Huey Briss & Nikobeats // Black Wax

[TEXTO] Moisés Regalado

Embora fosse fácil classificar Huey Briss e Nikobeats como descendentes da golden age, o boom bap não é, definitivamente, imune à mudança, sendo óbvio que o mesmo se aplica ao trap. Mais do que isso, nenhuma das expressões merece ser catalogada como subgénero e são discos destes que as provam como partes igualmente relevantes de uma só equação. A batalha do século XXI não envolve rivalidades de costa a costa e está a milhas da violência que pautou os anos 90, mas tem origens tão fictícias quanto os conflitos que outrora dividiram os Estados Unidos em dois. A música contemporânea não é, por si só, mais surpreendente, nem a antiguidade é um posto — e só a qualidade dita o real valor das coisas.

Os samples com que Nikobeats alimenta as oitenta ou noventa batidas por minuto não se limitam aos típicos loops de quatro barras, ainda que as estruturas mais convencionais componham boa parte da blueprint deste projecto. “Too Close” mantém o imaginário do disco intacto mas aproxima-se da expectável métrica do trap, num discreto equilíbrio capaz de fazer inveja aos mais badalados produtores da praça. Huey Briss respondeu à chamada com a mesma capacidade que foi provando ao longo das sete faixas de Black Wax e, apesar de quase não se desviar da matriz, está visto que é tão completo como competente, adjectivos que até serão redutores, uma vez que a sua competência não caminha livre de talento ou inspiração.

 



“Gil Scott Never Lied” abre a cortina e prepara o público para o cenário montado pelos jovens californianos. Não faltam actores e a peça é, afinal, feita a céu aberto e à vista de todos. A boa velha street smart está de volta ao mais alto nível e Black Wax esconde dezenas de pérolas dignas de audições consecutivas. Os relatos do quotidiano andam de mãos dadas com as mais diversas manifestações do ego e dão continuidade ao trabalho que Niko e Briss já vinham desenvolvendo desde há algum tempo. Surpreendentemente, como se 2017 não tivesse sido “ontem”, a dupla chegou a 2018 com as credenciais renovadas, completamente afastada do amadorismo que ainda lhe fazia sombra e pronta para assumir novos auditórios.

Huey Briss pertence ao restrito grupo daqueles que, quase paradoxalmente, se destacam pela aparente ausência de esforço com que transformam poesia em rap. Pouco mais há de parecido, mas a suavidade com que Briss aborda os instrumentais é suficiente para o comparar a Evidence. E, pelos vistos, terá servido para os aproximar — além do parentesco que une Nikobeats a DJ Babu, aqui presente para “riscar” o single –, uma vez que EV já convidou o conterrâneo para actuar na primeira parte de um espectáculo seu. A facilidade e aparente calma com que o rapper faz suceder as palavras não lhes retira qualquer impacto, uma prova de que assertividade e agressividade não são indissociáveis.

 



As preocupações que aqui são postas em cima da mesa não chegam a ser lamúrias — “My depression keeps my prestige leveled” — e Huey Briss também sabe encostar a pena para, de espada em punho e num exercício tão antigo quanto o próprio hip hop, enfrentar os alvos que lhe habitam os pensamentos. Mas há uma diferença significativa entre este MC e tantos dos seus pares, uma vez que Black Wax não dedica um minuto que seja à culpa fácil, aos oponentes imaginários ou aos fantasmas da “indústria” e das “novas gerações”. Se ficar algo por dizer, Briss resolve tranquilamente, sem direito a generalizações, subterfúgios ou insultos, enquanto chama os alvos pelos nomes — numa só frase afirma que nunca colaborará com Lil Xan ou DJ Vlad, figuras que, à primeira vista, seriam relativamente distantes entre si.

Se juventude é mentalidade, certamente que se pode dizer o mesmo sobre a maturidade que distingue a dupla. Os vinte minutos de apresentação chegam para esclarecer que Nikobeats e Huey Briss já não serão meras promessas, com especial destaque para os argumentos evidenciados pelo rapper. Niko surpreendeu e provou que é um beatmaker de traço clássico, sem que o peso das influências se tenha feito sentir, mas Huey Briss foi talhado para fazer escola, independentemente da visibilidade. As mais icónicas previsões de Gil Scott, dignas de Nostradamus, nunca se diluíram no tempo, mas, havendo justiça divina, pouco faltará para que a desilusão de frases como “Told my sister I’d be famous by the time she graduated, but I still live in the crib with my fuckin’ mama” dê lugar à revolução, com ou sem cobertura mediática.

 


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