Hey, jovem, vem ser um polícia do hip hop!

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Quem se passeia diariamente pelas redes sabe bem que o que não falta por aí é policiamento intenso. De tudo e de mais alguma coisa. Com as caixas de comentários a assumirem-se cada vez mais como terreno fértil de indignações várias, têm surgido “polícias” para tudo: polícias dos fogos e do futebol, polícias da política e da sociedade em geral, polícias dos festivais, polícias da moda, polícias das dietas e até, como não podia deixar de ser, polícias do hip hop.

Não há causa que não tenha a sua força de autoridade. Só que, ao contrário da “vida real”, estas “polícias” não estão contidas por uma constituição, não obedecem a uma estrutura hierárquica, não seguem, nem tentam impôr uma lei. Nada. Na verdade, na Internet social, cada “polícia” parece, simultaneamente, ser também juiz, advogado de acusação, carrasco e transeunte que não se escusa de “gritar” impropérios avulsos quando o alvo da sua fúria caminha para o “tribunal”.

Também há, e é cada vez mais visível, uma “polícia” do hip hop. Estes agentes auto-proclamados nunca se coíbem de ditar as suas sentenças e pertencem, claro, aquela classe que dispara primeiro e nem sequer pergunta depois. São eles que determinam o que é ou não é hip hop, que apontam as diferenças entre hip hop e rap (2017 e isto ainda é uma questão…), que definem os limites do que as letras dos MCs podem e não podem abordar. São eles, do alto da sua enorme sapiência e da imbatível experiência, que distinguem os “reais” dos outros, que sabem sempre mais do que o resto da espécie, que guardam, sem que ninguém lhes tenha pedido de facto, a “chama” da verdade.

Estes “polícias” não sabem debater, preferem disparar. Não sabem investigar, mas são ótimos a apontar o dedo. E reagem mal às opiniões alheias. Para eles, o mundo faz-se de dogmas inquestionáveis, de verdades inscritas na pedra e o mundo é assim porque sim, porque eles dizem. E nada mais importa. Sobretudo opiniões. Mesmo as que aparentemente até se sintonizam com algumas das suas convicções (coisa diferente, a opinião e a convicção: a primeira forma-se após estudo, observação, experiência; a segunda nasce de geração espontânea, por graça mais ou menos divina). Dizer “isto é o que eu penso” é, obviamente, um crime. Porque quem diz o que pensa diz, por consequência, o que aprendeu e admite naturalmente que quando aprender mais poderá pensar diferente. Muito melhor é dizer “isto é o que eu sei e o que eu sei é o que é e o que é nunca muda”. Pensar é um “pecado” que não assombra estes “polícias”.

A idade não é nenhum posto e eu aprendo todos os dias com quem tem metade das minhas voltas em torno do sol. Mas a idade oferece, em cada caso, diferenciados pontos de vista e quanto mais avançada é mais panorâmica a visão que se obtém. E é por causa da idade que eu posso dizer que me lembro de quando, para muita gente, o Tupac era um rapper “azeiteiro” e, sei lá, os Non Phixion representavam a mais pura verdade hip hop, subterrânea e autêntica. É por causa da idade que me lembro que o Boss AC estava longe de ser um nome consensual entre os que compravam as últimas mixtapes no balcão da Kingsize. É por causa da idade que ainda tenho memória de um tempo em que os Da Weasel nem eram vistos como hip hop e em que o Eminem se tinha tornado demasiado “comercial” após os “bons velhos tempos” da Rawkus.

Aos novos “polícias” deixo por isso uma sugestão: não vale realmente a pena tentarem impor a vossa lei. O hip hop é um campo vasto, generoso, de muitas e diferentes propostas, poéticas, musicais, estéticas, de muitos posicionamentos, de muitas ideias, de gente real e de gente inventada, de rimas sobre tudo e mais alguma coisa – reais, surreais, com e sem sentido, poéticas, metafóricas, directas, violentas e pacíficas, em todas as línguas -, de batidas orgânicas, mecânicas, analógicas e digitais, com samples, sem samples, feitas com a boca, com as mãos, com máquinas e instrumentos, sentidas com a cabeça e com o coração, com as ancas e com os ouvidos.

E no meio desse delicioso caos cada um elege o que lhe interessa. A liberdade é uma coisa bonita. Experimentem que pode ser que gostem. E tirem lá a farda que isto aqui é tudo gente de paz.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

Latest posts by Rui Miguel Abreu (see all)