Karlon: “Os bairros precisam de arte!”

[ENTREVISTA] Alexandra Oliveira Matos [VÍDEO] Luís Almeida [FOTOS] Hélder White

 

Pontes. Poderá ser esta a palavra que resume a conversa com Karlon. O rapper que tem rimado quase sempre em crioulo e que em Passaporti, o último trabalho lançado, nos confirma um bilhete de ida ao fundo das suas raízes cabo-verdianas.

Esta foi a primeira ponte da entrevista. Uma ponte aérea que liga há vários séculos Portugal e Cabo-Verde.

Porém, conversámos com Karlon também sobre o bairro onde cresceu, a importância do hip hop na sua vida e a mensagem que tem para deixar. A cidade invisível de que falava António Brito Guterres no TEDx Talks também foi tema, não tivesse Karlon participado no projecto URB. O músico estreou-se como actor numa curta-metragem de João Salaviza e já tem bilhete de ida para o Festival de Berlim.

Estas são as pontes entre bairros, as pontes entre culturas, as pontes também entre as periferias e os centros das cidades, as pontes que podem ser feitas através da arte.

 


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Este é o teu quarto trabalho a solo. O que é que significa para ti este álbum?

Passaporti… vejo a imagem dos meus pais em Cabo Verde. Significa muito para mim porque fiz uma pesquisa, cresci no meio da comunidade cabo-verdiana do bairro da Pedreira dos Húngaros e desde aí que ouvia zouk, funaná, coladeira, morna, essas coisas todas, mesmo músicas de Angola e do Brasil. Daí querer fazer um apanhado sobre tudo o que me envolvia sobre Cabo Verde e pesquisar um pouco mais sobre o historial de Cabo Verde e trazer isso cá para fora. Falei com os “cotas”, estive com um gravador a perguntar um pouco sobre o que é “po di terra” que é raiz. Tudo o que vem de Cabo Verde, certas palavras que eu sabia, mas que preferi perguntar aos “cotas” para ter a certeza daquilo que estava a falar. E também no fundo este álbum para mim pode ser uma ponte para a juventude que não conhece as raízes de cabo verde começarem a entrar no movimento e perceberem a cultura de Cabo Verde. Há muita malta que nasceu cá, como o meu caso, sou de 1979, e não conhecem a cultura dos pais na comunidade cabo-verdiana. Porque estão mais ligados a outras tendências musicais ou não, não sou obrigados a perceber a cultura, mas convém perceber aquilo que estamos aqui a fazer no mundo. E é um pouco esse o conceito que eu trouxe com o Passaporti, bora lá tentar perceber um pouco sobre a nossa cultura, sobre as nossas raízes e dar um pouco se continuidade para que não se perca o que há de bom e que os nossos pais trouxeram. Desde a educação ao respeito. Antigamente os nossos pais e os vizinhos davam-se todos bem e é impressionante como hoje vês tanta violência entre os jovens cabo-verdianos. Não só cabo-verdianos, mas entre os jovens de qualquer outra comunidade. E é trazer um pouco esse espírito dos anos 60, 70, 80.

Qual foi o feedback da família e das pessoas mais próximas com quem fizeste essa pesquisa?

O meu pai era o primeiro a dizer assim, em 1991 quando eu já fazia as minhas músicas e o meu primeiro palco foi na preparatória de Miraflores, “larga essa vida filho. Fazer hip hop, tu estás doido?”. Hoje já passaram 25 anos ou não sei, nem quero fazer contas, e o meu pai diz “epá, grande trabalho”. E eu perguntei “gostas mesmo?”. O meu pai adorou, ouviu e disse “filho, sim senhora”. Eu roubei-lhe os arquivos de fotografia. Ele não sabia, nem a minha mãe porque não se mexe nessas coisas. Eu tirei a fotografia deles e quando ele viu a foto disse “isto está um espetáculo. Onde é que foste arranjar estas coisas?” e eu respondi “são vossas…”. O mais engraçado é o meu pai a dizer “olha, tenho aqui já agora o cartão do sindicato de trabalhador”. Já agora Charlie (Beats), vamos ter de fazer outra ronda. Veio com outros arquivos do avô, da avó, outras coisas mais antigas. Foi o melhor feedback. Ver os meus pais que realmente acreditam e perceberem que estou a fazer algo de que realmente. Agora respeitam.  Eu vivo disto. O hip hop deu-me uma casa, deu-me filho, deu-me família, deu-me amigos e eu hoje estou a viver disto. O meu pai agora já vê de outra maneira e respeita, até já quer contribuir com a história dele para que eu possa contar a história dele se for preciso.

E do resto do público, qual foi o feedback?

A malta tem estado a gostar. Nas mensagens que eu recebo dizem-me “sim senhor, grande cena”. Dia 10 de Fevereiro vou estar no Musicbox a apresentar o álbum. Mas eu não absorvo muito do feedback. Gostam do meu trabalho, dão-me os parabéns. Ainda assim, para mim é mais um trabalho. Claro que é bom que a malta esteja a gostar, fico contente. Acho que não estavam à espera da pesquisa que eu fiz, de falar sobre o retrato de Cabo Verde. Não estavam à espera. Tive um convite, até me arrepiei há uns dias, do espaço B.leza. “Gostávamos que viesses cá”. B.leza? É um espaço que eu via desde puto os meus pais a irem lá. É altamente, tenho estado a ter um grande feedback do público.

Em Meskalina já falavas em ir embora, em voltar para a terra onde não nasceste, mas onde estão as tuas origens. Este Passaporti é o confirmar de um bilhete de ida?

Meskalina é um cansaço da Europa. Descarreguei tudo. Desde o Vaticano onde a malta reza e onde depois está a fazer o mal. E está tudo mal, seja que religião for. É só guerra. Política também é guerra. Indústria farmacêutica rouba para dar remédio, não há cura. Hip hop ficou violência. Droga. Tudo, retratei tudo no Meskalina. Eu não sou obrigado a ficar aqui, estou por uma causa pessoal que sinto e conheço os truques aqui em Portugal para o fazer. Este ano vou a Cabo Verde para fazer uns videoclipes sobre o Passaporti e conhecer os pontos históricos que mencionei no álbum. O primeiro vídeo vai sair agora que é o “Mamá Tchiga Portugal”. Foi filmado ali nas hortas ao pé da Lage (Oeiras) onde fiz o filme com o (João) Salaviza.

 


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Sentes que este regresso às origens é definitivamente o que queres fazer na música ou tudo o que fizeste até aqui te completa?

Completavam-me. Agora se me dizes que o quarto é o melhor trabalho… Cada momento que vivemos é uma experiência e eu vivo consoante o tempo das pesquisas que eu faço. Ando no passado, estou sempre a pesquisar coisas para trás. Mas estou aqui no presente e a projectar o futuro. É um pouco assim, é esta a técnica que eu tenho, é assim o meu pensamento. Mesmo no Meskalina falo do Egipto logo no início, cenas do porquê estarmos na terra, numerologia e essas cenas. Eu sempre fui o melhor aluno a matemática, a físico-química e a ciências naturais quando estudava e trago coisas dessa matéria da escola para o Meskalina, que é um álbum um pouco de ciência e do sonho também, do termos disciplina quando estamos a fazer algo. Eu estou sempre em cima de chamadas, e-mails para gerir o meu trabalho, para não falhar com ninguém. É um pouco isso, Meskalina é muita disciplina. Agora, o melhor trabalho nem é Passaporti, o melhor trabalho vem sempre depois. Aguardem que eu e o Razat já temos um álbum pronto.

A primeira música, de homenagem a Cesária Évora, teve de ser retirada do álbum devido a direitos de autor. Isso magoou-te?

Magoou. Deixou-me revoltado. Fez-me lembrar uma música do Sam The Kid, À procura da perfeita repetição. Enviei um email, porque entrei em contacto com a Gabriela Mendes, com a artista no facebook para me dar a autorização, deu-me o contacto do François Post e ele respondeu-me que esse tema não podia usar porque pertence à Sony BMG e que não se pode tocar. Havia a hipótese de mostrar à família, ainda tentei através da família da Cesária Évora que mora nos Navegadores, deram-me o contacto da representante da Cesária Évora em Portugal. Perdi-me ali. Mas eu não quero ver isso como um negócio para me projectar. Eu continuo a trabalhar sozinho, com a malta que acredita. Eu não paro de trabalhar só que é a tal coisa “ah, estás a usar uma obra de uma pessoa que morreu”. Não! Eu tenho um imenso respeito pela Cesária Évora, oiço Cesária Évora desde criança, não é algo que agarrei à toa, nem a letra que escrevi foi à toa para esse tema. Não o usei. Pus um post de 24 horas. Tirei. Depois recriei com a Maria Tavares, com o Carlos Martins no Saxofone, o X-Acto no scratch, o Ary César nas guitarras a compor, o Bdjoy nas congas, o Chullage e o Valete. Até queria que mais MCs entrassem nesse tema, espero um dia vir a misturar, mas às vezes é o timing de cada um. E o beat produzido pelo Charlie (Beats). É a tal burocracia que há numa indústria musical. E é uma indústria, não há como fugir. A mim pedem-me uma obra para entrar num filme, se é uma instituição de caridade claro que uma pessoa sempre cede, há coisas e coisas. Mas ali não era o caso de negócio, por mim podiam ficar com 100 por cento, até a minha letra, não me importava. Queria que isto saísse cá para fora. Não foi possível, mas é triste. Fiquei triste pela maneira como se processa. Há muitos artistas a remisturar boas coisas, porque ao mesmo tempo é bom dar a conhecer aos jovens que não ouvem a música de outros artistas e fazer uma ponte da morna ao hip hop, do rock ao hip hop, com a música clássica ou o que for. Mas pronto, não fiquei chateado. Cesária Évora eu ainda hoje canto. “Ó Zinha, bô ca rôba, bô ca mata”. Eu oiço e está sempre no meu coração. Não me chateio, é business, um gajo respeita.

Tiveste outros artistas a participar neste álbum. Qual foi o critério para a escolha?

O Chullage é sampadjudo. Há uma cena que é Sotavento e Barlavento em Cabo Verde, que divide o sampadjudo do badio. Uma vez que eu canto badio, o Chullage sampadjudo. Quando tinha o tema eu disse que a pessoa que tinha de chamar era o Chullage, não havia hipótese. Temos uma ligação já de há muitos anos na casa do DJ Sas. E o Valete por ser de São Tomé. “Quem mostra bo es caminho longe? Quem mostra bo es caminho longe? Es caminho pa São Tomé”. Foi essa a ideia, tentar fazer uma fusão. Porque ainda tinha mais artistas, queria também muito que o Beto Chelas participasse e espero ainda vir a misturar, entre outra malta.

O Charlie Beats produziu todo o álbum. Como foi trabalhar com ele?

Foi em 2014 e foi rápido, rápido. O Pedro Coquenao já me tinha mostrado uns temas do Ngongenha, o Marcelo D2, entre muitos outros artistas que misturavam música cultural dos seus países com hip hop. E na altura eu tinha feito o “Mamã Africana” para uma cena que saiu no Akwaaba. Depois estava com o Charlie a falar no facebook, “que tal fazermos esta ideia”, acho que na altura até foi ele quem tomou a iniciativa. E eu disse “é isso mesmo, bora”. De repente eu mandava-lhe um sample, ele mandava-me outro sample. Em coisa de meia hora o Charlie enviava-me o beat logo feito, fogo! Quem me conhece sabe como sou, eu escrevo logo a seguir. Este não foi o caso porque pesquisei, escrevi, depois reescrevi algumas coisas para acertar. Mas normalmente dão-me um beat e numa hora já está ali feito. Não foi o caso porque tive de ajustar alguma pesquisa e conhecimento para escrever, levou mais uma ou duas semanas. Entrámos em estúdio, no Back Yard e num dia gravei quatro temas, no outro mais três temas. Gravei um aqui (estúdio dos Blasted Mechanism onde foi gravada esta entrevista). Foram dois dias de processo para gravar. O Charlie é um génio, não há hipótese, toda a gente sabe disso.

 


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Qual é a música de que mais gostas em Passaporti?

Que pergunta, ai… Todas, todas em especial. Cada uma tem um sentimento. Este álbum para mim está mesmo… às vezes estou a ouvir o álbum e era só isto que eu queria. Dá aquela sensação de que já posso morrer em paz. Não quero morrer, mas é missão cumprida. Está tudo perfect. Mas, tenho de me chibar, se calhar o “Mamá Tchiga Portugal” com a Gabriela Mendes. É especial para mim. É a história de quando saíram de Cabo Verde e vieram para cá. Mas depois tens o “Sodade”, tens o “Fadiga Ku Kuzê”. Não dá, essa pergunta não dá.

Queres ir para Cabo Verde? Há pouco não concluíste bem.

Isso é certo. Eu nem que morra aqui, tenho que ter orçamento para me levarem de avião para me enterrarem lá. É certinho e direitinho, é quase certo. A minha mãe tem casa lá que construiu com a reforma, à beira da praia. Eu quero ter filhos, netos e estar sentadinho à beira-mar. Com peixinho frito. Não há hipótese. Eu já tenho a sorte de viver ali em Porto Salvo, saio à janela vejo aquele espaço verde, o mundo de Sintra. Chego a Lisboa e é só bip bip bip, telemóvel, tudo. Quanto mais rápido estás a andar mais devagar estás a ir.

Mas tens pessoas lá que te dizem que ainda querem vir para Portugal. O que é que dizes a essas pessoas?

Em 2003 ligaram-me de Cabo Verde para uma entrevista, na altura do “Podia ser Mi” dos Nigga Poison, e disseram-me assim “o que é que diz às pessoas de Cabo Verde para virem para Portugal ou para a Europa?”. Não venham! Lá cortaram-me a chamada porque eu disse assim: “não venham aqui para Portugal porque a malta vai iludir-se com grandes casas, grandes carros, jóias, perfumes a pensar que isto é um mar de rosas. Vocês lá têm mar, têm os porquinhos na hortinha, não precisam de mais nada, não se iludam”. Uns vêm aqui criar dívidas, outros vêm ser traficantes de droga, outros perdem-se no meio das influências. Não venham, fiquem lá. Um gajo já está aqui, conhece os truques. Não venham. Se vierem para passar umas férias, tudo bem. Lisboa é bonito e, para mim, Portugal é dos melhores países de todos os tempos. Conheço Lisboa melhor do que a minha zona de Oeiras onde vivo, confesso. Porque em 1997 fui para o Chapitô, trataram-me bem, tenho grandes amigos. Venham passar férias, vejam as montras, mas não se iludam e vão para lá.

De que forma é que a cultura hip hop te retirou a um futuro que podia ser certo como filho de imigrantes a viver no bairro?

Eu aprendi com os melhores, ainda hoje aprendo com os melhores. Não tenho medo de perguntar. Eu ainda vivo num bairro social, comprei uma casa, vivo lá. Espero um dia morrer na vivenda, isso é certinho e direitinho. Eu não penso pequeno. Acho que o que se passa com esta geração é que a malta se influencia na venda de droga, fumo de haxixe, coisas que vejo, roubos. Os miúdos estão certinhos a estudar, de repente quando crescem a mãe não tem como pagar as propinas, o miúdo tem de trabalhar. Se o dinheiro não chegar ou se tem influência do outro que vê com grande carro, quer ter o carro do outro e depois é um ciclo vicioso. Eu sinto-me com sorte, já fui bandido também, não vou mentir. E não fui por necessidade, mas por influência. Os meus pais, como o pai e mãe de muita gente, nunca tiveram necessidade de que vendêssemos droga, roubássemos ou fizéssemos alguma coisa de mal. Porque os nossos pais quando vieram de Cabo Verde trabalharam que se fartaram para não faltar nada, roupa nem comida nem nada. Não passámos fome! Não havia grandes roupas ou roupas de marca, mas ninguém passou fome porque a porta era aberta. “Ah, preciso de um quilo de arroz”. “Toma, toma, leva”. “Vizinho, amanhã sou eu, vou à tua, vens à minha”. Agora sim, as pessoas passam fome no bairro, nos prédios estão todos fechados, ninguém quer saber de nada. E estes putos estão a crescer formatados, só querem saber de televisão e videojogos, guerras, armas. Isso influencia. Eu brincava com pistolas, com guerras, comboios, índios, o que fosse. Mas é preciso dar conhecimento a esses putos de que isso é mau, é mau caminho. Para saberem filtrar mais tarde. Eu sou a primeira pessoa, se te vir aqui a tirar uma pistola eu em 30 segundos já estou a 40 quilómetros, eu desapareço. Não quero saber de violência, não quero saber de drogas, não quero saber de nada. É só disciplina, coisa bonita. Esta vida é de passagem, nós aqui temos de ser os melhores em tudo o que fazemos e diferentes para deixar história, a única coisa que fica é história. Enquanto esses putos se estão a preocupar com o futebol. É bom que te preocupes em jogar futebol para ser como os grandes, mas mal te metas na ganza fazem-te análises de sangue, doping, voltas para o bairro. Quando tens uma oportunidade de sair do bairro, agarra. Há putos que sei que estão ali e já começam a dar os primeiros passos para fora eu digo-lhes “n’ca crê odjau lí, não te quero ver aqui, sai, fica lá, orienta-te”. Eu tenho 37 anos, já vi tudo. Bairro é fixe, convives com muita gente, mas um gajo que já passou no bairro e tem a minha idade sabe que bairro é f*da e o objectivo é bazar dali. E o hip hop é que me salvou. Gajos como Puff Daddy que eu vi na altura lançar Notorious B.I.G., Craig Mack ou mesmo o Suge Knight, o Tupac ou essas editoras que começavam a lançar de forma independente. Eu pensava, grande cena, preocupam-se com a imagem, tinham marca de roupa. Hoje já tenho a minha marca de roupa. Eu via tudo, via fazer acontecer. Podem falar o que quiserem do Puff Daddy, mas a mim inspirou-me sempre, desde criança. Aquela disciplina, vídeos bonitos. Cada um à sua maneira. Mesmo Death Row e Bad Boy (Records) na altura. Entre outros, a Def Jam que lançou Public Enemy entre outros grupos. Tive uma back influence de todos e eu vi que eles tinham uma disciplina. Como é que eles estão sempre a gravar? Como é que eles fazem estes vídeos todos? Ocupavam tempo a fazer, não perdiam tempo a apanhar sol. É sempre a trabalhar. E no hip hop aprendi tudo e no Chapitô. Devo bastante a essa escola porque aprendi bastante em disciplinas como integração, história da arte, perceber um quadro, uma pintura, sonoplastia, luminotecnia, cenografia, sempre fui o melhor aluno a cenografia e hoje tenho oportunidade de se quiser escolher um cenário para fazer o meu vídeo, adereços, objectos de que preciso para ficar aqui ou ali. É juntar o útil ao agradável.

 


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São estas ideias que tentas transmitir na tua música? Sentes que te ouvem?

Ouvem, ouvem. Views não tenho muitas e não sei se tenho muitos ou poucos seguidores porque eu não ligo a números, não quero saber de nada disso. Eu só faço o meu trabalho, aquilo de que eu gosto. Mas as pessoas que chegam ao pé de mim e dizem “fogo, Karlon, grande cena, estou a sentir-te”. Vêm com respeito. “Os putos deviam ouvir-te”. Eu digo que se ouvem ou não, não sei, mas está aqui a mensagem. É como ir à escola e o professor está a dar-te aulas e tu não queres tomas atenção. O professor já está a receber o ordenado, tu é que tens de aprender quando está o professor a dar aulas para tirar o partido máximo do professor. Quem está a aprender se não tira proveito da escola acaba na street perdido. É um pouco por aí.

Cantares em crioulo faz com que muita gente não oiça a tua mensagem?

Não, não é por aí. Falo-te até de Nigga Poison. Na altura nós rompemos a barreira, até que a indústria (musical) portuguesa veio a reconhecer que o crioulo e a língua portuguesa têm uma grande mistura. E a língua é relativa. Por exemplo o “Gangnam Style”, da língua ninguém percebe nada, mas a criatividade, o conceito do vídeo e o modo como trataram aquilo ficou viral e mais uma vez prova que a língua é relativa. O que interessa é a criatividade. Eu oiço música de outros sítios e digo que não estou a perceber, mas estou a perceber porque há uma frequência, uma energia quando estás a olhar e estás a transmitir com a tua boca. Sentes que te está a emitir uma energia, que está a querer dizer qualquer coisa e tu automaticamente pesquisas. As pessoas quando querem saber sobre alguma coisa conseguem e uma coisa em que tenho insistido é em fazer as legendas no YouTube. Faço em casa para chegar a essas pessoas. Eu canto em crioulo porque me sinto confortável. Também canto em português, mas sinto que não é a mesma coisa. Não sinto que a língua vá ser uma barreira. E, outra coisa, a nova geração também tem milhões de views, milhares de seguidores, fizeram o trabalho de casa e estão a expandir o crioulo. O crioulo hoje é uma língua universal, a Cesária Évora levou o crioulo para todos os cantos do mundo.

Foi nessa ideia que o realizador João Salaviza foi pegar?

O João Salaviza é um brother meu. Ele pegou porque eu estava a contar-lhe essa história. É sobre um jovem que está cansado da cidade porque tem um bocadinho de paranóia. É inspirado também na minha mixtape Paranóia. Ou seja, todos aqueles mitos que nós temos no interior que quando estamos em estado de psicose é visto como não real para o mundo, mas é visto como real para ti. Há coisas que vivemos que ninguém vai perceber, mas tu tens a tua própria resposta. Porque o mundo é desenhado para que tudo seja um mais um igual a dois. E eu posso querer que um mais um seja quatro. O problema é teu. Nós criámos logo uma ligação. Quero agradecer desde já à URB, o António Brito Guterres fez um excelente trabalho e continua a fazê-lo, a fazer pontes nos bairros, mesmo com a malta de Cascais e da Jamaica. Fizeram um filme que vai estar na Gulbenkian (Cidades). Esse filme é um pouco a paranóia. É falar sobre os medos e o cansaço de viver na cidade, de muita paranóia. Mas é melhor verem e tirarem as vossas conclusões porque eu ainda estou principiante como actor. O argumento é meu e do Salaviza, mas o Salaviza é que moldou aquilo tudo. Eu estou perdido no meio do mato, não quero saber da cidade, não me lembro de ninguém. Não quero saber de carros, não quero saber de telemóvel, só quero saber ali do mato, mato, mais nada.

Acreditas que ainda existe a Cidade Invisível de que António Brito Guterres fala no TEDx Talks?

Essa cidade invisível é grande, os bairros são grandes. É engraçada essa pergunta porque me faz lembrar: porque é que não dão notícias dos bairros quando um jovem lançou um vídeo, um artista? O António Brito Guterres tem feito um grande trabalho de fazer pontes de um bairro para o outro. Como toda a gente sabe há bairros rivais, problemas de que eu não sei nem me interessa. Mas o António Brito Guterres é bem-vindo em qualquer bairro porque ele quando entra diverte-nos, faz pontes com realizadores ou com músicos. A arte! É disto de que a cidade invisível precisa mais, da arte. E o António Brito Guterres é o primeiro que tem o meu voto se se candidatar para ministro da cultura ou o que for porque ele faz a ponte entre todos os jovens contra a violência e faz com que se preocupem mais com a arte e saber da história. Preocupa-se connosco, é um irmão mais velho para nós. Eu sou fã dele e do trabalho que ele faz. A ponte que ele fez entre mim e o Salaviza agradeço-lhe eternamente. Ninguém sabe do bairro mais do que ele, isso garanto eu.

 


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