Jay-Z x The New York Times: a entrevista do ano?

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [ARTWORK] Chantal Joffe

Dinheiro, poder, consistência, relevância e talento. Jay-Z é das poucas pessoas no mundo que consegue referir-se a esses cinco elementos enquanto marcas da sua própria identidade. Seja a escrever sobre Meek Mill e a facilidade em prender homens negros ou a rimar sobre a sua vida com o mínimo de filtro possível, Hov é, aos 48 anos, a voz ponderada de alguém que teve que ultrapassar as dificuldades e superar-se, partindo de um sítio difícil e violento.

Numa das entrevistas mais profundas do ano, Shawn Carter conversou com Dean Baquet, editor executivo do The New York Times, dissecando assuntos como o racismo ou as relações com a mãe, Beyoncé e Kanye West. 4:44, o seu mais recente trabalho, que é produzido na íntegra por No I.D., recolheu 8 nomeações para os GRAMMYs e relançou a discussão: Jay-Z é um dos melhores de sempre a rimar?

Apesar de recomendarmos o visionamento (ou a leitura) da entrevista na íntegra, o Rimas e Batidas divide os 35 minutos em três pontos de destaque:

 



[““I’m not black, I’m O.J.””]

Numa América racista e, de certa maneira, bipolar, uma espécie de amnésia colectiva, em que se empurra a cor para segundo plano, deixando a conta bancária em primeiro lugar, é a maneira de ignorar (ou tentar esquecer) a realidade que a população negra conquistou o seu lugar na pirâmide. Aquando da aparição de Beyoncé no Super Bowl, em 2016, um sketch intitulado “The Day Beyoncé Turned Black” apontava – de forma hilariante, diga-se de passagem – o dedo a essa mesma situação.

“The Story Of O.J.”, tema de 4:44, também é uma reflexão sobre raça e riqueza, partindo da história de O.J. Simpson, o famoso desportista que caiu em desgraça depois de enfrentar a acusação de assassinato da ex-mulher Nicole Brown Simpson e de Ron Goldman. Na entrevista com o New York Times, Jigga fala sobre a sua posição nesta conjuntura: “O objectivo não é ser bem-sucedido e famoso. Não é esse o objectivo. O objectivo é, se tiveres um dom específico dado por Deus, viver a tua vida através disso. Primeiro. Em segundo, nós temos a responsabilidade de puxar a conversa para o centro da questão até sermos todos iguais. Até sermos todos iguais neste sítio. Porque até que todos estejam livres, ninguém é livre, e isso é apenas um facto.”

 


[A música enquanto terapia musical]

“Nós estávamos a utilizar a nossa arte como uma sessão de terapia. E começámos a fazer música juntos”, revelou o MC de Brooklyn. Lemonade e 4:44 são dois álbuns carregados de referências à vida familiar e aos dramas conjugais de Beyoncé e Jay-Z. No entanto, o processo nunca foi separado: a dupla estava a criar um álbum em conjunto quando percebeu, naturalmente, que, antes de mais nada, cada um teria que mostrar ao mundo o seu testemunho individual.

O longa-duração colaborativo ainda não está posto de parte, e seria a chave de ouro para uma trilogia que ficaria imortalizada como um retrato sincero e complexo de duas das maiores estrelas da música contemporânea.

 


[A luta de egos com Kanye West]

A relação de Kanye West e Jay-Z começou há muitos anos – Watch The Throne foi o pináculo – , mas, actualmente, o “amor genuíno” tem dificuldades em sobressair perante os problemas. Com egos gigantes que necessitam de alimentação constante, a tensão entre os dois acabou por atingir níveis altos quando Yeezy começou a “disparar” para todos os lados num concerto em Sacramento no ano passado.

Sobre o assunto, Jay-Z explica: “O Kanye entrou neste negócio pela minha editora. Por isso, eu sempre fui como um irmão mais velho para ele. E nós somos entertainers. Sempre existiu uma pequena competição escondida com o teu irmão mais velho. E nós também amamos e respeitamos a arte do outro”.

 


Alexandre Ribeiro

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