Maria: “Acho que todos os sons têm uma determinada cor e forma”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Tiago Lessa

Maria estreou-se com um EP pela Monster Jinx na passada segunda-feira. Mais logo junta-se ao “patrão” DarkSunn e ao amigo M.A.F. na noite Rimas e Batidas no clube da Calçada do Combro, em Lisboa, que tem a melhor vista da cidade, o PARK.

As quinze cópias físicas do 12” esgotaram rapidamente. “I can feel your green Vibes” e “Quem veio de Longe”, com DJ Glue, foram os dois temas que integraram o primeiro volume de uma série de edições em dubplate que a Monster Jinx promete agora expandir — Monster Jinx Lacre irá premiar alguns dos projectos mais emblemáticos a ingressar no catálogo da turma roxa com uma edição física de edição extremamente limitada e por isso mesmo ainda mais preciosa.

 



Mas Cor e Forma é muito mais do que um 12″. Para o sucessor de Isto Nem É Uma Beat Tape, David Almeida focou-se no espectro visual que os sons projectam na sua mente. Composto por oito temas, o curta-duração patrocina uma viagem pelas texturas que a electrónica contemporânea assume, com recurso a várias peças de maquinaria musical, moldagem de samples e vários cheat codes introduzidos via Ableton Live. Além de Glue, também João Tamura e Pedru Lameira ajudaram a tonificar este Cor e Forma.

O percurso de Maria está intimamente ligado ao ReB, sendo o produtor de Alverca um caso exemplar do aproveitamento que se pode retirar da exposição mediática na era digital. Habituado à confecção de música caseira desde os 14 anos de idade, David Almeida apanhou boleia do Beat Challenge, que o ReB organizou em 2016, para virar a página do livro e arrancar com o capítulo de Maria. Mesmo sem se colocar na mais cimeira das posições do concurso, o bom desempenho valeu-lhe um lugar no imenso oceano que o radar do Rimas e Batidas cobre.

Na terceira edição da curadoria mensal do ReB para o PARK, Maria mostrou-se uma aposta válida no segmento live act, que tão exigente é para com os músicos dos tempos modernos. Novo EP é sinónimo de uma nova visita ao rooftop lisboeta e, após os Supafly Brothazz o acompanharem na estreia a grande altitude, DarkSunn e M.A.F. juntam-se desta feita ao promissor artista. A partir das 22 horas, na Calçada do Combro, com direito a entrada gratuita. You know the drill.

 



Afirmaste-te enquanto Maria, estreaste-te no PARK e no Lux Frágil e agora lanças o teu primeiro EP pela Monster Jinx. Que balanço fazes sobre estes dois anos, desde que apareceste no radar do Rimas e Batidas?

O balanço é positivo, sem dúvida alguma. Tenho trabalhado muito desde então, ouvido muita coisa e tenho estado sempre a produzir. Desde essa altura nunca parei de fazer coisas, o que é óptimo.

Já tinhas um plano mais ou menos estipulado ou foi tudo demasiado espontâneo?

Completamente espontâneo. Em termos criativos, acho que não faz sentido estar a traçar planos muito rigorosos. As coisas têm acontecido e encaminhado de uma forma fixe e muito natural.

Lançaste o Isto Nem É Uma Beat Tape em 2016 e foste convidado para pertencer à Monster Jinx no ano a seguir. Mudou alguma coisa na tua sonoridade ou forma de trabalhar desde então?

Para além do “peso” de ser um primeiro EP, o Isto Nem É Uma Beat Tape foi muito o espelho das experiências que tinha acumulado até essa altura. Produzi hip hop desde os 14 até ao início da minha fase adulta. Perto dos 20 explorei a electrónica e esse EP foi uma junção de backgrounds adicionado à vontade de re-explorar mais a cena hip hop no que toca aos BPMs e à construção propriamente dita. Como era um trabalho de apresentação, uma espécie de cartão de visita, senti mais a necessidade de apresentar um trabalho mais denso, com uma estrutura sólida, mas que ao mesmo tempo transparecesse bem a minha identidade. Agora eu sinto que me estou a soltar cada vez mais, a reencontrar-me por estas sonoridades pouco taxativas, e isso é o que podem esperar cada vez mais no futuro!

Como vias a Monster Jinx na altura, era uma editora que acompanhavas?

Era, claro, já acompanhava o trabalho da Monster Jinx há algum tempo porque sempre os achei uma label interessante, com uma identidade muito própria, a nível sónico e estético. Sempre primaram por explorar sonoridades novas e com produções com muita qualidade. Sempre admirei a cena que faziam e é interessante observar o desenvolvimento ao longo destes anos. Estou muito grato por fazer parte dessa família roxa.

 



Fala-me do Cor e Forma. Que conceito tão visual foi este que escolheste?

Como sou designer de formação e profissão, a cor está sempre presente nas coisas que faço. Organizo tudo por cores em termos musicais. Acho que todos os sons têm uma determinada cor e uma forma, por isso decidi explorar essa ideia em termos conceptuais, associando a ideia de contemplação, ou seja, do que é que cada som nos faz sentir ou visualizar. A música é um conjunto de experiências sensoriais, cada um imagina e constrói uma imagem — com uma determinada cor e uma determinada forma — consoante o que é transmitido pelo que ouve.

De que forma foram preparados estes temas? Tiveste algum setup standard para produzir estas oito faixas?

O setup é uma cena simples, um Korg MS-20 e uma Roland TR-8 para a parte rítmica, um Korg Minilogue, uma boa fatia de sampling e, claro, que há muita “nerdisse” de Ableton à mistura para as composições. Claro que depois há toda a parte emotiva que também pesa tanto ou mais que a parte técnica, e que acaba por ser o que une todas as faixas do disco.

Apesar das remisturas que lançaste no SoundCloud, a tua única colaboração a sério tinha sido com o M.A.F.. No novo EP tens o João Tamura, DJ Glue, Pedru Lameira… É algo que queres explorar mais, o trabalho em conjunto com outros artistas?

Eu encaro muito o trabalho de remisturas como colaborações, uma vez que não faço propriamente cenas por encomenda. Mas claro que quero explorar mais o trabalho com pares, já tenho feito algumas coisas com o MAF, com o Sensei D, com pessoal da crew também — como o Pulso ou J-K, por exemplo. Mas o mais importante para qualquer featuring é mesmo conhecer as pessoas — mais do que as obras — e ser pessoal que admiro, acho que isso é mesmo o mote para trabalhar seja com quem for.

É já hoje que voltas a subir ao PARK, na companhia do DarkSunn e do M.A.F.. O que é que nos podes adiantar acerca da tua actuação?

Bom, vai ser um triple B2B e vai ser especial porque vou estar ao lado de duas pessoas que admiro e que têm um papel muito importante na minha vida — profissional, mas pessoal também. Somos amigos, trabalhamos bem em conjunto, acho que somos semelhantes nas diferenças e, como é óbvio, gostamos muito do que fazemos, isso vai passar cá para fora de certeza. Vão lá dançar!

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira