Jimmy P // Alcateia

jimmy p review

[TEXTO] Moisés Regalado

O título denuncia o objectivo com que Jimmy P quis abordar e apresentar este regresso a estúdio. Fazendo justiça ao nome da sua Family First, label que agora dirige com o apoio da NorteSul, uivou como quem chama e juntou a família mais próxima, aqui reunida em Alcateia. Assumiu-se como previsível macho alfa e, mais do que partilhar o microfone, fez-se rodear por um conjunto de produtores que não compromete nenhuma equipa.

Numa altura em que a definição de mixtape se encontra mais diluída que em qualquer outra era, Jimmy não abdicou de uma produção exclusiva e, numa segunda leitura, usou-se desse aspecto para lembrar que as definições de clã e união ultrapassam o espectro dos MCs, num formato parente só que distante daquele que moldou as Kara Davis de Regula. Não significa isso que as presenças de Loreta, Phoenix ou dos cada vez mais afamados Wet Bed Gang funcionem como meros featurings de ocasião, havendo a intenção de congregar amigos e parentes, mas a dica é clara: o contributo de Suaveyouknow, Prodlem e Agir foi tão essencial quanto o dos rappers que enriqueceram os instrumentais. Assim se explica o formato mixtape e assim se justifica o título.

Na prática, esquecendo o conceito e a suposta leveza de espírito que separa álbuns de mixtapes, não há como distinguir Alcateia dos discos com que Jimmy P tem preenchido o seu currículo. São nove faixas essencialmente focadas no ego e nas relações, dois tópicos incontornáveis que a espaços se entrelaçam — “nunca sonhaste que ias acabar com alguém como eu”, canta Jimmy em “Uma Só”. Há bangers de contornos mais tradicionais (“Um a Um”, “XL Cypher”) e piscadelas de olho às tendências pós-Drake, quer na romântica e cantarolada “Não Tens Noção”, produzida por Agir, quer na posse cut que dividiu com a mais conhecida crew de Vialonga, em que todos os intervenientes brilharam sem nunca perder a identidade.

 



A regularidade com que Jimmy P aborda os temas, independentemente da roupagem, é uma das suas características mais impressionantes. Não obstante a opinião dos que enaltecem o passado de Supremo G, nome artístico com que o rapper se apresentou há mais de dez anos e que alguns ainda associam a uma poética mais refinada, a caneta de Jimmy está mais afiada que em qualquer outro ponto do seu percurso e não é difícil perceber o motivo da afirmação. Há várias maneiras de analisar um artista, bem como a sua obra, e talvez a mais justa seja aquela que parte do ponto de vista e da intenção do próprio. Pelo menos no que diz respeito a Jimmy P.

Se é verdade que a sua escrita apresenta contornos cada vez menos rebuscados, é igualmente óbvio que os objectivos do MC passam exactamente por aí, sendo esse um factor essencial para que se continue a afirmar como um dos artistas mais transversais do mercado português. E porque não há como dissociar o que se escreve do que se diz, bem como da forma com que se eternizam os versos, convém realçar: o processo de (aparente?) simplificação a que Jimmy P se tem submetido acabou por moldar aquele que é um dos melhores flows do movimento português. Métrica, entrega, entoação e dicção irrepreensíveis.

Não há DJ de serviço, scratch entre beats ou nos refrões, muito menos música de terceiros, mas é uma mixtape… das boas. Arrumada a balança, percebe-se que Jimmy P, hoje mais do que nunca, tem tanto de rapper como de estratega. Músico e marketeer, não em medidas iguais, é certo, porém numa divisão que não envergonha nenhuma das percentagens. E que mal tem? Nenhum, contando que se continue a distinguir por ser “Kool como Kleva”.

 


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