Madkutz: “Acho que há melhores produtores do que MCs neste momento”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [CAPTAÇÃO VÍDEO/FOTOS] Sebastião Santana [EDIÇÃO] Luis Almeida

De NGA a Estraca, de Dengaz a Mundo Segundo, de Sir Scratch a C4bal, passando por Royalistick, Sacik Brow, Lancelot, Valete ou Carlão, entre tantos, tantos outros, muitos foram os rappers que nos últimos dez anos foram prendados com os instrumentais do versátil Madkutz.

Depois de alguns anos mais parados, o produtor português voltou em força em 2017 e este ano não tem mãos a medir para os projectos em que está envolvido. Como já tinha contado ao Rimas e Batidas, está a preparar a mixtape A Lista de Schindler, uma compilação de temas inéditos, outra de faixas clássicas, e ainda um disco a meias com Estraca. Ah, sem contar com as 12 beatapes que irá lançar este ano e as inúmeras colaborações com artistas que poderemos ouvir nos próximos meses.

Os dez anos de carreira de Madkutz — que começou em 2008 com Portefólio, álbum de Royalistick — e os vários planos para 2018 foram o pretexto ideal para uma conversa com o Rimas e Batidas.

 



Antes do Portefólio, do Royalistick, já tinhas produzido instrumentais?

Tinha, mas não era nada digno de se ouvir ou de se meter num álbum, é aquela fase de início. Estás ali a fazer beats, em quantidade, até começares a ter qualidade. E o Royalistick aí teve um papel fundamental, porque puxou-me. Eu tenho uns oito ou nove beats no Portefólio, e não era para ter nenhum. Esses beats estavam preenchidos por outros produtores. Ele tirou beats que tinha para meter os meus, e devo-lhe isso. E tenho sorte nos que ele tirou, que até eram nomes sonantes, o que ainda tornou o meu nome maior: um gajo que aparece no mercado [de repente], fui super sortudo.

Já disseste várias vezes que o que te levou inicialmente para a produção foram os Prodigy e não propriamente o hip hop. Como é que depois fazes essa transição?

Acho que, se fores ver o início de Prodigy, a produção deles tem muito de hip hop. O Liam Howlett, para mim, é um produtor de hip hop. Tem é muito a cena electrónica porque era também a cultura londrina. Mas se fores ver os breaks, o álbum Phat of the Land ou mesmo o Music for the Jilted Generation são tudo breaks que foram usados no rap, com um BPM mais acelerado. Tirando os sintetizadores e a maneira como ele faz o chop e pitcha os samples — é hip hop. Simplesmente eu depois não derivei tanto para aquela parte electrónica, porque depois também apareceu o rap [na minha vida]. Juntei um pouco os dois. Às vezes tenho samples super calminhos, tipo baladas, e venho de lá com uns drums tipo Prodigy. Que não faz qualquer tipo de sentido, é essa a bipolaridade de influências [risos]. Mas eles são e foram fundamentais na minha carreira, ainda hoje tenho o álbum sempre no carro.

Mas quando começas a fazer as primeiras coisas de produção, e resvalas para o lado do hip hop, é porque já estavas envolvido na cultura.

Quando ouvi Prodigy pela primeira vez, não tinha qualquer cena de música. Era só um ouvinte, e sempre fui e sou. Mas foi quando comecei com aquele bichinho: “quero saber como é que isto se faz porque quero fazer isto”. E lembro-me de ir estudar segundo a segundo as músicas dos Prodigy para saber — por exemplo, o bombo e a tarola, a que segundo é que entravam para eu sequenciar da mesma maneira. Para fazer um remake e perceber como é que ele tinha feito aquilo. Quando faço a transição para a música é muito mais tarde. Eles não tiveram um papel fundamental nesse aspecto: se calhar aí até foi o Sam The Kid e o Bambino, dos Black Company, o [Boss] AC, ou o Serial. Todos os produtores da época dourada do hip hop tiveram mais esse papel de depois querer juntar Prodigy ao que se fazia cá em Portugal.

E há dez anos, quando começaste, já tinhas o objectivo definido de fazer carreira na música? Tinhas essa visão?

Tens sempre o sonho. Quando vês a malta que idolatras aí de um lado para o outro, e a trabalhar com pessoas que tu também gostas e queres produzir para aqueles gajos, tens aquele bichinho. Mas sempre fui muito de deixar o barco andar e o que acontecer aconteceu. E ainda hoje levo assim. Preocupo-me mais em concentrar essas energias e forças em dares o melhor na tua música. Depois o povo leva para onde tiver de ir: se tiver de ficar parado fica parado, mas deste o teu melhor. Porque quando crias muitas expectativas, se falhares podes reagir mal — “não consegui, se calhar não nasci para isto” –, mas para não criar esse tipo de desilusões, ou ilusões, deixo o barco andar, e tudo o que vier de bom é bom.

No início de tudo, como é que produzias?

A nível de programas era o Samplitude, um mesmo muito antigo; o Acid Pro, que ainda hoje o DJ Caíque usa — ele tem estado a misturar e masterizar as cenas que eu e o NGA temos estado a fazer e acho que é nesse programa –; o primeiro Fruity Loops de todos; aqueles samplers antigos da Boss, o Dr. Sample. Mas a minha primeira máquina, em que posso dizer que saquei mesmo um beat, em que o Chullage depois rimou, foi na MPC 2000XL.

E qual é a tua relação enquanto produtor, com estas máquinas todas que encontramos neste estúdio: o objectivo é ir experimentando, tentar fazer coisas diferentes em cada?

O objectivo de ter várias máquinas é interessante: a malta às vezes vê como showoff, mas não — quando tens várias máquinas, tens workflows diferentes: a tua maneira de trabalhar numa MPC, que tem 16 pads, é diferente de um Ableton Push. Enquanto na [MPC] tens a música cortada em 16 pedaços, aqui [no Ableton] tens em 64. Portanto, podes ter uma intro, um verso, bridge, refrão, e podes fazer o que quiseres aqui. E na MPC também podes. Mas cada máquina ou programa tem o seu workflow diferente. E nunca é a máquina, mas sim quem está atrás dela. Quando estamos a falar de máquinas com outputs com som, é isso que o produtor procura. O som da máquina. Por isso é que o Preemo usa a 950 ou a MKII.

Mas não existe a máquina do Madkutz? Já que vais usando vários equipamentos.

Agora existe, posso dizer que sim. A máquina do Kutz é esta menina que está aqui, o Ableton Push 2. Ainda há pouco tempo estava a fazer um beat para a minha compilação, e todos os pormenores de que precisava, o Ableton estava a dar resposta. E estás a ver quando tens aquela mulher de que gostas mesmo, que é muito bonita e dizes: “porra, gosto mesmo de ti”. É a mesma coisa com o Ableton [risos]. Estou mesmo apaixonadíssimo. Mostram-me máquinas novas, mas não me vejo a mudar.

 


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Voltando atrás, achas que foi esse trabalho com o Royalistick que te deu mais visibilidade e teve mais impacto?

Pode ter sido, até por causa do “Underground”, com o NGA e o Valete, que estava muito quente na altura. O Valete era — e ainda é — um nome muito importante, mas estamos a falar de uma altura, não sei se o Serviço Público já tinha saído…

É de 2006.

O Portefólio é de 2008, por isso já tinha saído, o Valete estava no seu topo; e o NGA faz aquela transição de 400 mil anos a lançar mixtapes, rebenta com umas sixteen bars maravilhosas… O meu beat também é aquela coisa, com o sample do 300. Tenho o Pacman no álbum também em cima de um beat meu, o NBC, o Dino, o Rimavisa dos Guardiões do Subsolo, Kulpado de M.A.C…. tenho um milhão de pessoas lendárias em cima dos meus beats, claro que te dá logo um crédito espontâneo. Mas onde acho que depois o meu nome cresceu muito foi a continuação com o Carlão, porque depois produzi para o Algodão Não Engana, o primeiro projecto a solo dele, depois dos Da Weasel. Faço também o “From The Heart” com o Dengaz e o Richie Campbell, em que o Richie também já estava a explodir e acompanhei o autocarro com eles. E depois o Jimmy P, que era para ser um MadMondays — quando eu fazia essa rubrica –, e acaba por se tornar um vírus. Aquilo bateu e acabei por ter um seguimento consistente que me deu uma certa visibilidade. E com o NGA depois para Angola. Acabei por fazer também parceria com o C4bal no Brasil. Tive super sorte em as coisas acontecerem comigo.

E trabalhaste sempre com rappers muito diferentes e de meios distintos.

Acho que é importante, enquanto produtor — nada contra com quem se foca só numa coisa, cada um faz como quer –, mas eu como, lá está, venho de Prodigy e estou numa cena de rap, estamos a falar de uma coisa que é 80 e outra que é 8000, não é? Mas gosto, tanto que o “Lábios de Vinho”, do Carlão, do Algodão, é uma granda fritaria. O storytelling dele no Bairro Alto, todo janado e não sei quê. Também lancei aquele projecto de instrumentais, Beateinstein, que não tem nada a ver com rap, uma cena mais chill out, orgânica. Hoje em dia já não faço, mas gosto.

Estás mais focado no rap, portanto. E estas pessoas todas que foste conhecendo, foi de forma natural, ou era algo que também procuravas para trabalhares com pessoas diferentes?

Fui conhecendo, nunca forcei muito o conhecer. Também na altura não havia tanta gente quanto há agora, e quando eu comecei já havia mais gente do que havia antes. Porque isto é sempre a crescer. Foram contactos que se foram seguindo. Mesmo o beat do “Warrior” era para ser para o Dengaz. Depois do “From The Heart” o Dengaz pediu-me outro, e eu mandei-lhe o “Warrior”. Ele disse que era muito parecido. E se fores ver os drums são os mesmos. Mas o Jimmy curtiu tanto e até gravou um refrão, que depois disse: “pá, vou roubar o beat ao Dengaz”. Depois acabou por se juntar tudo, e o Jimmy liga-se ao Dengaz assim.

Quando estás a fazer um beat, estás a pensar para que rapper é que pode ir? Nalguns podes até nem estás a pensar num destinatário.

É uma muito boa pergunta, porque nisto dos produtores, quando vou mostrar beats ao NGA — agora já não, a idade vai-te trazendo estas matreirices, vais ficando raposa velha do campo, já sei que ele gosta disto… mas vamos supor: tu vais mostrar um beat a um artista que faz boom bap, ou trap. Provavelmente se ele faz boom bap vais mostrar-lhe os teus boom baps. Mas se calhar ele já está farto de boom bap e veio ter contigo porque tu fazes trap. E então estás ali a mostrar o teu melhor beat e ele depois diz-te: “epá, mas eu vim à procura daquela cena que costumas fazer”. Então deixei de meter filtros: “tenho aqui estes beats, ouve, vê o que gostas”. E é assim que funciona. Mas quando estou a produzir — e aconteceu-me agora, quando estava a fazer o beat para o Lancelot para a minha compilação, porque é um tema muito específico que quero fazer –, andava à procura do sample, e nada, até que o encontrei. Depois trabalhei o beat todo à volta da história que se quer contar. Então, nesse aspecto, quando sequencio um sample, há coisas que já vês porque sabes que a pessoa vai gostar.

Mas normalmente estás a fazer um beat e à medida que se vai desenvolvendo é que pensas na pessoa, ou às vezes queres já fazer para aquela pessoa, e partes do zero?

Se me disseres que precisas de um beat, nunca vou fazer um beat para ti.

É o contrário?

Ya, eu estou sempre a fazer beats, e depois pode vir a acontecer ter um beat para ti. E às vezes aqueles que eu achava que não eram para ti, são os que tu queres. Nas beatapes há uma cena muito engraçada. Ponho beats em que digo: “este beat é muito mau, mas alguém vai gostar [risos]”. E há sempre alguém que vem dizer: “epá, gostei muito daquele beat”. Como? Como é que gostaste daquele beat? É mega nojento [risos].

Mas não tens problemas em lançá-lo na mesma.

No final do dia gostei, apenas não é uma coisa que diga que é o meu melhor beat. Não me stresso com isso, porque há sempre alguém [que vai gostar].

Para este ano tens planeados muitos projectos, como já nos contaste. Além das beatapes mensais, tens a compilação de que falavas e a mixtape A Lista de Schindler. Já estás a trabalhar nisso tudo?

Todos os projetos de que vos falei estão completamente assegurados. Só há um projeto em que estou mesmo a tremer forte e feio: A Lista de Schindler. E ainda bem que estão a gravar, porque assim aperto com os MCs [risos]. Sixteen bars é impossível de te mandar um beat e tu não me enviares no dia seguinte as pistas. Porque são sixteen bars. Eu faço um beat, dois, três, quatro enquanto estamos aqui a falar — não quer dizer que sejam bons, mas faço, porque é fácil. Se tu és MC, e se te estou a convidar é porque já tens talento e sabes o que estás a fazer, tem de ser feito já. Percebo que cada um tenha a sua vida, mas é só a parte em que estou a tremer, porque convidei muitos MCs. O Kwan vai passar de um para o outro: nem sei como é que ele vai organizar, se é por BPM ou por vibes. Mas é uma mixtape de sixteen bars, venham com as vossas melhores, e nessa parte é que tenho de apertar mais com o pessoal. Vai sair, dê lá por onde der, nem que saia com 20 MCs que sei que entregam. Mas gostava que fosse com 60. Porque estamos a falar de 40 segundos cada um, há espaço em CD para muita gente. Ir buscar novos MCs faz todo o sentido, mas também não quero ter malta que está ali a apertar com o que está a fazer e depois vem uma coisa a baixar o nível. Quero deixar alguma coisa decente, até porque o DJ Kwan está a fazer 20 anos de carreira e eu dez, e a primeira vez que me apaixonei pelo DJing foi de vê-lo ao vivo. Foi num gig em que os Expensive Soul ainda nem eram os Expensive Soul. Ele é uma lenda, estou mega grato por estar a trabalhar com ele.

E vais lançar uma compilação de alguns dos teus temas mais marcantes, dos últimos dez anos.

Essa compilação ainda não sei a quem é que vou pedir para mixar. Só vai estar disponível para certas pessoas — porque vou lançar as 12 beatapes este ano, e quem comprar as 12, essa será uma das prendas. Só vou fazer 100 cópias de cada beatape. Supondo que 50 pessoas compram as beatapes durante o ano, vão ser feitos 50 CD desses para dar a essas pessoas.

Com temas novos?

Não, aí serão só os temas dos meus dez anos de carreira, mas mixado por um DJ. [Para a compilação de temas novos] não vale a pena fugir aos artistas, porque vão ser os que me acompanharam: haverá Royalistick, NGA, estou a apertar muito para o C4bal fazer uma música — ele já tem o beat, vamos rezar que grave, rezem muito, meus queridos. Tenho de me sentar com o Dengaz, ainda no outro dia estive a falar com ele sobre o que vamos fazer, depois do “From The Heart”.

 



E além disto tudo, tens um projecto na calha com o Estraca.

Tenho. Esse aí é o projecto dos meus olhos, estou a aprender muito com esse miúdo.

Como é que o conheceste?

Fiquei muito chateado de só conhecer o Estraca no ano passado. Porque normalmente os talentos novos não me passam ao lado. Ouvi pelo “Planeta Novo”, sugerido no YouTube, carreguei porque achei graça à thumbnail. Bom beat, bom arranjo, boa estrutura de música, bom refrão, letra. Sim senhor, este miúdo é bom. Vou ao canal dele, uma data de vídeos. Fui procurá-lo nas redes sociais, falar com ele, passei-lhe o beat do “Palavras” e o resto é história. Estamos agora a trabalhar, a fechar o álbum dele. Tirando o “Palavras”, acho que tenho lá mais um beat ou dois. E tenho estado a ajudá-lo na carreira dele quando me pede conselhos, se devo trabalhar com este ou ele. Há pessoas que vêm falar comigo a pensarem que sou manager dele [risos]. Ele também tem um grande mestre, o Francisco Rebelo, dos Orelha Negra, que o acompanha desde miudinho. O Estraca é aquele miúdo… uma vez vi um documentário do Big Pun, não te sei dizer ao certo o texto, mas era tipo: de x em x anos, nasce um pré-destinado, e acho que o Estraca é um desses exemplos. Um miúdo com uma aptidão, um respeito pela velha escola que não vejo em todos, um miúdo que absorveu a escola do Chullage ou do Valete. Pela primeira vez na vida — porque quando é o NGA não dá para fazer isso, porque ele fala muito do coração, mandas um beat e ele faz à maneira dele –, quase que o posso fazer de fantoche, num bom sentido. O “Espíritos” foi um exemplo: “tenho esta ideia para esta música, está aqui um texto” — como se ele estivesse a ler um livro e depois fizesse uma música inspirada naquilo. “O que é que achas de fazeres uma cena sobre isto?” No nosso álbum, e na minha compilação também, quero tentar ao máximo que todos os temas tenham uma ideia mesmo definida. Não ser mais uma música, porque, lá está, cuspir sixteen bars é mesmo fácil. Quero é aquela parte da dificuldade de trazermos algo [diferente], porque se não é mais do mesmo.

E achas que existe uma falta de respeito pela velha escola? Mesmo que tenhas os tais 60 convidados para a compilação, e muitos deles sejam mais novos.

Eu também estive “desaparecido”. Apesar de ter andado sempre aí, todos os anos havia um beat meu perdido num álbum, do Mundo Segundo ou do Sir Scratch, mas é normal que não me conheçam como alguns estão a conhecer agora. O que há agora é que como há tanta coisa, a malta foca-se mais em consumir o que há de novo, e se calhar o que está lá atrás até nem é do gosto deles. Agora o respeito tem de haver sempre: nunca podes faltar ao respeito a quem abriu portas para ti. O Bambino, o Boss AC e os Mind da Gap abriram portas para o Sam The Kid, o Chullage e o Valete, o Chullage e o Valete abriram portas para mim, eu abri portas para tal, e isto vai ser sempre assim. O Dillaz vai abrir portas para não sei quantos. O Estraca, daqui a uns anos, vai abrir portas para não sei quantos. Tem de ser cíclico.

E além do Estraca, gostavas de produzir um álbum para outro MC, nos próximos tempos? Ou não está nos teus planos?

Está, e já está para sair há muito tempo, e ele agora está a vir com muita força: o Sacik Brow. Sou super fã do Sacik. Gostava de fazer um projecto com ele, que prima muito pela escrita. É também uma coisa que o atrasa muito, mas eu percebo porque, lá está, música para bater escreves hoje e pronto. Ele quer ficar na história, por isso é normal que demore o seu tempo. Mesmo eu com o NGA, em que ele está a dizer [bate desenfreadamente no relógio] epá, “o meu som, o meu som?”, eu digo: “o Pulp Fiction não se fez num dia [risos]. Deixa-me trabalhar no filme”.

Estou a perceber que o NGA é o único MC que é ao contrário: é ele que puxa por ti.

O NGA é sempre assim, é tudo ontem. E se não o fizeres ele vai arranjar quem faça. O NGA nunca espera por ninguém, e ainda bem, porque te obriga a estares num nível mega on point. Há também um artista com quem gostava muito de fazer uma faixa, o Sam The Kid. Ainda noutro dia estava a ter essa conversa, que é: “o que é que nós vamos fazer?” Porque eu e ele a produzir? É normal acontecer isso, um beat meu e dele. Mas depois qual é a temática? Um storytelling? Ele também não vai andar a fazer storytelling só porque lhe apetece. E provavelmente se fizer será para o álbum, porque todos os que ele fez são clássicos. 16 barras? O Sam também cospe 16 barras sempre que tu quiseres. Mas são 16 barras do Sam. Sei lá, se algum dia fizermos uma coisa quero que seja uma coisa… como o Kronic tem o “Sexta-Feira” com ele.

E neste momento estás a vender instrumentais?

Não, voltei a vender beats a meio do ano passado. Há sempre aquela conversa de virem só perguntar quanto é que custa, depois não transferem o dinheiro. E eu prefiro pegar nesse instrumental e usar num projecto que vai ser editado ou que vai dar num som concreto, do que andar a vender e ficar na gaveta. Foi uma coisa de que sempre me queixei. Tenho super beats que vendi há dez anos que não foram lançados e, se pudesse, até os comprava de volta.

E se calhar alguns até foram para rappers que podes não apreciar. Ou não acontece?

Sim, eu cheguei a vender beats a rappers de que eu não gostava mesmo nada. Não é não gostar, mas não me diziam nada. No final do dia é um cliente que está a querer comprar um beat. Mas deixei de o fazer: isso aprendi com o Estraca. Tens de fazer o que o teu coração diz. O miúdo sabe, com 20 anos está a ensinar um velhote de 31.

 


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Mas já recusaste trabalhar com rappers por não gostares mesmo do trabalho deles?

Se gostar bué da tua música, ofereço-te o beat. Porque para mim é um honra trabalhar contigo. Porque tu és bom, gosto do teu trabalho, não quero saber se és famoso ou se ninguém te conhece. Ainda no outro dia dei o exemplo do “From The Heart” e do “Warriorz”, eu ganho mais dinheiro em direitos, dessas músicas tocarem nos festivais e por aí fora, do que se eles tivessem comprado [o beat]. E se calhar se eu tivesse pedido dinheiro, dependendo da situação financeira deles naquele momento, se calhar eles diziam: “pá, não posso comprar o beat”. Estas músicas não iriam acontecer. E tudo o que me aconteceu de bom até aqui não iria acontecer. Agora o recusar, lá está, é mais seleccionar. Se o teu trabalho não me diz nada, vai sacar as minhas beatapes e rima em cima delas. É de borla, podes usar um beat meu à mesma. E acho que não há nada melhor do que tu agarrares num beat que já alguém usou ou que está para download gratuito e matares o beat. Isso aí é que mostra: “eu consigo matar este, tens alguma coisa exclusiva para mim?”

E com tantos projetos, é fácil para ti pensares no momento de criação: este beat é bom, será que vai para a compilação, para a mixtape, para as beatapes, para o Estraca?

Isso é um grande problema, sabes o que tenho andado a fazer? Imagina, já estruturei a tracklist toda da beatape, mostro toda ao NGA: ele fica com 2, 4, ou 5. E eu fico sem 2, 4 ou 5 beats, whatever. E tenho de ir buscar mais. E depois tenho de mostrar novamente. E ele diz: “mais dois para mim”. Então ando ali [risos]. É uma forma de puxar por ti: porra, agora fiquei sem um beat, tenho de ir fazer um beat para aquilo.

Hoje em dia, onde vais buscar samples?

Ao YouTube. Deixei de ser falso. Tenho vinis, CDs, mas o YouTube é uma base de dados muito grande. O único problema é a qualidade dos samples, é um nojo. Mas o que é que tenho andado a fazer? E no “Kwalé” do NGA eu fiz isso. No Ableton tens uma opção que é convert harmony to MIDI, ou seja, eu tenho um sample, e eu converto aquilo tudo numa harmonia, num piano. E depois só tens de apagar as notas fraquinhas. Aí tenho a qualidade que quiser, meto o piano que quiser. O “Palavras” do Estraca é um sample do YouTube. E deixei de fazer aquela produção — pá, provavelmente ainda vai acontecer, mas –, de um loop gigantesco, em que não lhe toco, em que agarro num grande pedaço de carne e meto os drums por cima. Não, agora estou a fatiar tudo, a tentar ser o mais criativo possível.

E dez anos depois de começares oficialmente o teu percurso como produtor, como é que achas que está a produção em Portugal neste momento?

Está demais, tens aí gajos muito bons. Não desmerecendo os MCs, acho que há melhores produtores do que MCs. Quando eu fui jurado das duas Urban Beat Battles, e uma fui porque o Rui Miguel Abreu estava doente –, a do Hard Club, com o Kronic, o Mundo e o Maze –, posso dizer que 70% dos produtores que lá estavam tinham melhores beats do que eu. Em Lisboa, no Musicbox, a mesma coisa. Em Portugal tens o Lhast, que podia produzir para qualquer gajo lá fora. E a prova está aí na cena do Richie, que saiu agora. Prodlem, Beatoven, Forever Suave, Here’s Johnny, CharlieBeats, Fumaxa, Beats By Landim, tens aí produtores lendários a dar com pau a fazer música nova e a influenciar.

E lá fora, que é que tens ouvido?

Sou-te sincero, pela primeira vez estou a ouvir mais os tugas do que os estrangeiros. Sempre fugi muito de ouvir, porque houve uma altura em que ouvia muito Timbo, J Dilla, Scott Torch, Just Blaze, e colava-me muito na produção deles, porque é normal: tudo o que estás a ouvir acabas por fazer igual. Mas há produtores incontornáveis para mim, que estou sempre a ir ver o que é que andam a fazer: o Bink, Nottz, são gajos que estou sempre a cuscar e a ver qual é o último grito deles. O Nottz então é um gajo que me inspira de uma maneira. Porque é um monstro como eu, nesse sentido de estar sempre a comer beats. E o Bink já é mais um gajo que eu estudo no sentido da maneira como ele trata o som dele. E nem estou a falar de material. Estou a falar mesmo dos toques que ele dá: o charme, o deixar respirar a faixa.

Este ano também vais começar a fazer mais coisas na Madkutz TV.

Já estive a desafiar o meu mano João Ramalhete, o grande coleccionador. Quero fazer um podcast, só que não quero fazer um mais do mesmo. Não quero estar a fazer um Três Pancadas quando já há um Três Pancadas. Então estamos a tentar criar um conceito.

Mas vai ser sobre hip hop?

Sim, sobre hip hop. E ainda queria ter outro, mas aí seria numa veia minha — como eu sou um gajo muita parvalhão –, um lado mais cómico. Com o João seria tentar ser regular, talvez um por mês ou mais, e meter isso no YouTube. Vamos ainda ver o tempo que é. Vou estar também a fazer tutoriais para os produtores, para os MCs, que equipamento é que eles devem comprar — noto que há uma grande falta de informação acerca disso –, técnicas de produção, mistura, coisas básicas, nada de um curso muito aprofundado, mas dicas importantes para eles evoluírem.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha