Kendrick Lamar, a violência do vídeo de “ELEMENT.” e a condição negra na América

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Kendrick Lamar lançou ontem um novo vídeo para material de DAMN., o seu mais recente álbum, sério candidato a encimar a lista de melhores trabalhos do ano. O tratamento visual dado a “ELEMENT.”, que conta com assinatura de Jonas Lindstroem e dos Little Homies (alter ego do próprio K.Dot em parceria com Dave Free), sucede a outras extraordinárias peças vídeo criadas para “HUMBLE.” e “DNA.” e é mais um argumento que nos ajuda a pensar que a urgência de DAMN. teve, afinal de contas, muito ponderação na sua base. É altura de todos aceitarmos que Kung Fu Kenny só sabe desferir golpes certeiros, que nenhum dos seus gestos é executado sem planeamento conceptual prévio. Kendrick está a falar ao mundo: a sua obra é o seu discurso.

 



O trabalho do grande fotógrafo negro americano Gordon Parks – que foi igualmente escritor, músico e realizador tendo nessa qualidade assinado o clássico Shaft em 1971 – é a grande inspiração do vídeo de “ELEMENT.” que dessa forma se assume como uma reflexão da condição negra contemporânea, procurando igualmente um lugar no devir artístico afro-americano dos últimos 50 anos. As referências culturais profundas do trabalho de Parks, que procurou, no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial e que desembocou no Movimento dos Direitos Civis, fixar a alma negra americana em poderosos documentos visuais que combinavam a frieza jornalística com uma dimensão emocional e humana bem mais próxima da arte, funcionaram como moldes ou perspectivas para a tradução visual de um tema em que Kendrick relata a sua própria experiência pessoal – carregada de obstáculos e tumultos – quase como uma metáfora para a própria experiência negra americana numa sociedade carregada de violência.

 


kenny-parks-2


kenny-parks-3


As redes sociais nos dias que correm têm sido palco de confrontos ideológicos frequentes e intensos e tudo serve para se assumirem posições ou para se demarcarem atitudes. Muito recentemente senti-me impelido a intervir num post em que alguém conhecido manifestava indignação e incompreensão pelo uso da palavra “bitch” por parte de Kendrick Lamar (isto a propósito do tema “HUMBLE.”). E este é apenas um exemplo. Tentei explicar – aparentemente sem sucesso – que nesse caso em concreto a palavra nem deveria ser lida num contexto de género, que tanto se poderia aplicar a homens como a mulheres, mas tentei sobretudo argumentar o quão escusada será a imposição de um ponto de vista europeu, branco, de classe média, feminino a uma manifestação artística muito particular vinda da América negra, educada nas mais desfavorecidas condições, num contexto geográfico de extrema violência.

Hoje mesmo aprendi uma nova palavra num artigo do New York Times sobre a expulsão de duas mulheres de uma manifestação lésbica em Chicago por ousarem erguer uma bandeira com as cores do arco-íris na qual se podia ver igualmente uma Estrela de David que afirmava a sua identidade judaica: pelos vistos, a noção de “interseccionalidade” – teoria criada pela activista Kimberlé Williams Crenshaw que procura descrever a sobreposição de diferentes eixos de identidade: género, raça, classe, religião, identidade sexual, etc, que funcionam não de uma forma exclusiva, mas como “fenómenos de construção recíproca” – não admite a formação de identidades complexas em que se possa ser simultaneamente “vítima” (ou seja lésbica, neste caso) e “carrasco” (ou “judaica”, no caso descrito no já referido artigo).

Esta noção de interseccionalidade parece igualmente alimentar muito do fervor anti-Kendrick, que também seria expulso de uma marcha a favor, por exemplo, da igualdade de direitos por não lhe reconhecerem a ambivalência de poder ser – ao mesmo tempo – negro e “opressor de mulheres”, embora, muito claramente, não seja esse o caso. Mas a verdade é que tanto a Estrela de David como o uso da palavra “bitch” podem gerar equívocos por parte de quem pensa que o mundo e as pessoas que nele vivem se podem arrumar de forma muito clara e organizada em caixinhas construídas a partir de um pensamento maniqueísta que não admite zonas cinzentas: se não estás comigo, só podes estar contra mim.

Ora, o que Kendrick propõe ao adoptar o olhar clássico de Gordon Parks – que procurou entender a América negra através de um conjunto de imagens registadas, precisamente, numa era de profundas convulsões e transformações – é precisamente uma nova perspectiva, mais negra, mais americana, mais do bairro, menos branca, portanto, menos europeia, menos classe média.

O vídeo começa com uma mão que se ergue de uma massa de águas tranquilas – um rio baptismal? – e depois apresenta uma sucessão de quadros de elevado impacto visual: uma barraca que arde perante o olhar atento de uma série de jovens; imagens de inocência de crianças debaixo de chuva ou a segurarem insectos presos por fios; violência masculina não justificada no bairro, com hordas que perseguem vítimas; um pai que ensina o filho a lutar; o próprio Kendrick a esmurrar um homem já tombado; nazis brancos na cadeia; polícias brancos na rua…

Kendrick pode estar apenas a rimar sobre a luta constante para se manter no topo da forma num jogo que não perdoa. E de facto, não há muitas carreiras assim, em permanente sentido ascendente comercial e criativo como tem sido a sua – de Section 80 para good kid, de To Pimp a Butterfly para DAMN. – sempre a olhar para cima sem ver praticamente ninguém. Mas a verdade é que a sua luta interna ecoa também a luta da sua cultura numa sociedade que não facilita e que parece contente no perpetuar de todos estes estereótipos que o vídeo retrata: a perda de inocência, sacrificada no altar da necessidade de sobrevivência, quando as crianças são impedidas logo em pequenas de apreciarem as coisas simples do mundo porque têm que aprender a lutar num contexto em que só o mais forte está apto a seguir em frente, em que a opressão se manifesta nas ruas ou atrás das grades, em que a cor de pele é na verdade uma prisão inescapável, uma sentença de vida.

Não é a recusarmo-nos a ouvir Kendrick Lamar que tornamos o mundo melhor. É a tentar compreendê-lo e a aceitar que o seu ponto de vista sobre o mundo é necessariamente diferente do nosso. Não há só uma maneira de nos salvarmos…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu