Hip Hop Vs. Trump: o discurso do rap na América de Charlottesville

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

No limite poderá argumentar-se que qualquer cultura musical terá sempre implícita uma dimensão política, porque essa é a natureza humana. Olhar para a realidade, pensar a realidade, ignorar a realidade, abrir os olhos, fechar os olhos… todas as opções são viáveis no plano da expressão e todas são igualmente passíveis de serem interpretadas de um ponto de vista político. E aí o hip hop não é diferente de qualquer outra cultura musical. Mas, ao contrário de tantas outras culturas musicais (e reparem que escrevi “tantas” e não “muitas” ou “todas”…), o hip hop pode reclamar ter na sua própria génese um contexto de opressão, de privação económica, um contexto tão específico que nenhuma outra cultura se pode comparar nos mesmos termos: um bairro assolado pelo crime, pela devastação, pela pobreza, um bairro onde seria impossível ter um qualquer vislumbre de futuro, mas onde, ainda assim, um dos pioneiros – Afrika Bambaataa – abria um dos seus maiores clássicos com um chamamento a toda a “party people” e, mais adiante, sugeria uma via alternativa para a superação no meio do caos:

Just start to chase your dreams
Up out your seats, make your body sway
Socialize, get down, let your soul lead the way
Shake it now, go ladies, it’s a livin’ dream
Love Life Live
Come play the game, our world is free
Do what you want but scream

 



E este era, é preciso ter isso em conta, o tempo do “no future”, quando hordas de miúdos brancos suburbanos gritavam sobre guitarras eléctricas não terem perspectivas de futuro. Mas em 1973, algures em Sedgwick Avenue, no Bronx, em Nova Iorque, numa cave qualquer, Kool Herc colava dois breaks e declarava a pista de dança como espaço de utopia, onde as leis da gravidade não se aplicavam, onde todos poderiam flutuar se assim o desejassem, homens e mulheres, latinos, negros e brancos. Isso também é político: recusar uma realidade imposta, de onde parece não haver fuga, é um acto de resistência com uma clara dimensão política. Esse impulso está no hip hop desde a primeira hora. E nunca o abandonou, até aos dias de hoje.

Mas há algo mais que não se alterou, como Charlottesville deixa claro. A América – sobretudo agora, com Trump – continua a ser terreno fértil onde a violência parece crescer e não extinguir-se, onde a opressão policial é uma constante, onde as mais perigosas ideias sobre a desigualdade parecem encontrar eco nas cúpulas dirigentes do país cujos destinos são conduzidos por um presidente que não se coíbe de fazer ameaças de escala nuclear. Charlottesville não é uma anomalia, é um sintoma claro de uma doença. Uma doença que o hip hop conhece muito bem.

 



Em entrevista recente à Rolling Stone, Kendrick Lamar mostrou porque é hoje uma das vozes mais importantes da América. Essa entrevista já mereceu análise aprofundada de Ricardo Farinha aqui mesmo no Rimas e Batidas. O jornalista da Rolling Stone questionou o homem de DAMN. sobre o seu relativo silêncio acerca de Donald Trump: tirando um par de rimas, o rapper de Compton não tem feito do presidente americano o alvo em que se calhar o mundo esperaria que ele o transformasse. Afinal de contas, este é o MC que apertou a mão de Barack Obama, na Casa Branca. Esclarece Kendrick:

“É como bater num cavalo morto. Nós já sabemos o que aquilo é. Vamos continuar a falar sobre isso ou vamos agir? Chegas a um ponto em que estás farto de falar sobre isso. Tem um peso e tira-te a energia quando estás a falar de algo ou de alguém que é completamente ridículo. Por isso, dentro e fora do álbum, decidi agir na minha própria comunidade. No disco, decidi não falar sobre o que está a acontecer no mundo ou das situações em que nos metem. Fala [contigo] sobre ti próprio; reflecte contigo mesmo primeiro. É a partir daí que vai começar a mudança inicial.”

Noutro ponto da entrevista, não focado na análise de Ricardo Farinha, Kendrick fala do seu conceito de diversão, daquilo que o sucesso lhe permite fazer e que o deixa feliz. E não é, como seria de esperar, comprar jóias ou grandes carros de luxo (apesar de há uns meses, um vídeo ter circulado de Kendrick a ser mandado parar pela polícia quando se encontrava ao volante de um jipe Mercedes topo de gama…):

Gosto de pegar em malta do meu bairro, alguém que acaba de sair da prisão ao fim de cinco anos, e ver as suas caras quando os levo a Nova Iorque, quando os levo para fora do país. Shit, isso é que me diverte. Ver tudo isso pelos olhos deles e vê-los a iluminarem-se.

Mais adiante ainda, K-Dot assume que é um porta voz e assume igualmente que a sua mensagem alcança muito para lá das fronteiras do seu “bairro”:

Com o meu ouvinte, eu sei que eles de facto escutam o que eu estou a dizer, e eu falo por toda uma cultura de gente. Por isso, para o miúdo suburbano que não sabe como nós crescemos ou a história do meu povo, ao escutar aquelas letras eles conseguem compreender. É quase como uma lição de história a que eles não tiveram acesso na escola.

O jornalista da Rolling Stone, Brian Hiatt, referia-se especificamente à letra de “The Blacker The Berry” e Kendrick, obviamente, quando menciona miúdos suburbanos e fala “deles” está a referir-se aos jovens brancos que são igualmente o seu público. E fala de uma responsabilidade de educar através da música, substituindo-se a um sistema de ensino que parece fazer tábua rasa das lutas dos negros na América, algo que nem a imposição em tantas instituições de ensino de um “Black History Month” tem permitido corrigir. E daí Charlottesville, e daí uma parte (significativa) de um país que ainda procura agarrar-se a símbolos de um passado em que os seus direitos eram superiores aos dos que tinham um outro tom de pele.

Kendrick não é, pois claro, o único com essa transparente dimensão política no seu discurso. Jay-Z, mesmo parecendo que se olha sobretudo ao espelho em 4:44, não deixa de resguardar espaço nas suas líricas para reflexões que carregam também espessura política.

 


Jay-Z // 4:44


Há também uma dimensão política em 4:44. A responsabilidade perante a verdade que Jay assume traduz-se igualmente na clarificação da sua posição perante a sociedade americana, mas sobretudo perante os seus pares. É disso que trata “The Story of O.J.”, sublime tema construído sobre sample de Nina Simone em que ela canta sobre o tom de pele e assim oferece a Jay a perspectiva para olhar para uma realidade em que nem os cifrões parecem permitir ultrapassar essa barreira biológica que se ergueu numa América incapaz de superar preconceitos. É que, enfim, não importa se se é um “light nigga” ou um “dark nigga”, um “rich nigga” ou um “poor nigga”, um “house nigga” ou um “field nigga” porque, garante o rapper, ao fim do dia ainda se é “still nigga, still nigga”.”Financial freedom my only hope”, remata, garantindo depois que o esforço aplicado na sua carreira gerou os dividendos desejados: “I turned my life into a nice first week release date”. O alcance da riqueza, parece argumentar Jay-Z, não é uma mera forma de superação pessoal e não permite uma simples ostentação, mas é antes a mais sólida garantia do futuro dos seus filhos e da sua família. Ser rico, parece dizer-nos, é em si mesmo uma forma de sobrevivência.

Recentemente, Jay-Z afirmou que o poder de uma voz é forte, “mas quando se trata de justiça social, o poder da nossa voz colectiva é imparável”. A frase faz parte de um texto de Jay-Z a propósito dos documentários que ajudou a viabilizar sobre vítimas de violência policial, como Kalief Browder e Trayvon Martin, com assinatura de Spike Lee. A superação económica, pode-se acrescentar face à ideia já apresentada na crítica a 4:44 anteriormente citada, não é apenas uma questão do foro individual, mas uma maneira de elevar a própria comunidade. Vencer economicamente enquanto indivíduo negro na América contemporânea acarreta responsabilidades: quer seja K-Dot pegar num amigo acabado de sair da prisão e levá-lo a Nova Iorque ou a Londres e deixá-lo maravilhado porque provavelmente nunca viu o mundo para lá do seu bairro ou financiar documentários que alertam para a descriminação e a violência que as polícias continuam a exercer sobre jovens negros sem qualquer justificação.

Ou então, pode pegar-se no livro de cheques, pegar-se num pedaço do sucesso que se obteve com a música e reinvesti-lo na comunidade. Como tem feito Chance The Rapper que ainda recentemente viu Barack Obama elogiá-lo num vídeo que foi divulgado durante um concerto gratuito em Chicago. Os elogios são merecidos. Chano criticou abertamente as políticas oficiais para o ensino público na sua cidade natal que tem visto o financiamento das escolas dos bairros mais pobres ser cortado. E por isso doou um milhão de dólares como forma de pressionar uma mudança no sistema.

 


 


Foi sobre isso que falou recentemente no programa de rádio de Stretch & Bobbito:

Há uma série de serviços municipais e estatais que têm vindo a encolher por causa dos cortes… por isso eu decidi encontrar-me com pessoas que de facto tomam decisões e aplicam os fundos e têm acesso directo aos financiamentos através de leis e do poder que receberam quando foram eleitas. E através de todos os canais que consultei eu fui encontrando as mesmas respostas – por isso eu disse, que se lixe, eu próprio vou doar o dinheiro e logo vejo como é que as pessoas respondem e como é que os media reagem, e logo percebo se alguma coisa muda. E embora os resultados não tivessem sido os que eu desejaria, houve algumas pequenas mudanças e um pouco de agitação política, e iniciou-se um debate. E em 2018, sabem, vamos poder escolher as pessoas que escolhem as leis outra vez.

Penso que não são só os artistas e os filantropos que levam às mudanças; é da responsabilidade de todos fazer com que isto seja debatido. Eu sei que todos pagam impostos, e eu pago os meus impostos até porque eu sei que até parece que eles querem que eu escorregue, sabem? E algum daquele dinheiro poderia servir para fazer a educação ser mais justa.

Oddisee, Amir Ahmed de seu verdadeiro nome, deu ao seu mais recente trabalho o título The Iceberg precisamente por reconhecer que tanto se passa abaixo da cromada superfície que os media parecem insistir em mostrar-nos, esquecendo muitos dos problemas que nos assolam mas que em nada contribuem para que se possam vender mais carros e destinos de férias paradisíacos, telemóveis ou roupas, bebidas ou o que quer que seja.

 


Oddisee // The Iceberg


Amorim Abiassi Ferreira, na sua crítica ao álbum de Oddisee, identifica essa espessura política e escreve sobre ela:

No domínio das letras, os temas que The Iceberg aborda dão corpo ao nome que Oddisee construiu para si. Só que nem sempre o fazem com o tacto certo: “Hold It Back” aborda a questão da diferença salarial entre homens e mulheres, e o rapper encerra a questão comparando o desgosto por esta injustiça ao seu ódio por calções cargo. No outro lado do espectro, “You Grew Up” é um óptimo exemplo do uso da narrativa para abordar a brutalidade policial ou terrorismo. No entanto, são músicas como “Waiting Outside” que fazem jus ao nome do álbum, expondo a realidade de doenças de foro psicológico muitas vezes estigmatizadas dentro das comunidades de minorias norte-americanas. A parte visível de um icebergue esconde uma massa bastante maior debaixo da superfície.

Uma das mais subtis questões é reconhecida pelo artista na fenomenal música de fecho, “Rights & Wrongs”. O ritmo quente e dançante serve de base para que Oddisee pondere sobre como o Bem e o Mal podem transformar-se somente com uma mudança de perspectiva. Por consequência, ele admite que tem consciência da posição delicada em que se encontra: “I think I’m giving out advice / But all you hear is judgement on the way you live your life”. A linha entre sermão e mensagem é ténue e quem decide onde esta é traçada é sempre o ouvinte.

Em entrevista à NPR, Oddisee falou sobre a sua visão do mundo, na primeira pessoa, resultado de uma visita a um campo de refugiados em Calais – “testemunhar isso em primeira mão, contemplar a minha própria família e as minhas raízes, bateu-me forte” -, trazendo para o hip hop não apenas a responsabilidade de olhar para lá do “bairro”, mas para lá das próprias fronteiras da América, fronteiras essas que Trump tem lutado para encerrar, declarando a vontade de erguer muros, de fechar aeroportos, negando o direito de entrada no país a pessoas que, como Oddisee, poderão chamar-se “Amir” ou “Ahmed”…

E tudo isto nos traz até Charlottesville, palco de uma lamentável manifestação de direita que se transformou, uma vez mais, num campo de batalha que expôs as feridas fundas de uma América que parece não ter resolvido ainda o seu passado. Feridas essas que o presidente Trump nada faz para sarar, preferindo ao invés escarafunchar no seu âmago, tornando-as mais graves, mais dolorosas. Mas o hip hop não dorme.

 


Today as I saw what was going on in Charlottesville,Va., I couldn’t help but feel sad, angry, and like “what is going on in America?” I had just landed from London and was thinking how good it was to be home. But then I started to think it’s tough when people in your home don’t want to accept you and spew out hatred and negative energy towards you and people who look like you and other people who don’t look like them. I heard a pundit on the news say, “this isn’t America!” BUT IT IS! This has been America since it began looking down on others (Native Americans, Black people, Latino People, Jewish People). This has always been apart of the American DNA. For sure there are other aspects to America that are beautiful, positive and the reason why I felt good when I touched down on the American soil. However, these ugly parts need to be addressed. Yes I felt like snapping today myself for a second but then I thought about my purpose and who I’m here to serve and that’s GOD and The people! The movement needs GOD and Spirituality especially looking in the face of evil. GOD will allow us to respond on A GODLY Level with a Higher vibration. That doesn’t mean we won’t defend ourselves but I do believe that doing the work is our greatest defense. We got work to do in our communities, our homes, supporting our businesses that are for the good of people and electing local and state politicians who share in this positive vision and are down for what we believe in. And if we can figure out the best way to express Love to other human beings, hate won’t have a chance! GOD Bless. Love #charlottesville

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If you’re not outraged, you’re not paying attention. #myselfie

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If I were the lazy type to call his next album #ThingsFallApartToo —this would be considered for the album cover #exposethem

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Common escreve algumas das mais sentidas linhas que as inúmeras reacções a Charlottesville inspiraram. Escreve o rapper, actor, activista e humanista que ao regressar a casa vindo de Londres pensou inicialmente “que bom que é regressar ao lar”, mas que depois, perante as notícias, percebeu que é difícil sentir-se em casa quando há quem não se coíba de demonstrar ódio em relação a quem é diferente. E, como qualquer ser humano, Common reconhece que se a primeira reacção foi explodir, logo depois – como Martin Luther King, Jr. muito antes de si – percebeu que só uma resposta baseada na espiritualidade e na paz poderá ajudar a resolver esse problema profundo que ainda mantém a América manietada, impedida de se realizar, incapaz de ser de facto uma terra onde todos são criados iguais e onde a todos são dadas as mesmas oportunidades.

O hip hop – através de gente tão diversa como os por aqui citados Kendrick Lamar e Jay-Z, Chance The Rapper e Oddisee, mas também um verdadeiro exército de defensores de uma ideia mais positiva de sociedade como Killer Mike ou Common que usaram as redes sociais para juntarem a sua voz ao coro de críticas que Trump foi incapaz de dirigir – poderá ajudar a forçar a mudança. Basta não se calar. Basta continuar a querer festejar face à adversidade. Basta, muito simplesmente, continuar a existir. Porque um dia, o hip hop acredita nisso, a América há-de resolver-se. E nesse dia tudo ficará bem. Como professa a canção…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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