MEO Sudoeste’18 – Dia 1: a família em primeiro lugar

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Filipa Trindade / World Academy

Se estivéssemos a vender o “produto” MEO Sudoeste, a música seria apenas apresentada como uma das várias rodas dentadas que fazem parte da sua engrenagem. A parafernália (stands das mais variadas marcas) que ocupa grande parte do recinto é impossível de evitar e, claro, cada canto é fotografável. Uma geração que está sempre ligada não tolera tempos mortos e a organização fomenta essa fome de momentos inesquecíveis com o excesso. No choque de gerações, aguente-se quem puder.

Um início calmo e um final sem voz. O número de pessoas à frente do palco principal do Sudoeste também sofreu essa mutação e cresceu à medida que o tempo foi passando. Das novas “Prova dos 9” e “Vai” às populares “Se Eu Não Acordar Amanhã” e “Salto Alto”, o alinhamento fez-se de canções que, independentemente da data de lançamento, foram cantadas de uma ponta à outra por um público que não as ouviu na rádio, na novela ou num anúncio (mesmo que Piruka tenha entrado recentemente nesse universo). Tudo aqui é fruto de um mercado paralelo que ganhou outra força com a Internet e que obrigou a indústria a ceder um pouco de terreno para tentar acompanhar os tempos. No entanto, artistas com os números do autor de AClara já têm outros argumentos para encarar os “tubarões”. Pisar o maior palco de um dos grandes festivais nacionais é mais um passo para uma valorização que não parece ter fim.

A máquina encontra-se bem oleada: ter um dos melhores DJs nacionais nas costas e três fiéis escudeiros ao seu lado (Vate MC, Timor YSF e Savage) ajuda, mas nem tudo são rosas. A guerra com 9 Miller e Holly Hood já está (aparentemente) terminada e tocar duas das três músicas que fez nesse contexto específico demonstra uma fragilidade alarmante. Existe espaço para “Só Vim Dizer Yau”, mas “Ca Bu Fla Ma Nau”, a canção que lhe deu algum tipo de legitimidade para afirmar coisas como “transformei a tuga na América”, não tem um cantinho na setlist? Estranho, no mínimo.

Num dos momentos que deliciaram a plateia, Piruka trouxe a filha para o palco e cantou “Sirenes”. Emotivo q.b. e, mais uma vez, a exaltação dos seus. Antes, o rapper deu tempo de antena a Timor e celebrou o rap crioulo com “Peso na costa carrega”. Se um está lá em cima, os outros também têm direito à sua parte. É de louvar a atitude.

A festa num palco desta dimensão também proporcionou, através de um freestyle, o anúncio do seu próximo disco, que, segundo o próprio, sairá em Janeiro.

 



Com uma formação mais convencional (guitarrista, teclista, DJ e baterista) e uma abordagem mais rock que o aproximou, em certos momentos, dos Throes + The Shine, Deejay Telio desfilou hits como “Não Atendo”, “Tá Louca” ou “Chora Agora”, mas a maior reacção aconteceu com “Que Safoda”, canção em que aproveitou para deixar uma mensagem a todos aqueles que o rotularam de “onehit wonder”.

O percurso ascendente do artista do colectivo independente SAF (Somos A Família) teve uma paragem peculiar em 2014: um dos seus instrumentais fez parte do alinhamento de Tá Tipo Já Não Vamos Morrer, EP editado pela Príncipe Discos. Existem diferenças claras entre DJ Marfox e Deejay Telio — a escrita, a utilização da voz e as milhões de visualizações — mas o que os aproxima é o que mais importa: as produções musculadas com esqueleto kuduro e afro-house e a superação de quem nasceu em condições desfavoráveis, mas virou-se com recurso à sua própria linguagem. Mais honesto do que isto é difícil.

 


Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro

"I just looked at the pictures"
Alexandre Ribeiro