Jay Rock // Redemption

[TEXTO] Moisés Regalado

A redenção de que Jay Rock fala terá começado há mais ou menos dois anos, depois do acidente rodoviário em que o rapper se viu envolvido e que o deixou ferido com alguma gravidade. Daí surgiu o seu novo disco e pode até dizer-se que será esse o devir – “movimento permanente pelo qual as coisas passam de um estado a outro, transformando-se” – do “novo” Jay Rock, mas, mais importante do que isso, refira-se: não fará muita diferença ouvir Redemption sem estar a par do conceito que o rege. Sobretudo porque não tem um daqueles backgrounds que tudo molda, desde o ponto de partida das letras até aos mais imperceptíveis pormenores. A ligeireza com que é feita a ponte entre música e história não se aproxima da complexa simplicidade que distingue as mais belas narrativas, restando virar o foco para o que realmente interessa.

“The Bloodiest” não bate à porta. Abre paredes, entra pela casa dentro e apresenta aquilo que se pode esperar de Jay Rock. O instrumental ergue-se solidamente entre dois mundos e revela-se ideal para métricas mais contemporâneas ou tradicionais, enquanto o rapper aproveita a boleia para desfilar dois tipos de flow, num resumo fidedigno do conteúdo que se segue. Apesar de ajudar a diminuir o impacto, “For What It’s Worth” acaba por elevar as expectativas, naquela que é a primeira de muitas confissões em forma de rima, só que “Knock It Off” quebra a corrente ao assumir contornos de “SoundCloud single“. O objectivo de aglomerar a diversidade e dela fazer uma unidade não resultou, e temas como “Rotation 112th” ou mesmo “WIN” acabam por se assemelhar a skits eternos mas, ainda assim, inacabados.

 



O problema não estará na intenção, uma vez que “Troopers” e “Tap Out”, com o omnipresente e irrepreensível Jeremih, se infiltram facilmente, sem que a sua vibe comprometa a genética do trabalho. Mas Jay Rock parece não sobressair quando não é servido com instrumentais tão inspirados como os de “ES Tales”, “King’s Dead” (apesar da péssima prestação de Future) ou “OSOM” (com direito a um minuto de J. Cole no seu melhor). A produção executiva de Kendrick Lamar, Midas de qualquer projecto em que ponha o dedo, ajuda a esconder as limitações técnicas e sobretudo criativas do seu camarada, aqui incapaz de elevar a competência a níveis geniais, mesmo nos momentos mais confessionais ou introspectivos — incluindo “Redemption”, um dos mais simbólicos cartões de visita deste LP.

Jay Rock, não sendo prodigioso, sabe como rimar. Trata a caixa de velocidades por tu e a escrita não lhe guarda segredos. No entanto, não vale a pena esperar que dê uma nova utilidade à roda. É pela intensidade que normalmente se distingue, e talvez seja por isso que soa mais genuíno ao exclamar “I’d rather rob than get a job” do que ao dizer “I’d rather be a prospect, you know, god-like/But for now, many texts, this is my life”, dando razão a quem acha que a certeza do sofrimento é sempre mais lírica e enfática do que o conformismo pacífico, inimigo da garra que lhe é característica e que aqui se manifestou timidamente. “Broke +-” recuperou essa sua faceta mas o poderio da faixa introdutória não se voltou a repetir (nem em “Wow Freestyle”, ao lado de Kendrick).

De boas intenções está o Spotify cheio e Jay Rock é, definitivamente, melhor a errar do que a pedir desculpa. Não se reuniram condições para que o erro e o perdão pintassem um retrato ou uma paisagem memoráveis, restando dissecar Redemption à procura de potenciais aquisições avulsas, que resistam à passagem do tempo e à sombra de um conceito que falhou. Talvez isso implique fazer download de boa parte do álbum, é certo, mas a excelência do protagonista e da TDE faziam prever voos mais altos. Ultrapassada a redenção, e contando que não lhe cortem as asas, será uma questão de tempo até que Jay Rock atinja outras altitudes.

 


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