GSon: “Sentires a adrenalina no coração das pessoas vai ser sempre bué inspirador”

[TEXTO] Núria R. Pinto [VÍDEO] Luís Almeida [FOTOS] Sara Falcão

Aos 23 anos, GSon é um dos incontornáveis da nova geração do hip hop nacional. O “menino-prodígio”, como já foi apelidado por muitos, lançou mais de uma dezena de faixas durante o ano que passou, entre singles a solo e participações em trabalhos alheios. Lhast, Here’s Johnny, AndrezoPhoenix RDC, Bispo, Slow J ou Papillon não hesitaram em reclamar a sua presença. E a lista continua a crescer.

Em 2018, o MC chega em voo picado às 3 milhões de views no YouTube — falamos de “Voar”, tema incluído no novo EP dos Wet Bed Gang. Bem sabemos que visualizações nem sempre dizem muito sobre a qualidade da obra, pelo menos segundo aqueles que são os parâmetros pelos quais gostamos de nos reger. Mas neste caso? Não sobra um buraquinho de agulha por onde a dúvida se possa enfiar. A sobrar, só aquele pequeno furo na atmosfera e até esse está prometido para levar todo o “rap tuga a Neptuno”!

Já ao lado de Papillon e Slow J gritava estar a “trazer o Tupac à década do rap trap” mas isso foi antes de percebermos que tinha na voz uma ferramenta tão absoluta quanto na caneta, e que procurar defini-lo como sendo só um rapper ou só um cantor poderia acabar por se tornar num verdadeiro dilema de complexa resolução. Passeia-se com à-vontade e sem concorrência à vista por entre o rap e o trap, o gospel e a soul. Sempre aos olhos do público mas raramente fora dos palcos. Admitiu não ser pela timidez que o caracteriza que prefere não se alongar muito sobre o que faz sozinho. É que o “grupo vem sempre primeiro”. Aquele álbum a solo? Talvez não vá chegar tão cedo.

Numa conversa incluída nas celebrações do terceiro aniversário do Rimas e Batidas, GSon abriu parte do jogo e, sempre de gargalhada pronta, falou-nos sobre a influência que o ambiente onde cresceu teve no que faz, a importância do trabalho individual para o sucesso do colectivo ou aqueles que foram os momentos-chave para perceber o peso tremendo das mensagens que carrega.

 



É muito raro ver-te neste registo, a dar entrevistas, a falar um pouco mais sobre o teu percurso, sobre quem és… Principalmente depois de um ano como o que passou. É alguma timidez ou uma questão de timing, por exemplo?

Não. Tem mais a ver com as políticas da cena. Com as políticas do grupo. Nós optámos por aparecer sempre juntos e é um bocado mais por aí. Tem sido mais a nossa cena: quando aparece alguém normalmente é Wet Bed Gang como um grupo, especialmente para entrevistas.

Mas talvez seja inevitável que as pessoas te queiram ouvir — a solo, vá — principalmente depois do ano que tiveste…

Eu acho que é fixe manter o suspense, essa curiosidade! [Risos] Percebo, ya. Mas até à data a política tem sido sempre essa: aparecermos todos juntos. Enquanto existir o projecto WBG, a prioridade será sempre essa. Claro que, entretanto, vão surgindo projectos a solo e aí eu percebo que vá fazendo mais sentido. Mas, por agora, a maioria das intervenções e o foco será sempre o grupo.

Achas que apareceres não poderá, de alguma forma, ajudar a reforçar o grupo?

Talvez… Nunca pensei muito nisso, é verdade! [Risos]

Espero que sim. Eu sei que és de Vialonga, mas também que não viveste sempre ali…

Não. Nasci no Barreiro e, entretanto, fui para a Graça e depois para Benfica. E depois de Benfica fui para a Pontinha e depois para a Vialonga! [Risos] Nómada. A cota à procura de condições e no hustle dela. E às vezes tínhamos que nos adaptar ao sítio onde ela trabalhava. Foi mais por causa disso que nos mudámos tanto.

Tu, a tua mãe… Tens irmãos?

Tenho irmãos. Da parte do pai… 14. Ya! [Risos] Já são mais do que no ano passado… E para o ano se calhar vão ser mais do que este ano! E da parte da minha mãe tenho uma irmã mais nova. A Melissa. Estas mudanças foram sempre com a minha mãe. Nunca vivi com o meu pai.

Com que idade acabas em Vialonga?

Em Vialonga fixei-me por volta dos 11, 12 anos… Não. Eu ainda estudei na Primária, na Vialonga, então deve ter sido para aí com 9.

Então quem é que trouxe este ambiente musical para a tua vida? Havia música na tua casa?

Acho que foi mesmo a Igreja! Eu nasci na Igreja. Não literalmente! [Risos] Mas cresci a ir à Igreja e sabes que é um lugar que tem bué música e tem bué esse ambiente. Claro que depois e a partir daí comecei eu a procurar… E em Vialonga todos ouviam as suas cenas. Eu andei nas marchas e fiz vozes para as marchas, aqui em Lisboa. Ali em Santa Clara. Numa escola que já não existe, ali em frente à Feira da Ladra, acho. Ya, andei nas marchas lá! Fui marchante e cantei. Para aí com 7 anos… [Risos] Era bué puto!

Isso para além da Igreja?

Sim, cantava no Coro da Igreja. Lead, às vezes! Às vezes era lead, mesmo. Voz principal algumas vezes. [Risos]

Foste tu que quiseste ir ou descobriram-te esse talento?

Se calhar no coro descobriram-me esse talento… “Olha, tu cantas bem! Anda lá um bocado mais para aqui!” Ya!

Quando começaste a ser tu a decidir o que querias ouvir para onde é que apontaste?

Eu queria dizer para o rap mas não sei… [Risos] Eu sempre curti bué Stevie Wonder, por exemplo. Foi uma das minhas primeiras influências, ‘tás a ver? Stevie Wonder. Sou muito fã da Beyoncé, do André 3000… Se calhar foi um bocado ele e Outkast que me trouxeram mais para o rap, na altura. Mas sim, acho que fugi para o rap mas as primeiras influências não foram de rap.

O teu grupo de amigos partilhava dos teus gostos? Existia alguém com quem ouvisses esses artistas?

Não, não… Stevie Wonder foi mesmo uma cena minha. Ninguém ouvia Stevie Wonder, na Vialonga, acho eu. No meu grupo de amigos? Stevie Wonder? [Risos] Ninguém ouvia! Mas ouviam todos bué rap. Ouviam todos bué dicas de rap.

Achas que o ambiente onde cresceste influenciou a forma como rimas ou escreves?

Não sei se influenciou… Porque eu também fui bué viajado. Claro que o meio ambiente me influenciava sempre, não é? Eu viajava nas minhas cenas, nas minhas pesquisas. Houve influência do pessoal do meu espaço mas não assim tanta, acho. E se calhar, por exemplo, eu agora sou muito mais rapper do que outra coisa. Se calhar se não fosse Vialonga, eu não seria tão rapper. Não iria tanto para a cena do rap e Vialonga empurrou-me mais para fazer as cenas nesse sentido. Foi por aí.

 


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Nós todos temos aquelas recordações de infância ou pré-adolescência de quando começámos a ouvir músicas entre amigos. O que é que recordas disso?

Ouvíamos bué Phoenix, em putos. Phoenix RDC. Grande Phoenix… Já canta há bué! Ouvíamos bué rap tuga. Na altura consumíamos muito. E depois, lá está, muito Outkast, Lauryn Hill, Busta Rhymes, Wu-Tang Clan… Dicas assim!

Quando é que entram os Wet Bed Gang?

Com o nome WBG muito recentemente mas, os membros em si e as amizades, desde que me conheço em Vialonga. Há treze anos. Foi quando os conheci todos! O Zizzy já era da Igreja! Conhecemo-nos lá, ya! Conhecemo-nos lá na Igreja a cantar! [Risos]

Cantava bem?

Não! O Zizzy não era muito da cena do coro. O Zizzy baldava-se ao coro! [Risos] O Kroa conheci em Vialonga. Desde sempre, também. O Zara era mais puto… Andava de cuecas no estúdio onde nós gravávamos! [Risos] Era mais pequenino. Mas conheço todos quase desde que fui para Vialonga. A cena foi acontecendo… Nós começámos a cantar juntos antes do projecto se chamar WBG e isso foi para aí em 2013, quando fizemos o nosso primeiro som juntos. Mais ou menos por aí. Depois, entretanto, o Rossi faleceu e juntámo-nos para criar o projecto WBG e estamos aí até hoje. Para aí desde 2015, se não me engano, que a WBG se oficializou, ‘tás a ver? E é o que é hoje com os membros que tem hoje. Atenção, quando eu digo os membros da WBG, não são só as caras, os quatro. A WBG tem muito mais gente por trás, claro…

Para vocês foi tipo um no brainer continuarem o projecto a partir do momento em que o Rossi morre?

Ya, ya, ya… Já curtíamos todos bué a cena de cantar e tal. Estávamos já sempre todos no estúdio  e era um bocado mais do que um hobby. Mas a partir do momento em que ele faleceu, a dedicação foi muito diferente. E se calhar isso foi mesmo um ponto de viragem para as cenas serem o que são hoje. Infelizmente, não é? Foi mesmo o que dinamizou…

Estavas à espera de terem tido o sucesso que tiveram?

Não. Nunca. Não estava mesmo à espera disso. Posso dizer que trabalhámos para isso, mas não trabalhámos assim tanto se olhar para outros artistas dentro do meu mercado, ‘tás a ver? Há pessoal que já está aqui há imenso tempo, e bons artistas, talentosos, que não tiveram esse reconhecimento nesse espaço de tempo, ‘tás a ver? Então, comparando com essas pessoas, nós não trabalhámos assim tanto… Trabalhámos bem mas não assim tanto e por isso mesmo é que eu não estava à espera que, de repente, “ya… vão olhar para nós como a cena!”. Ya, houve muito talento mas também muita sorte. Muita sorte, mesmo. Grande Rossi…

Tu tens essa ambivalência: tanto cantas como rimas. Mas há algum registo no qual tu te sintas mais confortável? Que sirva de apoio ao outro, por exemplo?

Não sei… Acho que se calhar é o casamento dos dois, ‘tás a ver? O registo em que senti mais que me encontrei foi, por exemplo, no “Já Passa”. Em que eu sinto que caso mesmo os dois, ‘tás a ver? E acho que é aquele som em que eu me senti assim, mais identificado comigo mesmo. Foi no “Já Passa”.

Ou seja, nunca vamos ouvir um GSon só a cantar ou só a rimar?

Só a rimar ou só a cantar… Ya. Se calhar, sim! Por exemplo: quando o projecto não é meu, eu não tenho espaço para dar aquela vibe na música e se calhar só posso fazer uma dica naquela cena. Porque, lá está, quando eu tenho espaço, prefiro sempre fazer as duas cenas. Um casamento das duas.

Lançaste 15 faixas em 2017! A este ritmo eu só te posso perguntar: quantas é que tens lá escondidas? 

Escondidas? Estão lá umas cenas para lançar, ya. Mas, lá está, a prioridade neste momento é mesmo o grupo. E dinamizar ao máximo as cenas do grupo. Mas estão lá algumas faixas! [Risos] Talvez mais do que as que saíram no ano passado!

 


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E em todas procuraste trabalhar com vários produtores, vários artistas e MCs de identidades muito diferentes. 2017 também foi um ano de procura? Do teu estilo, por exemplo?

Eu senti em 2016, o ano do boom da WBG, algo como: “Ok, nós conseguimos chegar mais ou menos lá mas ainda não é suficiente”. Então eu quis começar a fazer o meu hustle, mesmo por mim, para depois dar nome ao grupo. Não sei se me estou a fazer entender? E afinal sim. Acho que muito do trabalho que fiz a solo teve repercussão para o trabalho da WBG. Aconteceu em 2017, estás a ver? E o objectivo era sempre um bocado esse: sempre em nome do grupo, e em meu próprio, claro, mas sempre com o objectivo de levantar as cenas. Nós estávamos a preparar o trabalho de grupo e as cenas ainda não tinham saído. Pá, tinha que haver alguma coisa que fosse de WBG na rua. O Zara também lançou cenas! E acho que foi um bocado por aí.

Como é que funciona o teu processo de escrita? Pegas nas melodias, pegas nas palavras primeiro e vai desenrolando…

É tudo. Raramente escrevo assim as cenas, do nada. Normalmente encontro a melodia e depois ponho as palavras, mas depois também depende dos temas. O “Já Passa”, mais uma vez, foi um tema onde primeiro escrevi e depois é que pus as melodias. Normalmente costuma ser ao contrário. Mas é de tudo um pouco. Às vezes vem uma letra e gravo no telemóvel. Outras vezes uma melodia e gravo. É de tudo um pouco.

Existe alguma diferença na forma como escreves para WBG ou como escreves, por exemplo, para uma faixa em que participas com outra pessoa?

Não sei se é assim, literalmente. Eu acho que é sempre mais pela vibe da música. Se eu estiver a sentir a música desta maneira, vou cantar desta maneira! Se não estiver, vou cantar de maneira diferente. Acho que é mais pela circunstância do que propriamente pelo artista…

Mas no caso de WBG juntam-se todos. Ou não?

Sim, juntamo-nos… Ou não! [Risos] Às vezes um tem uma ideia e vai ao estúdio, a seguir vai outro, a seguir vai outro. E às vezes estamos todos juntos e surge. Com WBG se calhar é mais fácil trabalhar nesse sentido porque é o meu grupo.

Estás, desde o início do ano, a trabalhar com o Charlie Beats. Lançaram este EP recente já com ele, à partida hás-de lançar mais coisas com ele…

Sim, sim. Claro.

Encontraste um bom entrosamento com ele, não foi? O que é que ele te trouxe?

Em primeiro lugar, temos uma química incrível. Parecemos duas bitches! [Risos] Temos uma química óptima, ele é uma pessoa com quem é super fácil trabalhar e é bué acessível. E é muito flexível, ‘tás a ver? É muito fácil dizer, “olha, Charlie, faz desta maneira!”, e ele quase que me compreende instintivamente. Ele compreende-me, ele lê-me mesmo. Muito facilmente. Eu trabalhei com grandes produtores mas com o Charlie a química é diferente.

És muito exigente com as pessoas com quem trabalhas?

Ya, um bocado. Acho que sim, considero-me um bocado exigente, nesse sentido. Até porque se eu estou aqui a trabalhar, estou aqui a transpirar… [Risos] Também tens que dar legitimidade ao que eu estou a fazer e mostrar consideração, não é? Ya, é um bocado por aí, mas também não sou Hitler nenhum para as pessoas! Acho que sou justo.

E para ti? Mais?

Sim, se calhar para mim mais, sim. Mas também muito para com quem trabalho. Tipo, as cenas têm que sair sempre. Mas uma coisa sou eu para a WBG e outra diferente é ser convidado de um artista. O grau de exigência não vai ser o mesmo. Para mim próprio vai sempre ser o mesmo, claro. Mas se calhar para a pessoa com quem estou a trabalhar não.

A maioria das músicas que tu lançaste o ano passado denunciam-te a veia romântica… Consideras-te um romântico?

Pá, ya. Um bocado.

É inevitável ires para aí, portanto…

É. Acho que é. Fugi mesmo bué para essa cena, fugi mesmo bué para as lovesongs! [Risos] Eu acho que sou mesmo essa pessoa, ya… Quem me conhece sabe disso. [Risos]

Estás a ter uma epifania agora?

Eu nunca pensei muito nisso, mas se calhar é verdade! As cenas fugiram sempre bué para aí. Tipo, 60 ou 70% das cenas que lancei fugiram para aí. Ya, se calhar sou uma pessoa romântica… inconscientemente! [Risos]

É onde te sentes mais confortável à partida.

Não sei… Eu acho que me sinto confortável em quase todas as cenas que surgirem mas pronto, se calhar fugiu mais para aí. Se calhar este ano vou para outro lado!

 


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Como é que lidas com tudo isto, à tua volta? O assédio… Deves senti-lo! [Risos]

Não, ya. ‘Tá-se bem! [Risos] Não dá problemas nenhuns!

Quando é que foi a primeira vez que tu começaste a sentir que eras reconhecido na rua? Os miúdos pedem-te para tirar fotos no McDonalds!

No McDonalds, ya. A primeira vez que eu senti mesmo que estava ridículo… Pediram-me uma foto na casa de banho! “Como é que é GsOn, tá-se bem? Quando acabares…” [risos] Foi quando eu senti que estava ridículo! Mas ya, quando eu senti que as pessoas já me conheciam foi aí 3 meses depois do “Não Tens Visto”, em 2016. A sair à rua, do nada, estávamos todos juntos e de repente, olha, pediram-nos foto. Pediram-me foto a mim e ao Zara. Foi fixe! Tipo, “Puto… Afinal!”. [Risos] Mas ya, depois ficou normal.

Isso reflecte-se na forma como tu usas as redes, por exemplo? Qual é a tua relação com redes sociais?

Eu fui um bocado mais obrigado. Eu já tive Instagram bué da tarde. Facebook também tive bué tarde. Fui sempre o bacano que nunca ligou muito a essa cena até agora. De eu ter que comunicar, de ter que estar frequentemente em contacto. Eu sinto essa cena, ‘tás a ver? Que tenho que estar frequentemente em contacto com os meus putos. Sempre em contacto com o público. E é legítimo. Eu sinto mais essa cena mas eu nunca fui essa pessoa das redes sociais. Agora se calhar sou.

A vida na estrada afecta de alguma forma o teu processo criativo?

Não sei. Às vezes inspira bué, mas outras vezes é bué tóxico. A nível criativo é fodido. Um dia, por exemplo, saímos de cinco listas: uma em Faro, outra em Aveiro, outra no Porto e outra ainda no Porto, mas noutra escola. Depois, no dia seguinte, tinhas tipo dois concertos no mesmo dia. Então, ya… Às vezes é bué cansativo. Depois há outros dias em que sentires essa cena no coração das pessoas vai ser sempre bué inspirador.

Vives dessa adrenalina?

Ya, bué. Bué. Vivo por que eu já fui um deles, ‘tás a ver? Há três anos estava aí na Semana Académica a vibrar bué a ouvir a “Casca Grossa” do Regula! E agora, tipo, vejo-me bué ali e eu vou ter que viver aquilo… Isso vai-me inspirar, sempre! A cena dos putos vai-me inspirar mesmo sempre. E a cena de receber feedbacks, do género… Pá, há 3 meses estivemos com um miúdo que teve um acidente bué grave, e a primeira coisa que ele pediu aos pais foi para levá-lo à WBG. “Olha, trá-los cá!” Nós fomos lá, ele não falava… Agora melhorou, já fala, já canta as nossas músicas outra vez… Mas foi uma cena, tipo, “mas o que é que nós somos para que a primeira coisa que este miúdo pede quando recupera os sentidos, é isto?” Isso vai ser sempre bué motivador. Quando um gajo percebe que são as suas ideias que estão a moldar o subconsciente das pessoas… Ya, fica uma responsabilidade fodida.

Como é que te sentiste ao ver o documentário do André Santos, Pôr a minha vida no teu ouvido?

Estivemos nas estreias lá na zona, nas duas, e depois não consegui ir a mais. Mas aquilo foi bué emocionante… Chorámos todos na primeira vez que vimos o documentário. Foi uma cena pesada para nós. Porque é bué pessoal, ‘tás a ver? Aquele documentário fala connosco. E espero que isso tenha passado também, para quem vê. É muito importante. Acho que o André fez uma tradução muito fiel de nós mesmos. Ele é muito bom, nisso. Mas pronto, para resumir, foi bué emocionante. Pesado… O André é lixado! [Risos]

Qual foi a tua melhor experiência em palco? E a pior, já agora!

Já caí bué vezes! Mas até não é mau! [Risos] É sempre bué engraçado! A pior experiência foi mesmo quando encravei num som e fiquei o verso inteiro bloqueado! Foi muito mau. A melhor experiência em palco, há sempre dezenas delas… Eu consigo dizer-te qual foi o último melhor concerto…

Qual foi?

Acho que foi o de Punta Umbría. Este ano. Foi muito bom! Tivemos um aqui na Recepção ao Caloiro em Lisboa que foi gigante. Foi a primeira vez que senti mesmo milhares de pessoas. Porque nós costumávamos tocar em discotecas, nunca era em cenas muito grandes. E foi a primeira vez que sentimos milhares de pessoas, mais de 6000 pessoas à vontade, todas a vibrar e a cantar. Não era a frontline, era toda a gente! E depois é Lisboa. Estamos a jogar em casa.

Gostas mais de tocar em casa?

[Risos] Nós, por acaso, também tivemos agora no Porto nos Prémios Nova Era e o pessoal do Porto vibra de uma maneira estranhamente boa. Eles são mesmo malucos, eles gostam de mostrar que sabem. Gostam mesmo de mostrar. “Vim para te ver!” O pessoal de Lisboa já foi mais contraído, mas agora já se desbloquearam completamente. Lisboa… São ridículos, esquece. Jogar em casa é fodido.

Com quem é que ainda não trabalhaste e gostavas de trabalhar, este ano?

Tanta gente… Fogo. Aqui, em Portugal, quero trabalhar com o Ricardo Costa. Que é o Richie Campbell! [Risos] Dillaz, Sam The Kid, Regula. Sou fã de bué gajos aqui da tuga. Depois, ainda dentro da lusofonia, que eu curto bué… O Junior Lord é um puto muito fodido, um génio. Um géniozinho pequeno. O Gabriel, lenda. O Marechal. Seu Jorge. Adorava trabalhar com Seu Jorge, já fora da vertente hip hop. E depois há aqueles sonhos internacionais… Kendricks da vida. Tory Lanez, ya. Esses nomes assim.

Fazes 23 anos amanhã [a entrevista aconteceu na segunda-feira, um dia antes do dia do seu aniversário], não é? Como é que te vês daqui a 10?

Barrigudo, cheio de filhos, cheio de dinheiro, cachês milionários!

E agora a sério? [Risos]

Ya! [Risos] Era isso que eu ia dizer! Agora a sério: continuar a fazer o que gosto, seja como for. Continuar a fazer o que me dá prazer. Desde que nada se torne demasiado trabalhoso ‘tá-se bem, ‘tás a ver? Desde que nada venha como uma obrigação, ‘tá-se bem. Continuar a fazer o que gosto e dar estabilidade à minha cota. Também é muito importante isso. Mas é mesmo isso! Continuar a fazer o que me apetece, o que me dá prazer.

E no curto prazo, o que podemos esperar?

Vai sair o projecto da WBG. Mais um, não é? Se calhar mais do que um. Não há data, ainda, mas está para bem breve. Se calhar vai sair mais do que um, ainda, mas estão aí umas cenas a solo… Isso com certeza. O Zara tem lançado sons da mixtape dele. Provavelmente vai continuar a lançar. E vão sair mais cenas, dos restantes membros do grupo. Os meus malucos!

 


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto