Laraaji // Celestial Vibration

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Edward Larry Gordon, também conhecido como Laraaji, editou em 1980, através do selo de Brian Eno, uma visionária peça espiritual que liga universos paralelos. A Soul Jazz acaba de a recolocar no mercado.

“Eu estava a par de Albert Ayler. As suas longas gravações cósmicas influenciaram-me a seguir a direcção da música curativa cósmica”, explica Edward Larry Gordon, que talvez seja mais conhecido como Laraaji, músico que na década de 80 deu um contributo para a fase ambiental de Brian Eno. “Vi Sun Ra e a sua Arkestra em Nova Iorque durante os finais dos anos 70. Também conheci Alice Coltrane e a sua harpa e música de órgão mexeram profundamente comigo – tal como a sua devoção espiritual. Algum do meu trabalho na cítara pode muito bem ser inspirado pela exposição às suas gravações de harpa e canto. Também descobri na música gravada de John Coltrane uma profunda força de emoção cósmica».

Estas declarações de Larry Gordon surgiram há sete anos a propósito da primeira reedição de Celestial Vibration, uma gravação de 1978 que originalmente foi alvo de uma limitadíssima prensagem privada que, aliás, terá estado na base da “descoberta” de Brian Eno. Três décadas depois, esta poderosa gravação inaugural de Laraaji mereceu uma primeira re-edição mais alargada na mesma Universal Sound (subsidiária da Soul Jazz) responsável por lançamentos de Steve Reid (entretanto desaparecido), Nathan Davis ou Marcus Belgrave, entre vários outros. Esse relançamento aconteceu primeiro sob o nome de Edward Larry Gordon e foi importante porque voltou a angariar atenção para a obra de Laraaji que depois disso viu outros títulos serem re-apresentados ao presente e, paralelamente, aceitou colaborar com músicos da nova geração, como aconteceu com o projecto Sun Araw com que, aliás, tocou ao vivo em Portugal. O álbum volta agora a ser disponibilizado pela mesma Soul Jazz, numa nova edição desta feita creditada a Laraaji, numa altura em que o olhar sobre a memória new age já é um facto do presente traduzido em inúmeras reedições.

Celestial Vibration consiste de duas longas peças – “All Pervading” e “Bethlehem” – de pouco mais de 24 minutos cada (a simetria deve-se, certamente, à exploração da capacidade máxima do vinil, uma vez que ambos os trabalhos consistem de edições de improvisos mais longos) onde a cítara (“zither” em inglês, não confundir com a sitar indiana) modificada electronicamente surge como a base de um edifício sonoro muito particular. A kalimba africana, o sintetizador e leves toques de percussão completam a paleta de sons de que se socorre Edward Larry Gordon neste seminal álbum que pode ser encarado como uma espécie de elo perdido entre o lado mais espiritual do jazz e a música explorada por Brian Eno na série Ambient produzida para a EG Records. Edward assinou mesmo o terceiro volume dessa série, como Laraaji, logo em 1980 – Day of Radiance, reeditado recentemente, é hoje visto como um clássico do género, embora acrescente à equação de Celestial Vibration uma clara influência das experiências minimais de gente como Steve Reich.

Nascido em Filadélfia em 1943, Edward Larry Gordon é um produto da abertura de consciências da década de 60. Educado musicalmente desde muito cedo, no final dos anos 60 Larry Gordon era teclista num grupo de jazz funk de Brooklyn, os Winds of Change. A meditação surgiu depois na década de 70, e com ela uma demanda musical diferente que conduziu este músico até à cítara. Este instrumento tem origens africanas, mas a sua forma actual deve-se a uma evolução europeia, sobretudo na zona dos Alpes. Nas mãos de Edward Larry Gordon a cítara – electrificada, amplificada, processada electronicamente com várias unidades de efeitos e percutida com diversas “ferramentas” – potenciou a sua riqueza harmónica e transformou-se num instrumento de diálogo com o espírito. À cítara, Larry Gordon acrescenta igualmente o sintetizador e a kalimba (o “piano de polegares” africano que na tradição angolana é conhecido como quissange), ferramentas que transformam os seus recursos instrumentais numa interessante metáfora – a sua música coloca-se assim entre a Europa, África e o futuro, entre o jazz, uma tradição erudita e uma visão cósmica mais ampla e intemporal.

Em Celestial Vibration a música assume-se como uma plataforma de elevação espiritual, nesse sentido posicionando-se como continuação lógica do trabalho de outros navegantes do espírito como Alice Coltrane. A forma é livre e a evolução estrutural muito fluída, circular e hipnótica. Natural pois a aproximação entre Edward Larry Gordon e músicos como Jon Hassell, Harold Budd e Brian Eno – qualquer um deles um explorador de pleno direito das regiões mais remotas e tranquilas da música. Parte desta música acabou por evoluir para o raras vezes interessante plano da new age, estética entretanto revalorizada e de onde saíram alguns realmente importantes nomes, como Marc Barreca, Iasos, J.D: Emmanuel ou Ariel Kalma.

A seu favor, no entanto, Celestial Vibration tem a espessura emocional e a beleza de uma ideia ancorada numa visão generosa do mundo e numa execução que é, de facto, exploratória. Esta música é, na verdade, um mapa para a elevação espiritual e não um mero incenso sonoro. E 39 anos depois da sua edição original retém todo o poder e profundidade. Ignorar assim a passagem do tempo é uma proeza.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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