Migos // Culture II

migos review culture 2

[TEXTO] Manuel Rodrigues 

Nem todas as películas cinematográficas são criadas com o intuito de explorar uma história real ou uma complexa trama de desfecho imprevisto nos segundos que antecedem a exibição da lista de créditos associada. Muitos filmes têm como simples missão o entretenimento puro e duro, sem grandes lições de moral dissolvidas nas entrelinhas e sem se comprometerem com o passado, presente e futuro do mundo e da sociedade. Tome-se como exemplo Three Billboards Outside Ebbing, Missouri e The Disaster Artist (aproveitando o facto de estarmos em plena época de estatuetas douradas): são ambos válidos na exploração do drama e da comédia (em doses diferentes), no entanto, é impossível ir buscar ao filme de James Franco o peso da obra de Martin McDonagh. A razão é simples: não foram criados com o mesmo intuito.

O mesmo acontece na música. Nem todos os álbuns são obrigados a transmitir um dever social ou a transportar uma mensagem que nos obrigue a parar para pensar nas nossas atitudes ao longo da vida. Nem todos os álbuns têm que ser uma acendalha para a revolução ou um hino para a luta contra o racismo ou a desigualdade. Nem todos os álbuns têm que ser o espelho de como nós, seres humanos, somos egoístas e hipócritas ao ponto de destruirmos tudo em nosso redor e, sem qualquer vergonha na cara, entregar as culpas ao acaso e ao infortúnio. Nem todos os álbuns têm que ter o encargo de To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, e nem todas as músicas têm que servir o conteúdo explícito de “Demain C’est Loin” ou “La Fin de Leur Monde”, dos franceses IAM. Abençoada seja a canção capaz de nos fazer esquecer, nem que seja por breves momentos, do quão deprimente somos enquanto raça animal.

Os norte-americanos Migos são um excelente exemplo de como a música consegue ser, por vezes, tão despreocupada, quase como se tivesse a capacidade de se dissociar do meio onde se encontra inserida. Basta-nos regressar a Culture, álbum lançado em 2017, para percebermos que a esmagadora maioria dos temas de Quavo, Offset e Takeoff, pseudónimos dos três compadres que se juntam para dar voz a um dos mais auspiciosos projectos de trap a nível global, versam sobre temáticas tão superficiais como dinheiro, mulheres e droga (desenganem-se aqueles que pensam que Migos é uma abreviatura de “amigos”; na verdade, tem como origem o nome dado às casas, no estado da Geórgia, utilizadas para venda e consumo de drogas). “Bad and Boujee” e “T-Shirt”, dois dos singles de Culture, com este último a ser digno de galardão para melhor realização e fotografia, vão ao encontro desta ideia. Dicas sobre o tráfico e consumo de estupefacientes (“cooking up dope in the crockpot” e “roll a cigar full of broccoli”, respectivamente) e, claro, a implícita ostentação monetária.

 



Editado no início do ano, Culture II, o terceiro título de originais do colectivo, não foge à tradição. “Superstars”, o single promocional que versa sobre tudo aquilo que uma super-estrela do showbiz pode ambicionar (carros, mulheres, fama e as restantes vírgulas subentendidas…), podia ser, na verdade, uma espécie de resumo para o presente do colectivo. Quavo, Offset e Takeoff já há muito subiram as escadas do estrelato e, neste preciso momento, gozam o estatuto de uma das mais importantes bandas dentro do género, quer se queira quer não. Vê-los a entrar em cena a meio da actuação dos N.E.R.D., no intervalo do jogo das estrelas da NBA, no Staples Center, em Los Angeles, para interpretarem “Stir Fry”, tema produzido pelo próprio Pharrell Williams (já lá vamos…), é sinal de que os Migos já são, só por si, motivo de entretenimento de massas. Regressando a “Bad and Boujee”, é caso para dizer que eles vieram “do nada para algo”. E basta analisar a recepção entusiástica da assistência presente no local onde também se entregam anualmente os galardões da indústria musical para se chegar a essa conclusão. Melhor performance hip hop? Está aqui.

“Stir Fry” será, muito provavelmente (sim, arrisca-se o palpite…), um dos temas nos meandros do rap mais ouvidos em 2018. Não só pela fabulosa produção do homem dos N.E.R.D., que nunca deixa a desejar (batida forte em cama de grave sintetizado, com as quebras no local certo à hora certa e, imagine-se, uns pormenores que trazem à cabeça um bando de aves a pipilar), mas sobretudo pelo refrão orelhudo, assente numa melodia ainda mais viciante, e sem esquecer, claro, a temática abordada. Numa altura em que a cozinha virou moda, versar sobre frituras e refogados não é nada mal pensado. A ideia pegou e, depois do clip oficial que coloca o trio numa batalha kung fu num restaurante chinês, já são alguns os vídeos no Youtube que utilizam os Migos como anfitriões de suculentos repastos (ver “Tasty Whip Up Stir Fry” e “Cooking With Migos”). “Stir Fry” é tema certo para integrar a esmagadora maioria das playlists dos bares e discotecas espalhados por esse mundo fora. Não perceber isso é caso grave de surdez.

 



Mas não é só Pharrell Williams o samurai que sustenta a mais recente aventura dos Migos (o trocadilho com um dos mais aclamados álbuns do “nosso” Rui Veloso era inevitável…). Nos créditos das produções podemos encontrar nomes como Zaytoven (“Too Much Jewelry”), Murda Beatz (“Gang Gang”) Metro Boomin (“Higher We Go” e “Emoji a Chain”) e, surpreenda-se, Kanye West, co-produtor de “BBO (Bad Bitches Only)”, tema de pratos de choque incisivos e melodia de metais que conta com a participação de 21 Savage, o homem que outrora se juntou a Post Malone para o êxito “Rockstar”. Mulheres, drogas: continuamos no mesmo registo. Todavia, e não obstante o facto do disco contar com a presença de Gucci Mane, Travis Scott, Ty Dolla Sign e Big Sean, é em “Walk It Talk It”, tema produzido por OG Parker e Deko, que se desenrola uma das mais interessantes participações, a de Drake. Por onde passa, o rapper canadiano é rei e senhor, omnipotente, deixando marcas incontornáveis. E as palavras “i gotta stay in my zone / say that we been beefin’ dog, but you on your own” aparentam ser mais lenha para os habituais desentendimentos dentro da cena norte-americana. “Walk It Talk It” tem, muito provavelmente, a maior repetição de refrães (ou refrões, como quiserem) a seguir a “Around the World” dos Daft Punk e “Kalemba (Wegue Wegue)” dos Buraka Som Sistema. O propósito parece ser o mesmo: dançar, abanar a cabeça, sem pensar muito na vida. É mais que válido.

Os Migos encontraram um espaço próprio dentro do hip hop, impulsionados por um conjunto de factores que trabalham nesse sentido: cortes de cabelos semelhantes, indumentária a condizer (acessórios de luxo incluídos), esquemas de rima desafiantes (as tercinas que meio mundo anda a tentar copiar), flows que casam entre si na perfeição e temáticas previamente estudadas (numa altura em que a Netflix se desmultiplica em séries e documentários sobre Medellin e os restantes cartéis sul-americanos, lançar um tema como “Narcos”, um dos pontos altos de Culture II, provavelmente um dos próximos singles a ter direito a vídeo no Youtube, é jogada certa). A nível de representatividade e propulsão mediática, salvaguardadas (obviamente) as devidas distâncias no conteúdo e missão, eles poderão vir a ser os próximos Outkast, pois estão a inovar e a fixar os limites do seu próprio território. Custa a crer que Quavo, Offset e Takefoff não passem por Portugal este ano, sabendo que vão marcar presença no Primavera Sound, em Barcelona. Seria esta a altura certa.

 


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