Joey Bada$$ // All-Amerikkkan Bada$$

joey-badass-critica

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Há uma leitura que pode e deve ser feita nas entrelinhas das reacções aos novos álbuns de Joey Bada$$ e Kendrick Lamar: não é um estudo científico e fundamentado (isto é crítica musical, não ciência de foguetões…), mas o que é possível colher das primeiras impressões que se espalharam por murais de redes sociais, por conversas informais à porta de clubes, por declarações de interesses variadas de quem sabemos seguir ambas as carreiras, é que se sentiu um certo clamor de desapontamento generalizado em relação tanto a All-Amerikkan Bada$$ como a DAMN.. Mas se em relação ao trabalho de K-Dot, e generalizando, o que se depreende de tais reacções é que as pessoas esperavam que ele não tivesse mexido na fórmula musical que adoptou para To Pimp a Butterfly e Untitled Unmastered., o que se percebe dos reparos mais comuns feitos ao novo trabalho do ponta de lança da Pro Era é que as pessoas exigiam precisamente o contrário…

Quando surgiu no complexo tabuleiro de xadrez que é o hip hop contemporâneo, Badmon fez de 1999 (estreia digital lançada em 2012, quando contava apenas 17 anos) uma espécie de manifesto de resistência em relação às dramáticas mudanças que a cultura então testemunhava: uma nova arquitectura sonora conhecida por trap que parecia descartar o constante diálogo com o passado proporcionado pelo sampling da corrente boom bap, um rap que espelhava a vida no lado errado da lei, trazendo para o centro das rimas a mesma actividade criminosa que tinha marcado importantes séries televisivas como The Wire. Bada$$ era outra coisa: rimava em cima de tarolas e fragmentos de soul e jazz, rimava em circuito fechado tomando muitas vezes as suas próprias capacidades discursivas e estéticas como o centro das suas palavras. Com B4.DA.$$ (editado, já com dimensão física, em 2015) a fórmula aprimorou-se e Joey, tal como Kendrick, foi visto como um homem capaz de salvar o hip hop de si mesmo, um eco de uma era “real” num presente tomado de assalto por um exército apostado em “desvirtuar” as conquistas mais nobres de toda uma cultura.

 



Entretanto, tudo parece ter acontecido: guerra dentro e fora de portas de uma América cada vez mais no centro do mundo, brutalidade policial, um processo democrático conturbado que acabou com a eleição de um homem que, garante Bada$$ em “Land of the Free”, não está “devidamente equipado para tomar conta deste país”. “Sorry America, but I will not be your soldier / Obama just wasn’t enough, I just need more closure”, justifica ele. Em termos discursivos e poéticos, este parece ser o maior problema de Joey Bada$$ em All-Amerikkan Bada$$: a incapacidade de ir mais longe, de pontuar as suas rimas com ideias novas, com palavras que traduzam um pensamento mais fundo do que apenas “Can’t change the world unless we change ourselves”, como também diz em “Land of the Free”, ecoando o mais vazio dos discursos motivacionais que por aí abundam, em reality shows ou prateleiras de supermercado. A ideia prossegue em “Devastated” em que Joey reclama “I used to feel so devastated / At times I thought we’d never make it / But now we on our way to greatness / and all that ever took was patience”. Embora invertida e a procurar o resultado oposto, a ideia base do discurso de Badmon parece assentar em pressupostos tão simplistas como os que animam o discurso de Trump: ”America great again, right?”. Algo do género.

 



Mas tudo se agita em “Rockabye Baby”, talvez devido à presença de ScHoolboy Q: espécie de mapa para o lugar que ocupam nesta América de escombros, ambos os MCs olham para os seus próprios passados ligados ao tráfico e às dinâmicas de sobrevivência nos gangues. “If you are about this revolution please stand up”, urge Joe sobre um loop de piano sombrio, de recorte marcial e insistente, do género que em tempos poderia ter suportado o retrato de uma fábula urbana de sangue e crime debitada pelos Wu-Tang Clan:

And if you got the guts, scream, “Fuck Donald Trump”
We don’t give a fuck, never had one to give
Never will forget, probably never will forgive
Uh, I guess that’s just how it is
And they still won’t let the Black man live

E, depois, Q, mete mesmo o dedo na ferida:

From gettin’ lynched in field into ownin’ buildings
Getting millions, influencin’ white children
And oddly we still ain’t even
Still a small percentage of blacks that’s eating

 



Joey parece demasiado preocupado ao longo do álbum em ascender às expectativas que certamente acredita terem sido depositadas em cima dos seus ombros. O discurso pouco assertivo na maior parte dos temas, a incapacidade – ou falta de vontade – de ser mais mordaz, preferindo um discurso mais positivo do que crítico, acaba por fazer de All-Amerikkan Bada$$ uma oportunidade perdida: a capa e as imagens promocionais em torno da estilização da bandeira americana, a foto em que surge enforcado numa corda que tem ela mesmo as cores desta América complexa e brutal, apontavam para um álbum de ataque, em que Joey pudesse finalmente colocar as suas invulgares capacidades rimáticas ao serviço de ideias fracturantes, daquelas que importa agora veicular. Mas quase que se pressente que Badmon prefere jogar pelo seguro e dar um outro exemplo aos seus seguidores: ele diz que há uma saída e uma solução, embora não forneça propriamente as direcções para tal estado iluminado.

‘Cause I’m born runnin’ with the baton, a tickin’ time bomb
Nigga, better ring the alarm, uh
Resurrection of real, you niggas fake

Joey nasceu a correr à frente do bastão, accionou o alarme e ressuscitou como cabeça real, por oposição a todos os falsos ídolos tombados. Mas é um discurso demasiado genérico para oferecer factos palpáveis. “Call me the general”, sugere ele em “Super Predator”, por cima de nuvens jazzy desenhadas por Statik Selektah, “pushing that new agenda through”: que novo programa, exactamente? Não sabemos, mas ainda assim Joey dá-nos uma das suas observações mais políticas quando procura desmontar a designação ultra-negativa de “super predador” aplicada à juventude negra no arranque dos anos 90 (era do gangster rap…) pelo académico John Dilulio:

I mean, come on, but here’s for the Presidents, the Congressmen, the Senators
Who got us all slavin’ while they reapin’ all the benefits
Got the world thinkin’ that it’s true ’bout what they said of us
AmeriKKKa’s worst nightmare, the super predator

O tal sentimento de relativa desilusão que comecei por identificar talvez se fique a dever ao que seria provavelmente até uma injusta expectativa de que fosse um jovem de Brooklyn de apenas 22 anos a apontar o caminho futuro para esta América perdida. Mas a música representa aqui também um papel nessas reacções pouco entusiásticas: o álbum, que conta DJ Khalil, Kirk Knight ou Statik Selektah entre a equipa de produção, não arrisca um milímetro que seja, nunca se afastando do terreno bem familiar da tarola soluçante, do kick estruturante e dos samples com pianos e sopros resgatados sobretudo à memória jazz e soul. Nada de errado nisso, sobretudo porque os beats cozinhados a partir dessa tradicional fórmula, são todos sólidos. Mas este é terreno que Joey tem vindo a percorrer desde o início, posicionando-se do outro lado do espelho trap em que boa parte do hip hop aparece hoje reflectido. E talvez houvesse quem secretamente esperasse ouvir Bada$$ a rimar em cima de outro tipo de texturas, de outro tipo de cadências, não para ir ao encontro do zeitgeist, mas para mostrar que o risco artístico é uma estratégia só ao alcance dos mais corajosos estetas. Joey preferiu o conforto das palavras essencialmente positivas, do lastro político herdado de Obama, e do encaixe na longa tradição boom bap de Nova Iorque. Uma opção que pode ter um sabor ligeiramente amargo para quem esperava que o MC de Brooklyn fosse mais longe, mas que ainda assim rende um trabalho sólido que mantém a fasquia elevada e que faz do horizonte diante de si uma imensa tela em branco onde será ainda possível inscrever maravilhas. Badmon tem o estofo certo para isso, que não sobejem dúvidas. K-Dot seguiu outro caminho, mas sobre isso poderão ler aqui amanhã. De Joey importa saber algo crucial: o seu melhor ainda se esconde no futuro e isso é algo que nem todos os artistas poderão reclamar.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu