Kamaal Williams: O regresso do “Apanha-Loops

[TEXTO] Rui Correia [FOTO] Direitos Reservados

Kamaal Williams, a.k.a. Henry Wu, está de volta. E como tudo tem que fazer sentido no universo do prodigioso músico, The Return é o título do seu primeiro álbum como líder de banda.

2016 foi o ano que viu nascer uma das obras essenciais da vibrante nova cena jazz londrina: Black Focus, o disco criado por dois músicos de coração aberto, Yussef Dayes e o supramencionado Kamaal, apadrinhado por um dos mais activos promotores musicais da actualidade, Gilles Peterson, através da sua editora Brownswood Recordings e produzido por Malcolm Catto,  co-fundador da excêntrica e psicadélica banda The Heliocentrics. Black Focus — que foi apresentado ao vivo no festival Milhões de Festa de 2017, com Yussef e sem Kamaal — é um trabalho de paixão, de elevação cósmica pela via do jazz, do funk e do broken beat. Um trabalho que almejou a intersecção do underground com o reconhecimento mundial. Mas foquemo-nos em Kamaal. Ou é Henry Wu? Permitam-nos voltar ao início.

Kamaal (nome islâmico que adoptou há sete anos) Williams é um teclista e produtor nascido em Peckham, zona sul de Londres. Criado com um background de influências disparadas pelas rádios pirata da cidade cinzenta, o hip hop, o grime ou o garage foram — além do jazz, sempre omnipresente na sua carreira — o tipo de música que começou a tocar na bateria durante a adolescência, tendo assumido, mais tarde, os teclados como o seu motor criativo.

 



Actualmente, o músico divide-se entre as “personalidades” Kamaal Williams e Henry Wu (nome que acolheu em memória das raízes tailandesas da sua mãe), que usa para aliar tanto os dotes criativos, como os de DJ e promotor. Assinando como Henry Wu, e atirando-se também às ambiências da electrónica, foi capaz de sobressair como um jovem pro-activo: lançou num curtíssimo espaço de tempo vários EPs por algumas das mais respeitadas editoras underground como a MCDE, Eglo, Rhythm Section e 22a; criou a editora Black Focus Records, pela qual edita agora The Return.

Foi também como Henry Wu que se apresentou pela primeira vez em Portugal no ano passado, um evento ao ar livre chamado Festival Matéria, que decorreu no BASE, Porto. “Henry Wu presents: Kamaal Williams Ensemble (live)” podíamos ler no cartaz do evento. Uma clara vontade de conjugar os dois “moods” para se sentir representado na totalidade? Seja como Kamaal Williams ou Henry Wu, a constante que os une tem sido a colaboração com outros artistas, indo à busca de novas coordenadas sonoras. Exemplos não faltam: veja-se o vídeo produzido nos estúdios da Red Bull em que Kamaal Williams partilha a sala com o duo inglês Children of Zeus ou o vídeo de um freestyle com a performance suada de Mez a bater nos 10 minutos de incansáveis rimas a alta cilindrada grime, só vencidas pelos movimentos do ilustre MckNasty, baterista e amigo de longa data que tem acompanhado Kamaal em praticamente todas as suas aventuras.

 



No fim, todas as pontas soltas que existam nestas explorações colaborativas são soldadas pela capacidade agregadora do jazz, que, de tempos a tempos, permite a novas individualidades como Kamaal agarrarem na actualidade e oferecerem ao público a sua realidade duma forma que a possamos interpretar musicalmente como uma verdadeira reflexão dos tempos que vivemos. É essa a receita para que nomes contemporâneos como BadBadNotGood ou Kamasi Washington estejam a correr o mundo em 2018 com “actualizações” do jazz. Agora basta-nos aguardar que Kamaal Williams forme uma tríade nessa volta ao globo, carregando os grooves de bolso para todos os locais possíveis e imaginários. Peçam a sua presença a todos os promotores do vosso país (segundo a página do seu Bandcamp, com boa comida estão no caminho certo) e tentem apanhar-lhe o loop.

Nada melhor do que entrarem na sua jornada existencialista, guiada por intrincadas improvisações, ouvindo o novo disco, The Return, que já se encontra em pré-escuta no site NPR e sai oficialmente amanhã, 25 de Maio.

 


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