Jay-Z // 4:44

444-critica

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Passou um mês (e qualquer coisa…), está na hora. Escrevi notícias sobre o lançamento deste álbum, falei com Tozé Brito e José Cid a propósito do sample do Quarteto 1111 usado por No I.D. em “Marcy Me”, procurei – a convite do Expresso – explicar as questões legais em torno do uso do referido sample, até me dei ao trabalho de procurar nos velhos mestres flamengos um paralelo para a enormidade de Jay-Z. Assino igualmente na mais recente Blitz uma curta observação crítica a 4:44, mas ainda não tinha mergulhado fundo no álbum. Está, como comecei por escrever, na hora.

Este novo trabalho de Jigga é notável sob diversos aspectos: em primeiro lugar por ter interrompido um silêncio de quatro anos que durava desde a edição de Magna Carta… Holy Grail; depois por se afirmar como o resultado de uma espécie de diálogo artístico com Beyoncé; mas também pela estratégia eleita para o seu lançamento – em exclusivo no Tidal para começar…; pela forma como tem sido promovido (Jay-Z ainda não deu uma entrevista de fundo sobre este álbum); pela abordagem à produção – Hova escolheu rimar sobre trabalho de No I.D. em exclusivo, abdicando de um milhão de outras possibilidades que poderiam garantir maior impacto e que certamente o seu estatuto permitiria facilmente alcançar. Forma, conteúdo, questões periféricas de edição e embalagem: em 4:44 tudo é significante.

 



A música pop faz-se de personagens construídas que, como muito bem nos revelou a história, nem sempre correspondem aos homens e mulheres que têm a responsabilidade de as representar nos palcos globais. Jay-Z é uma dessas personagens: o hustler do bairro social de Marcy, em Brooklyn, que atingiu o irmão a tiro quando tinha apenas 12 anos por este lhe ter roubado uma corrente de ouro, que vendeu crack para sobreviver e mais tarde, por mérito dos seus talentos como rapper, se tornou num milionário. A persona erguida nas letras e nos videoclipes, inspirada na iconografia e nas biografias da cultura gangster da América, foi, entretanto cedendo espaço a uma outra dimensão, talvez mais humana, ou até sobre-humana: o marido de uma das mais amadas estrelas pop do planeta é também homem de negócios com sérias responsabilidades em múltiplas vertentes do universo do entretenimento (basquetebol, edição e distribuição musical), da moda (criou a Rocawear, marca que foi vendida por mais de 200 milhões de dólares em 2007…), da hotelaria, das bebidas… Jay-Z até uma parceria com a mítica marca de charutos cubanos Cohiba estabeleceu.

Compreensivelmente, perante uma agenda tão carregada, a carreira musical abrandou o seu ritmo: entre 1996, ano da estreia com Reasonable Doubt, e 2003, quando lançou The Black Album, Jigga colocou 8 novos trabalhos de grande fôlego nos escaparates, à incrível velocidade de um novo título na discografia por ano. Depois de Kingdom Come de 2006 a intensidade baixou consideravelmente: nos últimos 10 anos, Jeezy lançou apenas quatro álbuns em nome próprio e ainda o projecto Watch The Throne juntamente com Kanye West. A verdade é que Jay-Z foi finalmente obrigado a olhar para a imagem no espelho e consequentemente obrigado a lidar com a verdadeira identidade de Shawn Corey Carter, homem de negócios, marido e pai de 47 anos, prestes a completar 48, que tem, certamente, bem mais do que 99 problemas em que pensar, sendo que um deles responde ao nome de Beyoncé.

 



É revelador que as primeiras palavras que se escutam em 4:44 sejam “Kill Jay-Z, they’ll never love you”. No passado, Jigga chegou a anunciar a sua reforma – em 2003, seguindo-se à edição de The Black Album – e embora seja duvidoso que o rapper alguma vez abandone a sua relação com o microfone, a verdade é que 4:44 tem qualquer coisa de elegia fúnebre da tal persona erguida à custa de rimas automitologizantes. Não me espantaria se um próximo álbum surgisse no mercado com Shawn Carter estampado na capa… Este é o primeiro disco em que Jay-Z não disfarça os pedaços de vida real que foi sempre insuflando nos seus versos com metáforas retiradas ao universo do cinema, com referências aos anti-heróis que a América do crime organizado foi consagrando, ou com fantasias inspiradas pelos relatos da vida nas ruas. 4:44 é um registo confessional, humano, patético até certa medida (no sentido “pathos” do termo). E isso é novo, senão no hip hop pelo menos em artistas desta dimensão.

A vida real nunca foi grande inspiração para a pop. Afinal de contas, a pop é para onde todos fugimos da vida real… “You don’t need an alibi Jay-Z”, rima, no entanto, ele na primeira faixa do álbum, “You know you owe the truth / To all the youth that felt in love with Jay-Z”. A verdade: essa é a grande novidade de 4:44. E verdades – pelo menos as verdades de Jay-Z – são a matéria mais abundante deste álbum: só em “Kill Jay-Z”, em que revela que “não se pode curar o que não se revela”, Jigga nomeia – directa ou indirectamente – o seu irmão e a sua filha Blue, o seu pai, a sua cunhada Solange e Kanye West, o executivo Lance Rivera, Eric Benet, o seu filho Shawn e, claro, a sua mulher, Beyoncé, expondo, a reboque de tanto “name dropping”, uma série de factos. E esse é o tom seguido no resto do álbum em que lida com questões fundas de abuso na sua família, com a homossexualidade da sua mãe, com as infidelidades cometidas perante Beyoncé…

 



Há também uma dimensão política em 4:44. A responsabilidade perante a verdade que Jay assume traduz-se igualmente na clarificação da sua posição perante a sociedade americana, mas sobretudo perante os seus pares. É disso que trata “The Story of O.J.”, sublime tema construído sobre sample de Nina Simone em que ela canta sobre o tom de pele e assim oferece a Jay a perspectiva para olhar para uma realidade em que nem os cifrões parecem permitir ultrapassar essa barreira biológica que se ergueu numa América incapaz de superar preconceitos. É que, enfim, não importa se se é um “light nigga” ou um “dark nigga”, um “rich nigga” ou um “poor nigga”, um “house nigga” ou um “field nigga” porque, garante o rapper, ao fim do dia ainda se é “still nigga, still nigga”.”Financial freedom my only hope”, remata, garantindo depois que o esforço aplicado na sua carreira gerou os dividendos desejados: “I turned my life into a nice first week release date”. O alcance da riqueza, parece argumentar Jay-Z, não é uma mera forma de superação pessoal e não permite uma simples ostentação, mas é antes a mais sólida garantia do futuro dos seus filhos e da sua família. Ser rico, parece dizer-nos, é em si mesmo uma forma de sobrevivência.

4:44 não é uma resposta a Lemonade ponto por ponto, embora seja óbvio que o rapper não deixou de ouvir atentamente o trabalho lançado em 2016 pela sua cara-metade: há até, no tema “Family Feud”, uma referência à mesma “Becky with the good hair” que tantas especulações alimentou quando inicialmente revelada por Beyoncé. É, isso sim, um trabalho provocado por Lemonade e pelo ângulo aí adoptado – o de uma chegada a uma vida adulta, séria, carregada de responsabilidades perante a família e os fãs, onde a verdade não pode ser sacrificada no altar da fantasia pop. Beyoncé abriu a porta e Jay-Z resolveu entrar neste novo mundo. E não há um tema em que essa nova forma de olhar para a criação musical não seja posta à prova.

 



Este é um grande álbum, enfim, porque No I.D. para isso contribuiu decisivamente. É óbvio que Jay há-de ter conversado longamente com o homem forte da Def Jam antes de se ter atirado à tarefa de gravar as rimas em estúdio: os samples escolhidos são complementos das ideias exploradas nas rimas, uma espécie de chave para cada um dos temas. O produtor de Chicago escolheu clássicos soul assinados por pilares indiscutíveis da cultura, de Nina Simone e Stevie Wonder a Hannah Williams e Donny Hathaway, mas também experimentou com o gospel das Clark Sisters, com um dos monumentos clássicos do dancehall assinado por Sister Nancy (“Bam Bam” tendo sido igualmente usado por Kanye West em The Life of Pablo ganha, à luz das farpas aqui lançadas a Ye, um novo significado…), com as solenes tonalidades progressivas do britânico Alan Parsons Project e, obviamente, com o Quarteto 1111 de “Todo o Mundo e Ninguém”. A esse propósito, escrevi para o Expresso Diário: “O tema “Marcy Me”, confessou Jay-Z à Hypebeast, trata dos sonhos dos artistas, da possibilidade de se tornarem GOATS, ou “greatest of all times”, e talvez isso tenha inspirado a busca por algo que carregasse um tom épico, o que é certamente uma das características da música dos Quarteto 1111. Afinal de contas escuta-se, no excerto usado, retirado logo do arranque da canção, a palavra “cavaleiro”. O álbum anterior de Jay-Z tinha o título Magna Carta… Holy Grail: de cavaleiros perceberá certamente este rapper nova iorquino, um verdadeiro nobre da causa das rimas”.

Para lá do bom gosto expresso na escolha dos samples, há que referir a absoluta classe do trabalho de No I.D., nada interessado em reinventar a roda, antes aplicado com toda a concentração em desenhar as bases ideais para o flow seguro e extremamente musical de Jay-Z. Neste momento de encontro com o mais fundo de si, Jay abdicou do zeitgeist, colocou de lado qualquer tentação de soar “contemporâneo” e preferiu o rigor boom bap de beats carregados de significantes pedaços de passado. Jay está, no fundo, a rimar sobre a sua própria memória, sobre o seu próprio DNA, sobre a sua própria vida já que, certamente, quando chega a casa depois de mais um dia no escritório, quando percebe que está sozinho com os seus Picassos na penthouse porque Beyoncé está algures na Europa para um concerto, com a filha já deitada, não há-de ser Drake ou Kanye, Future ou Kendrick que o homem põe a tocar na sua aparelhagem topo de gama, antes um qualquer clássico de Miss Simone ou de Stevie. A música certa também nos carrega de regresso a casa. E 4:44 foi, afinal de contas, a hora em que Jay-Z acordou para a vida que o espera daqui em diante. Ao olhar, com a ajuda de No I.D., para o passado, Jigga reinventou o seu presente e garantiu que o vamos ouvir quando o futuro mais longínquo chegar. Este é um disco que vai ficar para as próximas gerações. Este é o disco que Shawn Carter quer que os seus filhos ouçam daqui a 20 anos. Lá estaremos todos, espero…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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