Keso & Slow J: dois tesouros do presente, dois pilares para o futuro

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Keso e Slow J são dois artistas que nos fazem acreditar no brilho do presente e que carregam nos ombros o peso gigante das promessas do futuro. São ambos homens da palavra que também sabem desenhar os cenários sonoros por onde as suas ideias correm, livres e soltas, como convém. As semelhanças param aí: carregam diferentes “sotaques”, respondem a diferentes filiações estéticas, descendem de diferentes tradições, carregam diferentes bagagens. O que não significa que haja um oceano a separá-los. Na verdade, pode argumentar-se que são ambos faces de um mesmo e complexo prisma que é a actual cena rap nacional. E são ambos parte de um considerável número de razões que sustentam a nossa presença amanhã no Parque das Nações, para a segunda jornada do Super Bock Super Rock, edição 2017.

 



Sobre Keso, tive a oportunidade de escrever em Abril do ano passado quando se apresentou no palco do Maus Hábitos, no Porto. Escrevia eu, então, que “Keso emanou segurança e classe absoluta”: “Flows variados, sussurros, refrões cantados, raiva, tristeza, ironia mordaz: a quantidade de recursos dramáticos que consegue convocar para a sua performance é assinalável. Mostra-o como um verdadeiro artista. Não um mero rapper que rima porque tem que ser, mas um artista que pega nessa necessidade e a questiona, a transforma, a usa para algo maior. E isso é raro.”

Rara é igualmente a arte lenta de Slow J. Quando me atirei a The Art of Slowing Down argumentava que “mais do que rapper ou produtor ou cantor ou músico não deveremos temer aplicar a Slow J a palavra “artista” porque tudo o resto parece redutor no sentido de não conseguir abarcar plenamente aquilo que faz e propõe”. Com outras valências, Keso também extravasa os limites convencionais do “cuspidor de rimas”: realiza vídeos, tem uma presença na rádio, mas, sobretudo, pensa. Para dentro, certamente, mas também em “voz alta”, em entrevistas sempre reveladoras de uma mente inquisitiva, inquieta, crítica, sôfrega.

 



Slow J é outro pensador. Nas entrevistas é frequente – e tão revelador – o seu silêncio, sinal de que gosta de organizar e pesar as ideias antes de responder. Slow J – como Keso, de resto – não é um repentista: daí professar uma “dieta” artística baseada no “slow cooking”, por acreditar que o que importa demora tempo: estreou-se em 2015 com o EP The Free Food Tape e depois investiu quase dois anos no meticuloso trabalho que resultaria em The Art of Slowing Down. A produção de Keso é ainda mais “lenta”: estreia em 2003 com Raios Te Partam, longa pausa até 2012 para lançar o incrível O Revólver Entre as Flores e depois mais quatro anos de espera até todos recebermos o não menos extraordinário KSX2016. Esta teimosa recusa de cedência ao apelo imediato que a actual vibração da cena rap nacional pode impor – evidente nas atitudes tanto de Keso como de Slow J – é sinal de que nenhum deles está disposto a sacrificar o nível das suas criações apenas para entrar na arena onde tantas outras cabeças vão marcando presença.

Talvez o facto de ambos terem vivido fora do país – para estudar e/ou trabalhar – lhes tenha contido os entusiasmos fáceis: habituarem-se a esperar pelo regresso, habituarem-se à distância, há-de ter surtido efeito, logicamente. E por isso, por saberem que o regresso pode ser a mais doce das sensações, ambos sabem igualmente que o tempo acaba por ser um aliado. Porque apenas com tempo se conseguem as mais duradouras recompensas.

Com KSX2016 The Art of Slowing Down a mostrarem-se ambos capazes de se imporem nos calendários dos respectivos anos de edição – 2016 e 2017, no caso – embora graças a um diferenciado conjunto de argumentos (podem sempre reler as críticas que eu e Francisco Noronha aqui lhes dedicámos), sabemos portanto que estamos perante dois sólidos pilares do nosso presente e futuro. Keso e Slow J têm um enorme espaço de progressão e o facto de já terem deixado claro que gostam de investir tempo nas suas criações, de revelar independência face a trends, capacidade de resistência às tentações do game, pode tranquilizar quem neles deposite a esperança de lançamento de obras ainda mais desafiantes.

Resta mencionar mais uma qualidade que ambos partilham: a capacidade de dominar um palco. Tanto Slow J como Keso marcaram muito cedo presença em eventos com marca Rimas e Batidas, demonstrando cada um à sua maneira que tanto em momentos quase secretos, de menor dimensão, como noutros de maior visibilidade, são sempre capazes de iluminar o palco com ideias, imaginação performativa, capacidade de prender o público às suas vozes, às suas rimas, a cada uma das suas palavras. E isso é que importa. Não tenho dúvidas que vão repetir o encantamento amanhã, em mais um dia grande para o hip hop no Super Bock Super Rock. Vemo-nos – e mais importante, vemo-los! – por lá.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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