Lamb: Entre a pista de dança e o paraíso

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTO] Direitos Reservados

É impossível falar nos Lamb sem falar de trip hop, movimento nascido em Bristol nos anos 90, e tendo como representantes grupos como Massive Attack e Portishead. Mas foi no Norte da Inglaterra, em Manchester mais precisamente, que nasceu o duo de Louise Rhodes e Andy Barlow. E embora mantenham fortes afinidades estéticas com um dos géneros mais importantes da eletrónica, o que é certo é que a sonoridade de Lamb foi muito mais longe, abrangendo e abraçando o downtempo, o dub, o acid jazz e, talvez a mais notória de todas as influências, o drum’n’bass.

Os Lamb não foram o único grupo a nascer dessa colheita que incorporou vozes femininas por cima de batidas eletrónicas e baixos sintetizados, mas ao contrário dos seus contemporâneos, a voz de Louise Rhodes era mais memorável que, por exemplo, a dos Sneaker Pimps ou dos Everything But The Girl, e os ritmos que lhe serviam de cama mais experimentais e complexos, sem nunca esquecer uma sensibilidade pop que fizeram alguns dos seus álbuns sucessos de vendas (afinal de contas, ambos foram capazes de compor músicas doces e acessíveis como “Sweet” a par de faixas mais experimentais e intensas como “Górecki”).

E se, de facto, partilham muitas semelhanças estéticas com contemporâneos seus como os Massive Attack, nomeadamente o uso de percussão tribal, cedo deixaram de fora o uso de rappers ou vozes graves masculinas para dar lugar à voz feminina e poderosa de Louise Rhodes.

Os dois sempre formaram um duo improvável: Andy só queria saber das batidas, Lou não abdicava da sua voz. Mas nenhum assumiu preponderância sobre o outro, porque ambos eram interdependentes: a voz de Louise é tão sedutora e memorável como as sequências rítmicas de Andy. Os dois elementos parecem não se encaixar bem à primeira escuta, mas depressa ficamos rendidos à brilhante ousadia.

Contraste, aliás, que é patente noutras áreas da vida, fora da música: desde 2004 que Louise e os seus dois filhos vivem numa casa de campo partilhada com outras famílias, em regime comunitário, enquanto Andy vive sozinho numa montanha isolada. Ele, o boémio; ela, a mãe de família.

A voz de Louise empresta vigor e emoção às faixas: pode ser tão onírica como a de Björk, etérea como a de Enya, irresistivelmente sedutora e penetrante como Beth Hirsch, ou mais bucólica como Beth Orton, mas sempre bela, interessante e inegavelmente feminina. E como disse Stephen Thomas Erlewine na sua crítica ao álbum homónimo, impede a electrónica de se tornar fria. Oscila entre vários registos e tons, sem nunca cair no exagero. Às vezes parece menina, outras mulher. Está sempre entre o folk e a eletrónica, entre a pista de dança e uma fogueira de amigos. O seu grande mérito é, para citar Rob Wacey na sua crítica a Backspace Unwind, conseguir ser poderosa sem aparente esforço, com subtileza e suavidade. É tanto capaz de nos levar para junto dos anjos como curar todo o nosso mal-estar e perdoar todos os nossos pecados, ou simplesmente fazer-nos sonhar, como só uma voz feminina consegue fazer.

De que falam, então, as letras de Rhodes? Como seria de esperar, anseio pelo contacto físico (“Lusty”), enlevo amoroso (“Gold”), cura para a solidão (“Cotton Wool”), gratidão divina (“God Bless”), o poder vencedor do amor (“Trans Fatty Acid”), melancolia e abnegação (“Zero”), amor eterno (“Górecki”), apologia do natural em detrimento do mundano (“Little Things”, “Here”) e todo o tipo de transcendência mística. Tudo isto destilado em versos curtos e simples, com metáforas doces do tipo “Your heart is full of little arrows” e “Finding someone is like finding yourself a home”, pequenos oxímoros (“You saw me crying/But you didn’t want to look/You heard me hurting/But you didn’t want to listen”) e momentos interessantes de pura criatividade com as palavras (“If I could just compose myself/I’d radiate just the right amount of cool and heat”, “The time is long overdue for a house clearing of the soul”). Mas todas têm algo em comum: o desejo humano de fuga e felicidade.

E que dizer sobre os ritmos de Andy Barlow? Clássico drum’n’bass: imprevisíveis, o bombo e a tarola embrulham-se um no outro, e ora explodem ou implodem, como que num jogo de gato e rato de consequências inesperadas.

O duo nasceu em 1994, nos tempos áureos do techno britânico, em particular do trip hop: Andrew Barlow era, na altura, um engenheiro de som com uma obsessão por drum’n’bass a trabalhar para a editora dos Simply Red, enquanto Louise Rhodes, filha de cantores folk, era uma fotógrafa à espera da sua grande oportunidade. Ambos conheceram-se por um amigo comum da cena musical de Manchester. Embora diferentes (“pólos opostos”, segundo os próprios), decidiram colaborar, e a química inicial foi tão grande que os dois conseguiram um contrato de seis álbuns com a Mercury logo no ano seguinte, baseado em apenas três canções (“Cotton Wool”, “Gold” e “God Bless”) que definiram a estética e sonoridade do grupo: a voz de Louise, doce e emocional, algures entre o folk, o ambient e a pop; e as batidas de Andy, complexas, dispersas, velozes, imprevisíveis.

 




O álbum de estreia, Lamb, de 1996, chamou a atenção de vultos do género como Fila Brazillia e Mr. Scruff, que remisturaram alguns dos seus singles, e introduziu a fórmula que os tornaria famosos: batidas jungle imprevisíveis, loops de cordas clássicas, toques jazzísticos (sobretudo o contrabaixo, em faixas como “Cotton Wool”), sons de origem obscura, e a voz de Louise Rhodes, etérea, angelical, plangente (às vezes à beira do choro), inesquecível, unidos numa abordagem de canção mais tradicional e pop ao drum’n’bass habitualmente despojado de vozes.

Foi também do primeiro álbum que saiu um dos seus singles mais memoráveis: “Górecki”, baseado numa sample do segundo movimento da Terceira Sinfonia de Henryk Gorécki. Uma faixa que começa muito ténue, com piano, cordas sintetizadas e um leve batuque de congas, e depois evolui para uma percussão tribal que intensifica uma história de amor eterno.

 



O álbum ainda inclui momentos em que abandona o jungle a favor do trip hop à Tricky, como “Trans Fatty Acid”, e uma delicadíssima canção sem ritmos, inteiramente à base de violoncelos plangentes (“Zero”), bem como instrumentais de forte pendor jazzístico (“Merge”), mostrando que os dois estavam bem abertos a experimentalismos.

E cedo se expandiram para um live act, acrescentando instrumentos acústicos à densa tapeçaria electrónica em palco.

O segundo álbum, Fear of Fours (título que vem da sua aversão ao típico compasso de 4/4 ouvido em tanta música moderna), de 1999, consolidou o seu estatuto junto dos fãs de electrónica e música alternativa. Mais ambicioso e ecléctico, mostra uma banda sem medo de experimentar, e alarga a paleta de sons e géneros, desde o jungle a que nos habituaram ao chillout e ao acid jazz. Ouvimos sons que não ouvíramos antes, como texturas ambient, sons pastorais, e suaves drones. A começar pela faixa de abertura, “Soft Mistake”, instrumental que evoca o downtempo de Zero 7 antes de se desdobrar em percussão de marcha militar, ou o chillout à Groove Armada de “Ear Parcel” e “Five”.

Destaque também para a produção de Andy Barlow, que aqui se complexifica ainda mais, revelando influências polirrítmicas do bebop e compassos estranhos. O namoro com o jazz também continua (com o contrabaixo a assumir grande protagonismo no álbum), bem como a música orquestral e clássica (note-se os bonitos arranjos de cordas em “Bonfire” e “Lullaby”), e Andy até brinca com a música brasileira em “Here”. É também aqui que Louise tenta ampliar o seu alcance tímbrico, tentando soar como diva: nunca a ouvimos tão maviosa e sensual como em “B Line”.

O álbum termina em alta com o belíssimo “Lullaby”: letras de esperança na eternidade do amor em cima de cordas sinfónicas (“We’ll have love aplenty, we’ll have joys outnumbered”) que podem levar os mais sensíveis a lacrimejar.

 





Seguiu-se What Sound, de 2001, porventura o mais comercial de todos os álbuns (e sem as influências jazz do disco anterior), e aquele que nos deu o momento mais sacarino e comercial de toda a discografia (“Sweet”), e o single mais famoso, que tornou o grupo num fenómeno mundial de popularidade (“Gabriel”). Desta vez o conteúdo lírico resume-se ao amor romântico, num disco quase inteiramente feito de baladas.

É também o primeiro a contar com vários músicos convidados de renome (como Arto Lindsay, Nellee Hooper, Michael Franti e Richard Dorfmeister), e por isso talvez o mais ambicioso até à data: ouvimos várias baladas com cordas, e Lou Rhodes felizmente conseguiu conter os excessos de diva presentes em Fear of Fours, soando mais calma e controlada, sem perder a celestialidade tão característica da sua voz. Foi também aqui que Andy se afastou do drum’n’bass do primeiro álbum e experimentou com outros ritmos, como os da faixa de abertura, “What Sound”, agora com a beleza lírica das cordas para os encorpar, o delicado downtempo de “Small” e o big beat de “Scratch Bass” a fazer lembrar Chemical Brothers.

Mas é “Gabriel” que leva o prémio de melhor canção do álbum, a condensar todos os ingredientes Lamb num dos momentos altos de toda a obra: percussão forte e emotiva, a voz etérea de Louise a cantar letras igualmente etéreas, e a beleza das cordas.

 





Between Darkness and Wonder, de 2003, não impressionou os críticos pela familiaridade das fórmulas. O quarto álbum manteve as cordas de What Sound, mas pôs de parte o jungle frenético dos primeiros tempos.

Os ritmos são mais contidos (este é talvez o menos intenso de todos os seus álbuns), e são mais digitais e polidos do que antes, numa tentativa de trazer a sonoridade dos anos 90 e firmá-la de pés sólidos no novo milénio, sacrificando o experimentalismo dos primeiros álbuns, que os distinguiam dos demais e lhes trouxeram respeito e admiração. O conteúdo das letras mudou ligeiramente, com canções mais oníricas e melancólicas sobre escuridão e luz, esperança, solidão e renascimento das trevas. Foi também aqui que ouvimos pela primeira vez um novo lado mais acústico e intimista, ausente em discos anteriores, em baladas como “Till The Clouds Clear” e “Please”. Mas embora haja boas ideias (como “Angelica”, uma remistura glitch construída em torno de samples de “Clair de Lune”), Andy e Louise não acrescentaram nada de fundamentalmente novo no quarto capítulo da sua obra, e não há nenhum momento tão memorável como “Gabriel” ou “Gorécki”.

 




A atividade do grupo pareceu abrandar no início do milénio, e a banda ameaçou terminar com a edição do best-of Best Kept Secrets: The Best of Lamb 1996-2004, aquela que foi anunciada como a sua última aparição ao vivo (no Paradiso em Amesterdão) e cada um dos membros a enveredar por carreiras a solo: Louise explorando o lado mais acústico dos Lamb, regressando às suas raízes, com três álbuns de folk rock (um dos quais nomeado para um Mercury Prize), e Andy Barlow aprofundando o seu fascínio pelos breaks com o projecto electrónico LOWB e um volume na série de chillout Back to Mine.

No entanto, o duo terminou o seu hiato em 2009 para várias datas ao vivo, e lançaram o seu quinto álbum, 5, em 2011, na sua própria editora (consta que o próprio nasceu de uma conversa telefónica em que Andy perguntou à sua companheira por uma boa razão pela qual eles não deveriam fazer um novo álbum, e Louise não se conseguiu lembrar de nenhuma). Em entrevista ao Guardian, confessaram a desilusão com a sua editora de longa data, Mercury, e decidiram ir pelo difícil caminho da independência, tomando conta de todo o processo, desde a gravação até ao design da capa até à concepção dos seus espectáculos ao vivo. E contaram com a ajuda dos fãs, que juntaram 30,000 libras para os ajudar. O público temia que oito anos os tivesse mudado, mas os Lamb continuavam os mesmos. E a crítica respondeu favoravelmente, em unanimidade.

Os ritmos digitais acusam o ano em que foram feitos, e confirmam o progressivo afastamento do drum’n’bass mais agressivo e cru desde What Sound. As faixas são mais uma vez calmas (e muitas delas acústicas), e os arranjos delicados, mas não menos complexos. E a voz de Louise não mudou, continuando a ser moldada em refrões e melodias que carregam faixas inteiras. A sua curiosidade infantil permanece, patente nas mesmas divagações místicas sobre o sentido da vida, e sobre sentimentos humanos que não são bem inteligíveis (ou comichões que não se podem coçar, como diz em “Existential Itch”). Nenhuma da estética Lamb foi aqui perdida, e tudo é feito com elegância e competência. Este álbum é também marcado pelas melodias mais delicadas que já ouvimos deles, algumas feitas a partir de xilofones de brincar, como as que animam “Build A Fire” e “Another Language”.

Depois de um álbum ao vivo, Live at Koko, no mesmo ano, o seu sexto e último álbum, Backspace Unwind, surgiu em 2014. Semelhante ao seu antecessor, mantém a frieza digital dos ritmos electrónicos aquecida pela voz calorosa de Rhodes, as sensibilidades pop, as melodias delicodoces e as considerações sobre a natureza do amor, a finitude e intangibilidade da vida e o que faz de nós humanos. E tem o momento mais Enya de toda a discografia: “Only Our Skin”.

Curiosamente, o seu mais recente single, Ilumina, segue os ingredientes clássicos da receita Lamb: as mesmas batidas drum’n’bass no ponto e a voz etérea de Louise Rhodes. Será nostalgia ou podemos antever uma nova direcção na sua música?

Os Lamb nunca alcançaram grande sucesso além-fronteiras, à excepção de um pequeno país no Sul da Europa. A relação de amor com Portugal começa em 1996, graças a uma pequena estação de rádio alternativa lisboeta de vida breve chamada XFM, numa altura em que apenas tinham lançado os singles Cotton Wool e Gold. Na altura do lançamento do seu álbum de estreia homónimo, já se tinham tornado queridos da imprensa musical lusitana e nos círculos de música alternativa do país. Em 1997 actuaram pela primeira vez em Lisboa, num pequeno local que cedo esgotou, e rapidamente impressionaram o público, juntando ao hype popular o hype dos media. O álbum seguinte fez sucesso no top nacional de vendas no primeiro mês, ao que se seguiram várias datas ao vivo e acolhimento por parte da crítica. Nessa altura, seria uma questão de tempo até os Lamb passarem de banda de culto a fenómeno de massas. E foi isso mesmo que aconteceu em 2001, com o álbum What Sound a alcançar dupla platina e segundo lugar no top de vendas, graças à explosão do single Gabriel, uma das músicas mais tocadas na rádio portuguesa e uma das mais acarinhadas pelo público português.

Poder-se-á dizer que os Lamb se foram tornando mais acústicos e menos violentos e intensos com o passar dos anos, mais pop e menos experimentais, e que se afastaram das suas raízes, que se moveram da pista de dança para a sala de estar, ou para o piso chillout da discoteca, mas isso não é de espantar num grupo que sempre criou sob o signo do ecletismo. De facto, sempre navegaram essa linha ténue entre o alternativo e o pop, o experimental e o convencional, o acessível e o desafiante, e talvez essa dicotomia explique o seu sucesso. Tanto atraíram multidões como fãs de electrónica mais selectos. O seu grande mérito foi unir a sensibilidade pop à música mais experimental, construindo canções de estrutura mais tradicional, com voz e refrão, sem nunca esquecer as raízes electrónicas e alternativas do grupo.

Os Lamb encontraram ouro nesta combinação, algo que lhes permitiu destacarem-se dos seus contemporâneos ingleses: nunca foram tão fumarentos como Massive Attack ou Tricky, tão comerciais como Morcheeba ou Sneaker Pimps, e tão lânguidos como Portishead.

Combinação essa que é destilada em canções que tanto conseguem ser ouvidas como faixas de electrónica ou enquanto canções pop orelhudas. E o objectivo é cumprido, porque tanto é possível desfrutar destas músicas sentado a abanar a cabeça, de pé a dançar hipnotizado, ou cantar os seus refrões.

Como disse Paul Cooper na sua crítica a Fear of Fours, o que distingue os Lamb dos pretendentes ao trono do trip hop é que eles adaptaram o modelo do género, em vez de o emular ou banalizar.

Os Lamb não inventaram baladas românticas ou batidas rápidas, mas uniram estes dois ingredientes aparentemente díspares e irreconciliáveis, levando quem os ouve a um novo lugar, algures entre a pista de dança e o paraíso.

 


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