Jon Hassell // Listening to Pictures (Pentimento Volume One)

[TEXTO] Vasco Completo 

Listening To Pictures – Pentimento Volume One é o mais recente trabalho de Jon Hassell, editado pela sua editora Ndeya Records. O primeiro trabalho em 9 anos é mais uma afirmação da estética do “Quarto Mundo” – ideia por si definida como “uma unificação entre sons primitivos e futurísticos, combinando recursos de estilos étnicos do mundo com técnicas de electrónica avançada” – e uma elevação da música minimal repetitiva electrónica, uma corrente na qual é precursor a par com La Monte Young, Terry Riley, Steve Reich ou Philip Glass.

Aos 81 anos, o trompetista e compositor mantém-se activo e sugere, pelo título deste trabalho, um pentimento: o reaparecimento de imagens ou formas numa pintura que foram usadas como elementos numa composição final. Há uma clara insistência na associação entre valências artísticas e sensações visuais e auditivas, desde o título à própria maneira como o criador quer que o álbum seja compreendido – já lá vamos. Mas vendo a definição do termo italiano pentimento faz-nos, a nós que falamos de música, remeter para o sampling de várias ideias passadas do artista, gravadas em estúdio. Assim, confluem as texturas pela electrónica numa junção de diferentes timbres e técnicas.

Não havendo espaço para grandes inovações no que seria já o trabalho de Hassell, a sua estética consegue, no entanto, dar lugar a novas ideias e não aborrecer quem já segue a sua carreira com mais de 40 anos e que se estende a colaborações com Brian Eno, Talking Heads, Peter Gabriel, entre outros. Talvez porque o “Quarto Mundo” é já suficientemente abrangente por si só. As possibilidades que temos no processamento de som pela síntese sonora são vastas e, nas mãos do compositor vanguardista, independentemente da sua idade, originam resultados incríveis como os que mostra “Dreaming”, faixa que abre o novo disco. A sua identidade sonora reside claramente na aplicação da estética por si criada da fusão entre elementos acústicos “étnicos” (veja-se, aplicando a visão de mercado e ocidental de música do mundo como toda a que não vem da Europa e da América do Norte) com a electrónica e o processamento de som por efeitos. Podemos notar a estética e a técnica referidas logo no arranque do álbum, com o som etéreo do seu trompete bem no centro da acção.

Este álbum é dedicado ao malogrado Mati Klarwein, artista que assinou várias capas para Hassell e que foi uma grande influência para o compositor. O nome da editora e da última faixa do disco, “Ndeya”, é um último adeus Klarwein, que viveu na vila Deià, em Maiorca.

Tal como indica a vanguarda da qual é pioneiro, a repetição e o minimalismo são objectivos centrais a reter no que toca o desenvolvimento estrutural das peças. Trabalhando com os samples que teria de gravações antigas e das gravações de estúdio mais recentes, criou peças que pretende que sejam entendidas numa escuta vertical. Num mundo em que a música é ouvida a pensar no seguimento narrativo da mesma, como um fluxo que é percorrido no tempo, Jon Hassell quer que Listening To Pictures seja percepcionado pelo que acontece no presente, no agora. Tal como num quadro, a apreciação da obra de Hassell depende sempre do que se está a viver na altura, criando, tímbrica e espectralmente, imagens mentais do que é compreendido auditivamente. Com o tempo, essas imagens e formas desenvolvem-se, levando-nos para um sítio imaginário que é só nosso. Talvez seja esse, afinal de contas, o quarto mundo…

 


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