Lisboa Dance Festival 2018: Debater primeiro e dançar depois

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Rafael Martins (Talks, Mirror People), Lúcia Domingues (DJ Kitten)

O último dia do Lisboa Dance Festival deixou-nos um ligeiro sabor agridoce. Depois da experiência das talks e masterclasses da edição anterior, fica a impressão que existiu um retrocesso. Não apenas pela quantidade — as cerca de três horas souberam-nos a pouco –, mas também pela qualidade do ponto-de-vista técnico de um acontecimento tão importante como a própria música — essa arte de debater sobre ela que nos leva a reflexões determinantes para o próprio desenvolvimento da cultura à sua volta.

Só a pertinência e experiência dos convidados envolvidos nos fez esquecer o frio que se foi apoderando do espaço designado às conversas, bem como as constantes falhas técnicas ao nível dos microfones/PAs. A mini-maratona arrancou às 16h30 com Charlie Beats, um dos nomes em maior ascensão quando o assunto se trata da produção nacional. A primeira (e única) “intrusão” nesta reportagem é de Rui Miguel Abreu, o autor do texto que se segue:

“Charlie Beats inaugurou a jornada de Talks no LDF com uma masterclass com o carimbo da ETIC. O produtor, que será o responsável pelo módulo de estúdio no curso de Produção de Hip Hop que o ReB promove na ETIC, “desmontou” um beat, demonstrando clinicamente como gosta de gerir a arquitectura de um som, atentando a cada detalhe e frequência e revelando muitos dos truques e dos plugins que gosta de usar quando trabalha com artistas como Wet Bed Gang, por exemplo.”

Seguiram-se as conversas na Fábrica das Bolachas, com RMA a ficar responsável pela moderação da primeira de três mesas de debate montadas na edição deste ano do LDF. “Marcas na Música” era o foco da discussão que contou com a participação da organizadora do evento, Karla Matos, uma das principais peças deste puzzle que faz a ligação entre os músicos e os grandes palcos com a ajuda de vários acordos entre empresas e patrocinadores. GPU Panic foi quem melhor resumiu esta teia de conexões: “as marcas nunca se devem sobrepor ao artista”. Um apoiante confesso das parcerias mutuamente benéficas entre músicos e sponsors, que fez questão de partilhar a experiência positiva que vivenciou aquando da participação numa das edições da Red Bull Music Academy.

 


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Numa altura em que é cada vez mais visível a “invasão” turística na nossa capital, também a ligação entre as nossas artes e os visitantes que vêm de longe não ficou esquecida neste conjunto de tertúlias. Ricardo Farinha (ReB & NIT), Sérgio Hydalgo (ZDB) e Xinobi (Discotexas) foram as vozes que se fizeram ouvir em “Lisboa Dança com Turistas”, que contou também com as palavras de Pedro Fradique (Lux Frágil) já na recta final do debate. A capital portuguesa está cada vez mais na moda e o nosso circuito de clubbing é uma das principais atracções para quem visita o país.

“Lisbon is the New What?” foi o mote para a derradeira talk da tarde do dia 10 de Março. Branko assumiu-se enquanto verdadeira voz da experiência, ele que foi um dos responsáveis por colocar Portugal no mapa com a exportação de Buraka Som Sistema. As opiniões divergiram dentro da mesa de discussão moderada por Vitor Belanciano, com Ryan Miller (Resident Advisor) e Tyson Ballard (DJ) a juntarem-se a Pedro Fradique, que negou a existência do conceito que temos vindo formular acerca do som que floresce em Lisboa nos últimos anos. Ryan Miller fez mesmo a comparação entre o grime e a batida da nossa capital, referindo que o background social e cultural em nada fomentou a aparição de ambos os géneros — “podiam ter surgido em qualquer parte do mundo,” concluiu. Será?

 


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Depois de um jantar improvisado e uma passagem pelo espaço reservado à BoCA, a Fábrica do Pão era o local que exigia a nossa presença. Em palco quase que se cruzavam dois dos músicos que dividem protagonismo nos X-Wife. Falamos de João Vieira a.k.a. DJ Kitten e Rui Maia, agora mentor dos Mirror People, que, segundo as declarações prestadas à Antena 3 durante o certame, se vão voltar a reunir novamente no trio de rock. Focando as prestações que ontem protagonizaram em separado, a sensação é que o DJ “felino” poderia ter sido colocado mais tarde no alinhamento para o último dia do Lisboa Dance Festival. João Vieira entrou a pés juntos, a rasgar com o sistema de som pela batuta das malhas techno mais pesadas que ecoavam no recinto àquela hora. A transição para os Mirror People — e até para Nosaj Thing — foi estranha depois de toda a aceleração rítmica que tínhamos ouvido (e sentido). A banda de Rui Maia celebrou em palco o aniversário do segundo disco Bring The Light, que combinou vários elementos da electrónica com os conceitos de banda nas cena new wave e indie rock.

 


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Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira