Kapataz: “Vivo exclusivamente da minha música”

[TEXTO] Rui Correia [FOTOS] Fausto Mendes Ferreira

Kapataz, nascido e criado na rua das Fontaínhas, no mítico bairro da Sé, – local com vista privilegiada sobre o rio Douro, espreitando Vila Nova de Gaia por entre as majestosas e metálicas pontes de D. Maria Pia e de D. Luís -, afastou-se de onde sempre vivera, há cerca de 4 anos, para outro bairro mais distante da cidade do Porto.

Estivemos à conversa com o portuense de gema no Parque Oriental do Lagarteiro, junto ao bairro com esse mesmo nome, onde actualmente vive. O intuito foi perceber todo o seu trajecto musical com foco no seu mais recente disco Alpha ESPELHO Omega, editado este ano – o rapper conta mais dois álbuns na sua bagagem, Nada a Temer (2007) e O Mundo Vai Acabar Por Evoluir (2012).

Prestes a ser pai, o rapper revelou um olhar intenso de quem já batalhou muito para se manter de pé, ultrapassando as adversidades e más influências constantes da vida fácil que lhe poderiam ter roubado o sonho da música. Revelou também uma memória de elefante para reviver acontecimentos da sua vida, que se misturam com histórias estimulantes e caricatas sobre a sua presença a tempo inteiro na cultura hip hop. De pensamentos avessos ao que lhe mostram e à realidade que nos é instaurada a todos, – tanto pela televisão, pela Internet, etc. (já tudo o que nos contam é fake?) -, Kapataz vive exclusivamente da sua música, o que lhe dá uma liberdade única, mas que se revela uma luta estafante pela sobrevivência numa sociedade consumista. Um caso raro de subsistência na música.

 


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Como se iniciou o teu contacto com a cultura hip hop?

Isto começou por volta de 2003, através de um colega de escola, alguém que já conhecia e despertou esse interesse em mim. Ele já tinha um projecto com algumas rimas, mas não tinha letras concretas, então foi isso que me levou a ter interesse pela cultura.

Em várias das tuas letras és crítico da “pose” de algumas pessoas no meio do hip hop. Desde que estás no movimento, e nesse sentido, o que julgas que se tem alterado na cultura?

Eu acho que isto não tem evoluído da melhor forma e não me considerando o gajo ideal, acho que a postura de alguns não coincide com a cultura. Quem faz o verdadeiro digging, sabe perfeitamente que o rap veio da Jamaica para os EUA e isto tem a haver com sociedade, a ajudar as pessoas para que elas saibam como resolver certos e determinados problemas que lhes vão aparecendo na vida. Agora, acho que a posição de alguns rappers é um pouco à base da palhaçada. Podiam ter uma posição um pouco mais tranquila e querem dizer aquilo que na realidade não é relevante. Por exemplo, gajos que têm 20 e tal anos de cultura e em maiores níveis de notoriedade, virem com temas que não fazem sentido nenhum para a idade que eles têm nesta cultura, eu acho que eles deviam era tentar abraçar o maior número de projectos possíveis de bons MCs e ajudar – apoiar, promover, partilhar -, porque é essa a base do ser humano, partilhar algo uns com os outros, não rechaçarmos as pessoas e afastá-las.

Há falta de união no meio?

Certo. Não deveriam fechar o circuito. Deveriam apoiar mais, conversar mais, promoverem mais outros projectos em vez de estarem constantemente a promoverem a cena deles. No fundo, o que muitos [rappers] fazem é promover um produto.

És um artista independente e foi em 2007 que começaste a editar discos dessa forma, com o álbum de estreia Nada a Temer. Essa independência sempre foi uma escolha tua?

Sim. Vou-te ser sincero. Já desde a altura que estava conectado a outro meio musical [antes do hip hop], eu organizava as minhas festas, tratava da publicidade, etc. Mas no passado, se algum dia tivesse que assinar por uma editora, essa editora, sem sombra de dúvida, que iria ser a Matarroa. Que é pessoal a quem eu tenho ligação, tanto assim é que no primeiro álbum participa o Bezegol e foi o Martinêz [ambos membros do extinto grupo de rap Matozoo] que tratou da distribuição do disco. Nessa altura, o Martinêz fez-me esse favor e correu bem. Consegui vender os CDs todos na Fnac.

Houve, entretanto, uma reedição do primeiro álbum?

Sim. Em 2009 com uma capa redesenhada em amarelo em que foram feitas mais 400 cópias, entretanto vendidas e já foi feita outra reedição. As vendas estimo que vão em cerca de 1500/1600 cópias vendidas ao todo desse disco, tendo sido feitas 1000 cópias na primeira edição. Foram praticamente todos vendidos à mão, só cerca de 150 a 170 cópias é que foram postas à venda nas lojas Fnac. Quero ainda salientar que houve uma ou duas crews na altura que me quiseram também ajudar, uma delas os Governo Sombra [crew a que pertence, por exemplo, o rapper Kron Silva], que me compraram 50 álbuns para colocarem à venda no site Baimaloja.

Sei da tua capacidade de te mobilizares na promoção feita “porta-a-porta” ou chegares às pessoas directamente na rua. Valorizas tanto isso como a comunicação feita actualmente a partir da Internet?

Eu continuo, de facto, a insistir com a rua. Acho que a publicidade mais forte é essa: boca-a-boca, olhares as pessoas olhos nos olhos, falares com elas. É totalmente diferente. Na Internet também dá e é possível fazer chegar [a publicidade] a outros países: França, Suíça, Alemanha EUA, etc. Embora hoje em dia na rua encontres também cada vez mais um meio multi-cultural que permite isso. Mas eu vendo os meus discos praticamente a portugueses.

Focando-me na promoção de rua e para criar contexto: há uma entrevista recente feita ao Tricky Stewart para a FADER, A&R que apostou no Frank Ocean para fazer parte da editora Def Jam. Ainda antes dele ser conhecido, esse representante do artista, gravava centenas de cópias de CDs em casa com música [do Frank Ocean], para andar a distribuir gratuitamente na rua. Prova de que em qualquer patamar em que estejas, esse trabalho é fundamental.

No porta-a-porta, se as operadoras de telecomunicações conseguem na base da mentira atingir quantias extraordinárias, eu penso que consigo também fazê-lo, mas, ao contrário deles, vendendo algo que é real. Dando um exemplo, os M.O.P., que são uns rappers lendários com muitos anos já no activo, continuam a vender nas estações de metro. Isto é algo que muitas pessoas não têm noção. Algo que as pessoas devem saber é que são os europeus e os sul-americanos que contribuem para cerca de 70% das receitas de artistas [norte-]americanos. É por essa razão que agora vêm cá a Portugal actuar artistas lendários como DJ Premier, Pete Rock, Alchemist, Mobb Deep, entre outros, e que se calhar já não batem tanto, neste momento, nos Estados Unidos.

Voltando-me de novo para os teus inícios e explorando a força de rua: como é que se formou e qual é a importância da crew Kapangas?

A crew surgiu através de mim, do Bandido e outro rapaz, o Fernandes, que agora está fora do país. Como nós éramos rappers mais na base da punchline e como éramos pessoas que andávamos sempre praticamente na rua, à noite, até altas horas e como tínhamos muita gente atrás de nós e viemos da freguesia da Sé… surge dentro desse contexto. Kapangas. O mote é “estamos aqui, falamos o que tivermos a falar cara a cara. Se não gostas põe na beira do prato, se não vais levar carga”.

A crew é um grupo de pessoas volátil ou seja, vão entrando e saindo pessoas associadas a ti?

Inicialmente éramos os 3 que eu já mencionei. Entretanto cada um seguiu o seu caminho e eu decidi levar isto para a frente. Foram entrando novos elementos para o grupo em que soube que podia depositar confiança, que é o caso do Jota que é de Bonjóia, do DJ Kid Flames que é de Gondomar, do MTR [Mitra] que é da Fonte da Moura e é primo do Fuse dos Dealema e o Trick-Pa que é de Vila D’este. É o núcleo que representa actualmente a crew Kapangas.

O Tribuno (produtor) sempre trabalhou contigo desde o início. Qual a importância dele?

O Tribuno e o DJ SPOT foram os dois pilares no início da minha carreira, quando comecei a fazer as minhas festas de rap. Não consigo fazer distinções entre eles. Volta e meia, era também o D-One que me dava o scratch, que fazia parte de pessoal que parava com o Tribuno e o SPOT [em 2005 e 2006].

 


 

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Quais eram os locais em que se reuniam?

No “Bronx” que era ali entre o edifício das Águas do Porto e o liceu Alexandre Herculano. Parávamos aí à noite, púnhamos tipo uns instrumentais do Armand van Helden com um carro aberto e “dropávamos” as nossas primeiras cenas assim. Foram os primeiros contactos com pessoal do movimento hip hop.

Voltando ao Tribuno…

Temos vidas diferentes, ele trabalha fora da música também, enquanto eu vivo exclusivamente da minha música. Sempre foi importante no meu projecto. A pessoa que sempre me ajudou e que me formou, sendo meu produtor e fazendo-me ver coisas que eu não conseguia atingir. O Tribuno tem mais anos no movimento e passou-me o seu conhecimento, essencial para criar o meu conceito. Quero que ele esteja envolvido em todos os meus projectos, embora neste último disco, ele só tenha contribuído com um instrumental no tema “Brumal, o Treze”. Mas ainda ontem [à data da entrevista] recebi dois instrumentais dele e ele está sempre a trabalhar. Ainda recordando a altura em que o Tribuno editou o álbum dele pela Matarroa [Oratória Incontornável editado em 2007], eu também fazia os concertos dele nessa altura. Dava-lhe os backs, eu e o Ervilha, do departamento 25 (às vezes eu, outras vezes ele). E também já partilhamos um par de datas: no Porto (data também com o Martinêz e o Bezegol) e em Coimbra (com o Nerve, o Blasph e o Pródigo).

Continuando a falar sobre outras relações musicais: vejo o estúdio da Fábrica de Som associado a ti também desde o teu primeiro disco, tanto com o contributo do Nuno Maciel como do Daniel Carvalho (os fundadores da Fábrica de Som) na gravação, mistura e masterização dos teus projetos até então. Como se deu esse contacto?

A primeira vez que eu gravei foi um tema chamado “Separatismos” [em finais de 2005] em casa do Tribuno. Fiquei mesmo empolgado, mas ao mesmo tempo muito nervoso, porque era a primeira vez que estava a gravar assim para o microfone. Por incrível que pareça, já que contava com cerca de 30 actuações! Cantar ao vivo não é o mesmo que estar fechado num quarto a levar com um beat na cabeça, ou seja, ouvir o som nos fones e estar concentrado ali perto do microfone para fazer a cena. Nunca tinha tido esta experiência de estúdio.

Na mesma altura que conheci o Tribuno, também conheci o Logos [membro actualmente do Conjunto Corona] e o Neural, ambos membros de um grupo de rap chamado Raiz Urbana, e conheci o Dragon [artista de beatbox]. Eles [Raiz Urbana] é que me direccionaram para o estúdio Fast Forward, na rua Formosa, que era do [Nuno] Maciel.

Foi onde os Raiz Urbana gravaram o primeiro álbum [Renasce o Underground (2006)].

Exactamente. Eu já estava à bica com as letras todas e eles sempre a apoiarem-me, em algumas actuações que fizemos juntos – no Art.Arena, no Porto Rio, no Valentino’s, etc. – e, entretanto, eu fui ter com o Maciel e ele disse-me para aguardar um pouco porque iriam mudar de instalações [para a Fábrica de Som] e que a partir daí, eles poderiam então gravar o meu primeiro álbum. Foi aí que tudo começou isto em início de 2006. Fui parar à Fábrica de Som e durante dois meses, Julho e Agosto, gravei o álbum todo. O Maciel é também um pilar fundamental do meu projecto, se não fosse o Maciel também a acreditar eu acho que não chegaria onde cheguei. O Daniel [Carvalho] conheci-o lá na Fábrica, acho-o diferente do Maciel, mas são ambos bons. O Maciel gravou os meus dois primeiros álbuns e o Daniel gravou o meu terceiro.

Focando-me agora no teu álbum mais recente, editado no início deste ano, Alpha Espelho Omega: é evidente a participação de vários nomes reconhecidos do rap portuense – Keso, Logos, Minus e Virtus. Como sucedeu essa conexão?

Antes de mais, no meu primeiro álbum, para compreenderes, participaram o Tribuno, o Fuse, o Bezegol e o Maze; no segundo álbum participaram o DJ Idem, o Halloween e o Mundo; neste terceiro tenho o Keso, o Rijo, o Virtus, o Minus, o Logos e o El Sayed.

A conexão com os participantes neste disco, surgiu acima de tudo por considerá-los especiais e por nutrirem respeito por mim. O Minus já conhecia por intermédio do Edgar [Logos], do projecto que eles tinham juntos [Ollgoody’s], o Virtus conheci-o na festa de apresentação do último disco do Keso [KSX2016], tendo em conta que cada um de nós tinha uma participação nesse disco. E o Keso, pelo voto de credibilidade que me deu neste novo álbum e claro, no caso dele, já o conheço há muitos anos. Desde as festas do Art.Arena em que ele ainda era o Ks Xaval.

 



Portanto, o Keso lançou como Ks Xaval o primeiro álbum Raios Te Partam em 2003…

Eu conheço-o desde 2004. Da dica do “postas de pescada” [improviso] e também da cultura graffiti. O Keso é um king dentro desse contexto e muita gente não sabe. Daí o tema “Pintor de Interiores”, que explica essa vertente dele.

Tu também tens ligação ao graffiti?

Tenho, por intermédio dos ALQ.

É algo que continuas a praticar?

Sim, mas agora mais na base do tagging.

O núcleo forte [dos ALQ] era composto pelo Six, o Send, o Arde, o Kesh, o Onym, o Tomam, entre outros.

Quando começaste a fazer rap, coincidiu com o graffiti?

Sim. Também tinha ligação aos breakers Momentum Crew, por causa do Logos de Raiz Urbana. Praticamente, tinha uma crew coesa [de hip hop]: graffiti, DJing, b-boying e MCing. As quatro vertentes. Ainda no beatboxing, tínhamos o Dragon.

O Dragon é uma daquelas pessoas que quase ninguém conhece, já emigrou também há muitos anos…

Não conhece esta juventude de agora.

Sim.

Aqui no Porto, sem sombra de dúvida foi o expoente máximo [do Beatboxing] e até se calhar de Portugal, porque lembro-me de ter havido umas battles contra alguns beatboxers de Lisboa e eles nem sequer água bebiam [período de 2006].

Falavas também há pouco no El Sayed como um dos participantes neste último disco. Queres falar sobre ele? É um nome conhecido por participar na Liga Knock Out…

Sim, embora eu já o conhecesse antes disso. De ver vídeos na net dele a falar sobre problemas sociais…e também como é óbvio, ele trouxe um brilho à Liga Knock Out. Para mim, sem sombra de dúvida, é o rapper mais forte a pisar as batalhas. Não desfazendo, claro, outros rappers que por lá apareceram, que também têm dicas de se lhe tirar o chapéu.

Como se deu o contacto com ele?

Foi através de partilhas [na net]. Começamos a falar um com o outro. Ele prontificou-se a vir aqui ao Porto, se fosse para fazer um som. O que veio a acontecer. Esteve cá, foi bem-recebido e já veio, entretanto mais três ou quatro vezes cá ter comigo, inclusive com duas actuações. É uma pessoa da minha inteira confiança, tanto assim é que dia 16 de Setembro [no Titanic Sur Mer] vamos estar em Lisboa com a presença dele, mais uma vez a puxar o El Sayed para que o pessoal reconheça a enorme potencialidade que ele tem.

Ainda relativamente a outras participações…

O Logos, participa no tema “Um Guna Como Tu”, acontece pela nossa amizade, mas também pela luta incansável que tem tido de há 15 anos para cá com diversos projectos, crews e grupos. O estilo dele fala por ele. Vê-se também nos concertos que ele tem dado com [o Conjunto] Corona, que é de caixão à cova mesmo. A última vez que tivemos, eu e tu, no Plano B, até tive que fazer alguma força para que o público não viesse para cima de duas pessoas de certa idade, porque o público fica de tal maneira efusivo que não se consegue controlar. O Rijo, acontece por amizade, por ser alguém em quem eu também deposito muita confiança e que cresceu a ouvir a minha música e é da minha escola, sem dúvida.

Tens participações a nível internacional também.

Tenho duas participações norte-americanas muito fortes: um está filiado à Duck Down Records, que é o Shae Money, produtor que tem beats que foram “mortos” pelo Sean Price, falecido entretanto. Um rapper lendário. Mas há outros rappers de renome que rimaram também em grandes instrumentais do Shae Money, como o Planet Asia, que eu nem me queria acreditar, quando ele me mostrou isso, um jovem de 23 anos, a trabalhar já com rappers de elite. Imagina que nos EUA existem 40 ou 50 mil produtores, e ele conseguir chegar a este patamar, dá que pensar…tem trabalhos também com produtores de grande valor, um deles é o Black Milk. [O Shae Money] é realmente bom.

 


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Como é que conseguiste ter o Shae Money a produzir no teu álbum?

Sei que ele tirou um curso de corte de pedra (mármore, xisto, etc.) e veio cá a Portugal [em trabalho], aliás a Vila Verde nos arredores de Braga e conheceu um rapaz que se chama Nélson Nóbrega. O Nélson ouvia os meus sons e sons de outros rappers e os dois em conversa acabaram com o Shae a perguntar-lhe a opinião sobre rappers portugueses com quem poderia falar para trabalhar naquele instante e o Nélson indicou o meu nome. Entretanto o Shae Money enviou-me mensagem e daí é o que tu vês. Resultou em quatro ou cinco instrumentais neste terceiro álbum. Quando gravamos em estúdio, ele esteve sempre presente, excepto nos temas do Logos e do Minus. Ele esteve cá na cidade, fomos divertir-nos e conviver para ficar a conhecê-lo melhor. É uma pessoa cinco estrelas.

Através dele conheci um rapper americano, do Texas, que se chama Chuuwee e agora reside em Sacramento, Califórnia. O DJ Premier, que é do Texas também, falou no Chuuwee como um rapper fenómeno. Como não podia deixar de ser, o Chuuwee faz participação num tema do meu álbum com instrumental do Shae Money.

No meu segundo álbum comecei a largar alguns temas no YouTube e houve aí alguns rappers que tinham conhecimento de outros povos a nível europeu – Itália e França – e até a nível mundial – Venezuela, República Dominicana, Chile e Equador. Entretanto eu surgi numa entrevista com dois rappers fenómenos, um deles italiano e o outro venezuelano; o italiano que é o Youss Yakuza, pertence à crew Rap Pirata também do Inoki Ness, um rapper muito conhecido pelo tema “Bologna by Night”. O Youss participa também neste meu novo álbum; o rapper Venezuelano chama-se Canserbero, infelizmente já não está entre nós. Fui falando com o Canserbero, desde que aconteceu essa tal entrevista, para ele fazer uma participação neste novo álbum. Ele prontificou-se a isso, sentiu a minha cena. Entretanto, houve uma tragédia na vida dele, mas não quero falar nisso. Prefiro recordá-lo pela maravilha dos temas e o precioso legado que ele deixou. Aconselho a pesquisarem sobre o trabalho dele… [demonstra] a finalidade do rapper em ajudar, para que as pessoas estejam mais despertas do que se passa em seu redor. A participação do Canserbero não aconteceu, mas tive a sorte de conhecer um rapper [Mafuul Flay] da República Dominicana que pertencia à crew dele [Above The 90’s] e que tem parceria com um grande produtor e também MC, Sheng El Tracktor. São pessoas muito importantes da República Dominicana.

Neste caso, a Internet beneficiou estes contactos.

É verdade!

No caso do Shae Money foi curioso ele ter chegado até ti. Mas em geral, costumas ser tu a procurar por produtores e instrumentais?

Sim e acontece de eles também surgirem e enviarem mensagem a dizerem que sentiram a minha cena. Eu não curto estar a dizer as coisas assim, mas eu nunca paguei por um instrumental. Basicamente, acontece sempre porque o pessoal sente amor pelas minhas dicas e pela devoção que tenho em prol disto [o hip hop], então oferecem-me.

Disseste-me off the record que tens colaborado com o Kilu e que tens neste momento 3 instrumentais dele. Fiquei interessado em saber mais, porque considero-o um dos melhores produtores nacionais e com um dos álbuns essenciais do rap em Portugal [Um Outro Lado da Versão (2002)].

Já não me recordo se fui eu a adicioná-lo ou ele a mim pelo Facebook. Mas recordo-me de uma vez ter recebido uma mensagem [do Kilu] a dizer “Então? Está-se bem? Estou em Tenerife a trabalhar, vou viajar de volta para Portugal e gostava de ir aí ao Porto para te conhecer, para ver o que és capaz de fazer”. E eu prontifiquei-me, tipo “Passa aí, és bem-recebido”. E assim aconteceu. Inicialmente era para ter ficado dois dias e acabou por ficar cerca de oito a dez dias pelo Porto. Houve uma conexão muito grande entre nós. Identifico-me bastante com o Kilu, acho que ele é uma peça fundamental no meio do rap português. É um grande beatmaker, um grande MC e é alguém que continuo a ouvir muito. Vejo-o como uma referência e tenho a certeza absoluta que grandes ícones do rap português também o vêem como tal.

 



Para finalizar, relativamente a relações que mantens no meio do rap nacional, é inevitável falar no Halloween. “Não há rap do Norte/Não há rap do Sul/Há rap de rua” [letra do Halloween no tema “Fiz e Refaço” no segundo álbum do Kapataz]. Quero imaginar que seja por aí que surge a vossa ligação.

Vou-te explicar, isto surge por intermédio do graffiti. Em tempos fui a Lisboa, ao Musicbox, como eu fazia parte da crew ALQ, nós tínhamos parceria com uns graffiters de lá, para ser mais preciso da Ameixoeira. O pessoal da minha crew deu o toque ao pessoal de Lisboa, dizendo que eu lá ia e eles quiseram estar comigo. Havia um rapper, há muitos anos (muitos anos mesmo!), chamado Metadona. Foi ele que me falou do Halloween e me disse que se calhar faria sentido trabalharmos juntos. E, se queres te que seja sincero, quando ouvi pela primeira vez o Halloween, fiquei muito contente pela originalidade dele e pela capacidade de pensamento dele. Tem uma inteligência acima da média. As cenas foram surgindo, fomos falando, ele prontificou-se para fazer essa participação no meu segundo álbum, pá, digo-te, é sem dúvida uma das melhores participações que já tive. Fico-lhe agradecido também por ele me ter convidado para participar no álbum dele, no Híbrido [tema bónus “O Último Mundo”].

Já tivemos uma série de conversas mais filosóficas, por assim dizer e lembro-me que utilizei uma citação tua “O Universo não existe e a Terra é plana” que saiu de uma conversa nossa em backstage e que serviu de título na minha primeira reportagem para o Rimas e Batidas, aquando da data que juntou Keso e Nerve em palco [no espaço TOCA, em Braga]…

…lembro-me e fiquei contente também pelo trecho que escreveste sobre mim…

…“um verdadeiro hype man” é o que tu foste.

Sim, seja para o Keso, o Nerve, ou outro rapper qualquer, só quero que eles compreendam que estou lá para dar vida, só quero é que a cena deles fique ainda mais forte e que o público guarde essa memória e saia de lá com boas indicações do concerto.

 


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A lembrança sobre essa conversa em específico, faz-me passar ao teu título que é sugestivo nesse contexto [filosófico e/ou espiritual] Alpha Espelho Omega. Qual é o significado?

Sou cristão e, como sempre me ensinaram, nós fomos feitos à semelhança de Deus ou seja, somos um espelho do verdadeiro criador e como existe também o equilíbrio dentro de nós. O alpha significa o “Tudo” e o omega significa o “Nada”. [A pessoa] está dentro desse contexto: o “Tudo” ou o “Nada”.

“Tudo” ou “Nada” como que dizer entre o “Bem” e o “Mal”?

Sim. Já agora, foi o Gonçalo Lobo que fez o design todo do álbum e desenhou-o com uma proporção áurea. Rectângulo de ouro. A maior parte do pessoal que seja de Design vai entender o que estou a dizer. Se não, é só uma questão de pesquisarem. O Homem Vitruviano, que é um desenho do Leonardo da Vinci, também possui a tal proporção áurea. E isso também está presente num vídeo meu do “Crash Le Flow”.

Reparei num detalhe interessante do teu flow no tema “Manobras no Outono” [participação no álbum KSX2016 do Keso], que não sei se foi a primeira vez registado em gravação, que é aquela forma de tu rimares com cuts propositados na voz. Como surgiu essa tua ideia?

Isso aconteceu no meu segundo álbum. Quando estava a construir o meu terceiro e enquanto ouvia músicas do segundo, fez-se luz. “Se calhar, se fizesse isto mais vezes, vai caracterizar e diversificar mais a minha forma de rimar e as pessoas vão-se sentir mais interessadas”, pensei eu. É uma tentativa de trazer algo novo para mim. No meu primeiro álbum, eu rimava de uma forma estonteante (muito rápido); no segundo álbum, apareci de uma forma mais “regular” a rimar; e neste terceiro apareci com esses tais cuts que tu dizes. E, agora, até ando a testar essa técnica não no início, mas no fim das rimas. Num projecto novo, tento sempre fazer algo que ainda não foi feito da minha parte.

Numa pergunta mais generalizada, mas de igual interesse: quais têm sido as tuas influências a nível musical no momento de criar?

O que me tem acompanhado desde sempre têm sido rappers norte-americanos. Dos mais antigos, o falecido Prodigy dos Mobb Deep, mesmo em termos de personalidade e pelos pensamentos negros, é alguém com quem me identifico muito. Planet Asia também gosto muito e o Rasco que também já colaborou muitas vezes com ele. O Nas, o Cormega, poderia dar outros nomes. Rapper recente que me cativou imenso, pela sua diferença, é o Tyler, The Creator.  E, mesmo a nível de instrumentais, há muitos produtores [norte-americanos] que gosto de ouvir. O Exile, serve de exemplo, é um grande beatmaker. Também o Pete Rock, o 9th Wonder, o Apollo Brown, Alchemist, etc…

Escreveres música, sentes que é uma necessidade para ti? Uma forma de libertação?

Sim, acaba por ser. Para poder exprimir as minhas opiniões. O que me motiva mesmo a fazer isto são as formas de pensar, os rappers, a mensagem geral, o estilo e a instrumentalização.

Antes de acabar esta entrevista, quero desejar-te os parabéns, pessoalmente, porque sei que vais ser pai.

Obrigado. [risos]

Ainda pode ser cedo, porque aguardas pelo teu rebento, mas julgas que essa mudança e essa responsabilidade acrescida na tua vida te irá afectar a mensagem que passas no rap?

Não. Vou continuar a ser a mesma pessoa, só que com um peso diferente, porque há um novo elemento na família. Um dia mais tarde, quando [o meu filho] atingir a maturidade dele, irá com certeza ter orgulho nos pais.

Queres acrescentar algo?

Gostava de dizer que quem fez o meu primeiro vídeo promocional deste novo álbum foi o André Ruben da ArosArt e foi quem tratou também do design do meu segundo [álbum]. Quem fez o meu segundo vídeo e o mais recente [“Sarda Belha” com Virtus] foi o Pibx da Filmes Moço. E estamos aí já a preparar um terceiro vídeo. É surpresa.

 


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