José Filipe Rebelo Pinto: “O hip hop é o novo rock’n’roll”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

José Filipe Rebelo Pinto. Com quatro nomes assina aquele que é um dos maiores responsáveis pelo momento efervescente de cultura que Lisboa atravessa. Natural da cidade, foi em 2004 que apostou no Cais do Sodré — na altura, subaproveitado — e inseriu a música negra no Jamaica, numa altura em que a maioria dos espaços se focava no electro.

Daí surgiram as noites no Texas Bar, o espaço que hoje se chama Musicbox, e as festas after hours no Europa. José Filipe Rebelo Pinto chegou à Lx Factory com o Faktory Club e, entretanto, arrancou com o Out Jazz, o festival de todos os fins de semanas de verão, grátis e em jardins. É o responsável pela empresa de produção de eventos NCS e é sócio dos espaços Topo.

Dez anos depois, e com uma intervenção de cariz social no Martim Moniz pelo meio, nasceu o OUT FEST, em Cascais — uma zona onde José Filipe Rebelo Pinto aposta cada vez mais. O festival regressa para a segunda edição este sábado e domingo, 9 e 10 de Setembro, no Parque Marechal Carmona. Alguns dos nomes que actuam são Richard Dorfmeister, Dimitri Nakov, Tó Ricciardi, Nery, Ramboiage, Francesco Tristano e Vahagn & The Sky People. O Rimas e Batidas falou com o mentor do OUT FEST.

 


Para a segunda edição do festival, o objectivo foi consolidar o OUT FEST no mesmo formato?

Sim, a ideia foi continuar com dois dias de evento. E ter sempre uma banda, sem ficar só pelos DJs. O ano passado tocou o DJ Ride com banda e depois tivemos o projecto do Nel’Assassin, Niles Mavis, além dos DJs: desde Nicola Conti ao Daddy G, de Massive Attack. Este ano mantivemos a mesma linha. A ideia do Out Fest surge de um convite da câmara de Cascais, de preencher uma lacuna [que havia] com a saída do Cooljazz [para Oeiras]. Havia a falta de um evento mais jovem. E foi a pensar dessa forma que fizemos um investimento nosso, e hoje em dia temos um apoio da câmara de Cascais. A ideia foi pensada para estes dois dias, este jardim, mas poderá passar para mais tempo. Eventualmente pode ser uma semana de vários eventos picados em Cascais. A ideia é dinamizar [o concelho].

O Outjazz também acaba por fazer isso nos últimos tempos com as várias datas em Cascais.

Sim, também com base nessa relação. Estou a residir em Cascais já há 11 anos, desde que o meu primeiro filho nasceu. Considero-me lisboeta e na altura em que montei o Out Jazz estava em Lisboa. Acho que está estabelecido lá, e espero que se mantenha durante muitos anos. Faz parte dos domingos lisboetas e tem o seu espaço. Em relação à ida para Cascais foi um namoro antigo e uma vontade de trazer este evento ao sítio onde vivo porque também tem jardins incríveis. O Parque Marechal Carmona é apenas aquele primeiro centro, o núcleo do evento. Espero que ao longo dos anos esse núcleo central comece a ganhar as suas linhas à volta e a propagar-se a várias zonas de Cascais. Porque a ideia é fazer com que Cascais, na semana do OUT FEST, seja um concelho com vida, dinâmica, com concertos em vários clubes, bares, na praia. Vamos crescendo devagar, vamos para a segunda edição e a trabalhar nesse sentido.

A redução de datas do Out Jazz está relacionada com o aparecimento do OUT FEST?

Na realidade, são dois eventos relativamente separados. O OUT FEST nasce do Out Jazz, da celebração dos dez anos, com a ideia de ter um evento à porta fechada que nos permitisse ter receitas para contratar nomes que queremos trazer. Porque isto nasce tudo pela paixão pela música. Obviamente no Out Jazz não conseguimos trazer um Bonobo ou um Nils Frahm. Não temos sequer orçamento para isso. Com um evento destes, fazendo-no crescer, se calhar vamos buscar os nomes que queremos para os ver a actuar em Portugal. E acaba por ser um bocadinho a reentré, no final dos festivais todos, das férias. Aproveitar enquanto Cascais ainda está activa e temos uma Praia do Guincho e uma Praia Grande onde o público está em espírito de festa antes de as aulas começarem. Cascais vai ser a Capital Europeia da Juventude em 2018 e acho que o caminho é este: rejuvenescer e tentar que Cascais tenha força não apenas em dois espaços específicos, como o Tamariz e o Jézebel, mas que consiga ter mais pontos de atracção em termos musicais. E a seu tempo vejo um OUT FEST a acontecer em vários espaços.

E notas uma diferença grande entre as sessões do Out Jazz em Lisboa e Cascais?

Cascais ainda está a ser conquistada. Teve os seus tempos áureos há 20 anos atrás, em termos de noite. Entretanto acabou por morrer um bocadinho ou a concentrar-se mais num ou outro espaço. E Lisboa tem uma oferta incrível. De repente explodiu, o Cais do Sodré, onde tive a sorte de fazer parte… arranquei lá com a minha empresa em 2004, com vários espaços de noite. Depois, Lx Factory, agora Martim Moniz, e a caminho de Marvila para outro projecto também… e vi Lisboa a montar e a montar. Cascais, em vez de abrir, fechou. Espero que o OUT FEST possa contribuir, pelo menos nessa semana, para que Cascais tenha alguma dinâmica em termos musicais e esta festividade que nós vemos. Tu vês outros sítios com esta onda toda de noite e festa, Cascais não tem isso. Onde está o espírito que vês em Ibiza? Devíamos tê-lo.

Como foi o percurso do Out Jazz ao longo destes anos?

Nós arrancamos em 2005, quando fazemos o festival Sudoeste, depois de quatro anos de tentativas de meter o Out Jazz de pé. Falei com o Luís Montez e o Álvaro Covões da Música no Coração e consegui levar o Out Jazz ao campismo. Levei uma tareia financeira, perdi não sei quantos dias de trabalho para levantar uma marca. Na altura, o pórtico do Out Jazz eram dois eucaliptos com uma lona, um palco rasteiro, um PA pequenino a gritar para duas mil pessoas no campismo. E foi engraçado porque se montou uma marca, registou-se no ano seguinte, por sorte ou merecimento de quem anda a tentar lutar por um projecto, conseguimos financiar, e lançamos o Out Jazz no formato original de cinco meses, cinco jardins. Na altura, os jardins da cidade de Lisboa estavam completamente ao abandono. As pessoas não utilizavam os jardins da cidade. E como eu estava a fazer crescer esta empresa de audiovisuais — a NCS —, fazia-me sentido também distribuir trabalho ao longo do ano. 15 mil pessoas no primeiro, 20 mil no segundo, terceiro ano e há um corte repentino no marketing da Lactogal que nos faz apostar a 100% no evento. Apoio dos músicos na totalidade, sem cachês. Conseguimos meter as mesmas 20 mil pessoas. Também foi um desprendimento de uma marca, e começam a aparecer novas no Out Jazz. Aparece-nos depois a Nívea, depois a MEO… passámos para as 40, 80 mil. Os domingos estavam realmente muito cheios e pensámos porque não começar a ganhar espaço? Depois também começaram a aparecer alguns eventos concorrentes, a tentar fazer um pouco o mesmo conceito.

Como dizes, Lisboa tem cada vez mais festivais de música, eventos e iniciativas culturais. Vês isso mais como concorrência ou, por outro lado, ficas feliz pela cultura na tua cidade, uma causa por que lutaste e lutas tanto?

Posso dizer que, há uns tempos, numa outra fase, via um pouco como concorrência. Com a maturidade, acho que Lisboa, e Portugal em si, têm muito a ganhar com a oferta. Quanto mais bons eventos aconteçam em Portugal, melhor é para todos. Obviamente que tens concorrência em termos de sponsoring

E de público.

E de público também, claro. Mas tens mais público. Há mais turismo em Portugal, mais público a vir viver para Lisboa. Começas a ganhar um hype tão grande em Lisboa porque tens mais bares, restaurantes, festivais… hoje em dia tens pessoal de Londres a vir viver para Lisboa como opção. Não passava pela cabeça antigamente… um gajo de Londres… tu queres é ir viver para Londres, ou para Berlim e Nova Iorque. Hoje em dia já se inverte um bocadinho a posição e Lisboa é um destino para viveres porque tens esta componente de cultura urbana entre a música, a street art, e tudo o resto.

Achas que este boom turístico, e todos sabemos dos malefícios associados, é um problema que tem de ser tratado? Como olhas para esta questão?

É interessante e bom que o turismo exista. Há espaços a serem recuperados, é a evolução natural da cidade em si. Tens uma cidade mais viva. Tens sítios como o Martim Moniz e o Intendente que há uns anos estavam completamente longe… e estão ali mesmo no centro. Viver nos Anjos?! No Intendente?! Hoje em dia é o contrário. E essa ideia de também poder mexer na cidade é interessante. Lembro-me de ver a baixa com não sei quantos mil prédios ao abandono, devolutos. Hoje vês franceses, chineses, que, sim, compram a cidade e a mudam. Obviamente há uma preocupação: de Lisboa deixar de ser dos lisboetas. Porque o mais interessante no meio disto é a nossa cultura, é isso que faz da nossa cidade ser uma cidade interessante. Acho que há um case-study muito importante para que podemos olhar, mesmo aqui ao lado, que é Barcelona. Se calhar está dez ou mais anos à frente em relação a nós. E percebemos que Barcelona se transformou por causa do turismo em excesso. Hoje em dia é um bocadinho o contrário: o contra-turismo. Não sou daqueles gajos contra o turismo, mas quero que se preserve aquilo que é a nossa identidade: as tascas, e enquanto puder ter roupa pendurada em Alfama e sardinhas na rua com um gajo a beber uma cerveja, isso para mim é Lisboa. No dia que isso se perder, acho que Lisboa perde a graça porque o que nos diferencia são as nossas características.

Tu que apostaste em zonas de Lisboa que não estavam a ser aproveitadas — deste o exemplo do Cais do Sodré, há quase 15 anos —, e depois do Martim Moniz, por exemplo, qual vai ser o próximo local da cidade a explodir, num bom sentido? Fala-se há vários anos da zona de Marvila. Vai acontecer o mesmo lá?

Sem dúvida. Acho que ainda não rebentou, mas está para breve. Estou na iminência de fechar lá um espaço também interessante. Obviamente que tenho muito trabalho pelo Martim Moniz ainda — não gosto de dar um passo numa direcção quando não tenho o outro sólido. No entanto, o Martim Moniz está numa boa fase, num bom trabalho de renegociação com a Câmara Municipal de Lisboa para uma intervenção na zona. É uma questão de tempo. Comecei no Cais do Sodré nas quintas-feiras do Jamaica, com um projecto de música negra chamado Chocolate Flavors, na altura em que se ouvia electro, e a música hip hop e o funk não existiam muito. Depois fiquei com o Texas, ex-Musicbox, e depois com o Europa, lancei os after hours. O Cais do Sodré começou a mexer, o [Alexandre] Cortez entretanto comprou o Texas. Mas só oito anos depois é que aparece a Pensão Amor e a Rua Cor-de-Rosa. Oito anos depois. Eu neste momento estou há cinco anos no Martim Moniz. Numa zona muito mais complexa e difícil do que o Cais do Sodré.

E bastante maior.

É maior… e tens um público à volta com pouco poder de compra, com toda a parte de drogas… a multiculturalidade tem uma riqueza toda que é interessante e o meu objectivo é juntar e dar as mãos àquela zona da cidade. Está um projecto bastante interessante a ser desenhado na zona para a praça. Acho que o Topo lhe deu um toque. A minha ideia, obviamente, é que haja outros empresários que possam olhar para o trabalho que está ali a ser feito e possam também investir. Os olhos agora estão postos no Cais do Sodré, mas também se esgota e aumenta o seu preço. O Martim Moniz ainda tem potencial. Marvila, em termos de edifícios e estrutura urbana, estamos a falar de espaços mais para galerias de arte, ateliês de arquitectura…

Agora tem uma grande zona de fábricas de cerveja artesanal.

Exactamente, tem três grandes. E tem bons restaurantes. Acho que precisa de uma intervenção com mais capital, que ainda não está feito, mas o interessante é que realmente está tudo meio por fazer. Obviamente que tens muita coisa a acontecer já. Mas acredito que agora, com o hub criativo, com mais alguns projectos que se estão a desenhar para lá que aquilo… se calhar não dou 5-10 anos, acho que em 5 anos é capaz de estar com um hype bastante grande.

Sei que pelo menos uma vez por ano costumas apelar a que projectos musicais novos e músicos a dar os primeiros passos enviem para ti os seus trabalhos, para que os conheças e possas definir a programação do Out Jazz e, agora, do OUT FEST. Costuma resultar bem?

Sem dúvida. Já trabalho neste mercado há 20 anos, e tenho os músicos que lançam novos projectos e com quem eu trabalho. Mas aparecem pessoas novas, e eu nem sempre tenho capacidade de andar de espaço em espaço a fazer pesquisa. O engraçado disso é que surge uma série de projectos novos, de pessoas que eu desconheço e que realmente têm projectos bastante interessantes, que acabam por participar no Out Jazz. Lembro-me de os HMB na altura em que ninguém os conhecia, há uns anos, me pedirem para tocar no Out Jazz. E realmente foi um concerto incrível no jardim da Estrela. Acaba por ser o palco de lançamento para grandes projectos musicais.

O Out Jazz já teve propostas para ser exportado enquanto formato para o estrangeiro [nomeadamente, para Madrid, em Espanha, e São Paulo, no Brasil]. O que faltou? Porque é que não chegou a acontecer?

A NCS é uma estrutura pequena, que até já teve uma estrutura bastante maior. Obviamente, o Out Jazz é uma marca com força, mesmo dentro de Portugal houve a possibilidade de ir para o Porto, onde faria sentido. O grande problema é que o Out Jazz tem um naming. E tendo um naming como um Somersby Outjazz, se eu tiver de ir para o Porto dobrar custos, ou uma das duas: ou a Câmara Municipal suporta financeiramente um evento destes, ou então é preciso a Somersby carregar mais em cima para o fazer. E eu arranjar um patrocinador que segure o Porto… eu não posso ter um MEO Out Jazz Lisboa e um NOS Out Jazz Porto. Por isso fico limitado em termos da capacidade das marcas estarem presentes. Em relação à parte internacional, sempre fiz as coisas que me apetece fazer. Obviamente que sei que se pudesse ter uma estrutura só para o Out Jazz, se calhar fazia sentido e podia construir um evento que pudesse fazer como o Brunch Electronik: começou no Canadá, depois foi para Barcelona, está em Lisboa e Madrid agora… há essa possibilidade de trabalhar com produtores locais e levar este evento [lá para fora]. Agora para isso é preciso estares 100% dedicado àquela marca. E eu na minha vida nunca me dediquei apenas a um projecto. Tenho a NCS que continua a fazer audiovisuais e produção de eventos. O Out Jazz é um dos nossos eventos próprios, como o OUT FEST, e há um objectivo de um novo evento musical que está a ser pensado. Se calhar para o ano ou daqui a dois, no máximo, vai entrar um novo evento em Lisboa, noutro registo musical. Porque eu não estou necessariamente ligado ao jazz ou à soul e ao funk. Eu gosto de música. E de todo tipo: gosto de rock, jazz, clássica, de tudo. Gosto de inovar e fazer o que ainda não foi feito. Ainda há aí algumas coisas por fazer. E é esse o meu desafio. É uma questão de paixão, e não faço isto por dinheiro. A paixão é o que me move e me faz fazer eventos desta natureza.

Apesar de gostares de vários géneros de música, apostaste na música negra há mais de dez anos e desde então tem crescido bastante em Portugal. Achas que também tem a ver com o vosso contributo enquanto marca?

Eu tive a sorte de viver em Nova Iorque com 18 anos, onde a cultura do hip hop e do jazz é muito forte. Está lá, faz parte. Não é só a música, é a cultura, o estilo de vida. E aquilo entrou-me, fácil. E a vontade de fazer algo diferente, numa linha musical mais leve do que o electro que se ouvia, com todas as casas no mesmo registo… quis fazer algo diferente. No Jamaica pegou logo. Hoje, 14 anos depois, o hip hop é o novo rock’n’roll. Cada vez mais. Das tais bandas que peço [para que mostrem o seu trabalho], se calhar 50% ou 60% são de hip hop. O Out Jazz, como nome, vem de outdoor e de out of jazz, ou seja, saímos da linha jazzística. O fio condutor e a base é o jazz, mas depois temos sempre uma banda mais funk, outra mais para o hip hop, outra de reggae… damos lugar a outros registos e cresceu muito. De certa forma, acho que o Out Jazz tirou o jazz do underground. Um Hot Club com aquela linha das mesmas 50 pessoas, e depois os festivais eram para um estilo de público muito específico e estava completamente fechado. O Out Jazz abriu esta ideia de o jazz ser uma coisa fechada, elitista, e acho que venceu. Acho que o Outjazz retirou aquele preconceito do jazz. Não vejo um evento em Portugal que tenha aquele ambiente e aquele tipo de público. Tens os cães, as bicicletas, os velhos, os putos, os blacks, os betos, tens toda a gente… não estou a querer categorizar porque eu sou livre em relação a tipos de sub-agrupamentos de pessoas, mas o facto é que o Out Jazz conseguiu juntar esta malta toda num só espaço. E nunca houve um problema. Está tudo na paz.

 



Ainda é possível comprar bilhetes para o Out Fest. A entrada diária custa 10€ e o passe para os dois dias 15€. Estão à venda através da Ticketline.

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha