no Ableton Live. Quando estive a produzir o Odyssey, utilizei um Prophet 6 nos estúdios da Mixpak em Nova Iorque e adorei. Talvez um dia perca a cabeça e compre um para mim. Para já, sinto-me feliz a produzir com aquilo que tenho à disposição.

Estreaste o teu espectáculo AV no ano passado, o que prova a tua versatilidade não só na música mas também nas artes visuais. Do ponto-de-vista do autor, como foi criar e experienciar esse espectáculo tão particular?

Sem dúvida que adiciona muitas mais perspectivas pelas quais tens de pensar, ao contrário de quando inicialmente apenas me preocupava com a música. Às vezes eu desenho e tento pensar em como é que a música poderia complementá-lo. Outras vezes começo pela música. Não existe um processo pré-definido na criação das cenas do meu espectáculo. A actuação é muito diferente do DJing, sendo que estou mais focado a controlar os aspectos visuais do que os musicais.

Que tipo de reacções tens tido por parte do público? Vamos poder “provar” um pouco do AV no Porto?

O feedback tem sido muito bom. O primeiro espectáculo foi em Londres e era uma espécie de versão beta. Eu não tinha ideia de como é que as coisas iam correr e correram muito bem. Ver o espectáculo a correr tão bem deu-me a confiança para trabalhar ainda mais nele. Gostava de trazer o AV ao Porto um dia mas, por agora, tenho estado ocupado no estúdio a melhorá-lo.

O Wind Me Up EP e a remistura de “Happy” marcaram uma outra estreia tua em 2017, visto que foram os teus primeiros lançamentos na Butterz. Como te sentiste ao ser convidado para trabalhar com o Elijah e o Skilliam?

Eu já tinha falado com o Elijah e o Skilliam e já tinha tocado em muitas das festas deles. Foi muito bom ter tido a oportunidade de editar por eles.

Aposto que não vais parar por aqui. Qual é o teu próximo passo? Talvez alguma colaboração com um MC de grime?

Eu comecei a minha própria editora e ainda não tenho grandes planos de momento. Estou sempre a escrever música e, por isso, há alguns vocalistas com os quais gostava de trabalhar.

Estarás no Porto no dia 7 de Julho. Que ingredientes musicais vais trazer até à festa?

Vou trazer muita da música que tenho andado a sentir. Muito garage e funky e o resto vou decidindo consoante estou a tocar.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira