Kendrick, a palavra “n***a”, a cultura, a identidade, o Atlântico e o bom senso

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Foi ampla a discussão em torno do gesto de Kendrick Lamar em palco, quando, no Alabama ainda por cima, aproveitou o facto de uma fã branca estar ao seu lado a rimar alguns versos de “m.A.A..d. City” para fazer um importante esclarecimento: a palavra “n***a” não pode ser levianamente usada por brancos, nem mesmo por aqueles que se limitam a juntar as suas vozes ao refrão de um hit de um artista que admiram.

As palavras em causa, tal como escritas por K-Dot:

“Man down
Where you from, nigga?
Fuck who you know, where you from, my nigga?
Where your grandma stay, huh, my nigga?
This m.A.A.d city I run, my nigga”

Ao contrário do que sugeriam alguns posts que vi nas redes sociais, invariavelmente escritos por brancos, Kenny não foi agressivo quando pediu ao seu DJ que interrompesse a música. A fã ainda o questiona: “Am I not cool enough for you?”. Na verdade, deveria ter perguntado “Am I too white for this word?”… Lamar, depois, faz referência ao bom senso, às “regras” e explica que sim, que ela pode cantar a canção, “you gotta bleep one single word, though”. “Podes cantar, mas tens que eliminar uma palavra”. A fã apercebe-se, pede desculpa, e Kendrick, depois de questionar a audiência sobre se deveria permitir que a fã retomasse a canção, lá regressa ao tema com a sua admiradora ao lado, provavelmente envergonhada, mas certamente educada numa ideia muito simples: esta palavra deve permanecer fora do alcance de quem não tem o direito de a reclamar.

Esta é uma questão muito complexa e Kendrick, na minha opinião, agarrou um momento para exercer alguma pedagogia, de forma benigna, embora assertiva. Mas Kenny estava a cantar palavras sobre Compton, essa “cidade louca”, no meio do Alabama perante uma plateia predominantemente branca. E nós? E nós do lado de cá do oceano? Que temos nós que ver com isso? Como devemos relacionar-nos com essa palavra?

Num artigo a propósito deste episódio publicado na revista digital Ambrosia For Heads, Bandini recupera um vídeo esclarecedor do escritor Ta-Nehisi Coates em que esta questão é abordada. O autor de We Were Eight Years In Power: An American Tragedy tem uma das mais inteligentes, sólidas e sustentadas vozes críticas da América no que concerne a estas questões de raça e por isso mesmo uma das estudantes — branca — presentes na audiência desta palestra oferecida no auditório de uma escola secundária não perde a oportunidade de o questionar, confessando-se incapaz de agir quando todos os seus amigos usam a palavra ao cantarem estas canções.

 



A resposta de Coates é pedagógica, eloquente, sensível e oferece algumas pistas importantes, próprias de quem há muito que reflecte sobre estas questões. No admirável livro Between The World And Me, uma tocante carta aberta que o escritor endereçou ao seu filho de 15 anos e com a qual procura educá-lo nas delicadas questões da raça, quase como se de um livro de instruções para a sobrevivência na América se tratasse, há, no final, um significativo conjunto de 14 páginas em branco. Páginas que significam que Ta-Nehisi Coates poderá voltar a dirigir-se ao seu filho, quando este for um jovem adulto, que estas questões que ali debate consigo mesmo não têm ainda respostas satisfatórias, páginas que significam que nós mesmos podemos e devemos juntar a nossa voz a estes debates, páginas que podem ser, enfim, um convite a que o seu próprio filho ali acrescente as suas palavras, as suas conclusões, os seus pensamentos. A ideia é que esta é uma questão complexa e ainda por resolver e por isso mesmo pensá-la, discuti-la, usar cada situação — mesmo um momento lúdico como um concerto pop — como uma possibilidade de esclarecimento é obrigação de todos.

Uma das coisas que Ta-Nehisi Coates começa por frisar na resposta que oferece às dúvidas da tal estudante do secundário que o interpela neste vídeo é que as palavras de nada valem sem o contexto apropriado. E esse, curiosamente, tem sido o argumento que mais vezes vejo ser invocado para justificar o uso da palavra-N do lado de cá do Atlântico. Já me arrepiei quando, ao tocar Notorious B.I.G. nalgumas das festas Rimas e Batidas, por exemplo, vejo a palavra entoada com perfeito abandono por bocas de todas as cores. Deveria ser assim? Já percebi que as respostas, quando se chama a atenção para tal facto, oscilam entre “pá, isto não é a América”, “nós não temos nada a ver com aquela realidade”, “é apenas uma palavra”, “todos a usam”, “se eles a usam porque não podemos nós?” ou até a mais rebuscada “eu nunca escravizei ninguém”.

Permitam-me recuperar o fôlego…

Há ainda uma questão adicional: na América de 2018 já se evoluiu ao ponto de nenhum rapper branco se atrever a usar essa palavra nos seus versos, mas em Portugal são vários os casos em que tal acontece. Não tenho quaisquer dúvidas que a intenção é de inclusão: a palavra-N usada por um rapper branco por cá tem por significado profundo o sublinhar da igualdade, da pertença, é uma forma de dizer “somos iguais, somos do bairro, não existe aqui nós eles“, ideia reforçada pelos vídeos em que as crews são sempre multi-raciais. Ou seja, o contexto cultural é diferente por cá. Certamente.

MAS… e este é um grande mas, o uso recorrente da palavra-N por parte de rappers negros americanos prende-se com o reclamar de um insulto não como um emblema, mas como um escudo. Usar uma palavra que foi durante tanto tempo instrumento de desumanização — e mantê-la fora do alcance dos brancos – é uma forma de empoderamento, de dizer, literalmente, “o que não nos mata, torna-nos mais fortes”. É uma forma, também, de manter a história presente. Uma forma de a sociedade do século XXI não se esquecer que até há século e meio a escravatura era uma realidade, que até há 60 ou 70 anos o sistema Jim Crow era uma realidade, que até há 50 anos a segregação era uma realidade, que até ontem ou hoje a violência exercida pela maioria branca sobre as minorias negras continua a ser uma realidade. Os brancos, explica Coates no tal vídeo, aprendem desde cedo, como parte da sua cultura, que são donos de tudo, que nada está fora do seu alcance, “e agora vêm dizer-nos que não podemos usar uma palavra que fomos nós que inventámos?”.

Essa é a questão: “nós que inventámos”. E deste “nós”, nós os que estamos do lado de cá do Atlântico, não nos podemos excluir. Porque nós fazemos parte da tal história que a palavra-N pretende manter viva na memória de todos. Por isso mesmo é importante compreender o peso das palavras. Por isso mesmo é importante debater o termo “Descobrimentos” quando se anuncia a criação de um museu que saiba olhar para a nossa história. Isto está tudo ligado. E nós, os portugueses, fazemos parte dessa história que carregou pessoas em barcos contra a sua vontade, que as levou para o lado de lá do oceano, privando-as de tudo — da dignidade e da humanidade. A palavra-N nasceu como instrumento de tortura. Entendê-la hoje como se tendo esvaziado do seu significado original é pensar que as palavras são matéria inerte, capazes de perder as suas propriedades benignas ou malignas, o que é ir precisamente contra tudo o que uma língua é ou pode ser: veículo de cultura, ferramenta de afirmação e de construção de identidade, instrumento de opressão ou de liberdade sempre ligado a uma história particular, a um contexto que se mede em séculos, não em anos ou meses.

Ora atentem à letra de “Juicy”:

“Yeah, this album is dedicated
To all the teachers that told me I’d never amount to nothin’
To all the people that lived above the buildings that I was hustlin’ in front of
Called the police on me when I was just tryin’ to make some money to feed my daughter (it’s all good)
And all the niggas in the struggle
You know what I’m sayin’? It’s all good, baby baby”

Um álbum dedicado a todos os professores que sempre disseram que Biggie nunca haveria de ser ninguém, a todas as pessoas que chamaram a polícia quando ele tentava apenas sobreviver, a todos os n****s na luta.

E se não sabiam antes, sabem-no agora: a palavra-N, mesmo do lado de cá do Atlântico, esse mar carregado de história, continua a pesar. Mas esta é apenas a minha opinião. Como Ta-Nehisi Coates, deixo agora umas páginas em branco — virtuais, mas em branco — para que possam acrescentar as vossas próprias ideias ao debate.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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