Graduation: 10 anos depois, o ego de Kanye West está cada vez mais inchado

[TEXTO] Diogo Santos [ILUSTRAÇÃO] The Comeedian

Onde é que estavas na primeira quinzena de Setembro de 2007? Se calhar, a comprar material escolar ou a tratar da inscrição ou dos diplomas ou a fazer outras coisas igualmente espectaculares. Meio que de uma forma subliminar, estarias a criar uma ligação qualquer com o Kanye West daqueles três discos em quatros anos: College Dropout (2004), Late Registration (2005) e Graduation (2007). Ou, então, até chegaste a estes discos mais tarde, como eu, que queria tanto saber do Yeezy como queria continuar a ouvir as conferências de imprensa do Chalana enquanto treinador do Benfica.

Ao terceiro registo, Kanye já se estava a distanciar dos demais. Sobretudo, por não ser fácil encontrar tanta consistência, e, claro, competência, em edições consecutivas, em tão curto período de tempo e em início de carreira. No género ou fora dele. Nem Beatles. Nem Michael Jackson. Nem Jay-Z… Após dois discos mais virados para dentro, com qb de nostalgia, Graduation leva o natural de Chicago para o mundo, venha ele na forma de alta-costura italiana (“You don’t see just how wild the crowd is / You don’t see just how fly my style is / I don’t see why I need a stylist / When I shop so much I can speak Italian”) ou nas diversas influências musicais que pontuam brilhantemente a produção dos registos de Kanye West – nisto, Graduation também não é excepção. Não que antes não tivesse ambicionado tal coisa, mas é a partir daqui que West se começa a estabelecer definitiva e orgulhosamente como figura da realeza pop. Com tudo o que de bom e de mau possa daqui advir. A diferença é que até Graduation, o ego de Kanye seria somente do tamanho do estado do Illinois. De 2007 para cá, a Terra ficou-lhe pequena. Não é por acaso que aqui surge uma colaboração com Chris Martin dos já na altura ultra-populares Coldplay. É por isto que hoje nem nos devemos espantar com o Justin Bieber a mandar pausa ao lado do Chance the Rapper.

 



Se conseguirmos acordar que The College Dropout e Late Registration tinham as bússolas apontadas à soul, então é facílimo chegarmos à conclusão que é em Graduation que Kanye West muda o seu próprio paradigma (algo que ficaria ainda mais claro nos tempos que se seguiriam). Diz-se que, inspirado por bandas de estádio como os U2 ou até os Coldplay, o norte-americano começou a ver o espectáculo com outros olhos e ouvidos: letras e rimas mais orelhudas, composições menos obscuras, melodias mais facilmente reconhecíveis e quase trauteáveis. Em suma, adoptando estratégias e técnicas tipicamente associadas ao formato canção. Para aqui chegar, Kanye-o-produtor abraçou sintetizadores com toda a força. E colheu muitos frutos na música dos anos 70, 80 e 90 – quer europeia, como a electrónica de França ou o kraut da Alemanha; quer americana, como o house de casa de partida de West.

Por tudo e por nada, estava capaz de jurar a pés juntos que “Stronger” havia sido o primeiro single de Graduation. Não há, em todos os 51 minutos de disco, malha melhor para vender e apresentar a obra. Afinal, tem um sample de um dos mais emblemáticos hinos dos Daft Punk, uma produção à qual é impossível ficar indiferente e um refrão com super cola 3 que até a minha mãe decoraria em três tempos. Tem tudo isto, mas não tem um vídeo-paródia com o Zach Galifianakis a manobrar tractores e motos-serras com uma destreza invejável… Não se pode ter tudo, não é? Num disco onde facilmente se encontram pérolas, “I Wonder” é uma das mais bonitas. Com um meloso sample da “My Song” de Labu Siffre e, não menos importante, com um verso que sintetiza todos os desejos megalómanos deste West: “And I’m back on my grid / A psychic read my lifeline / Told me in my lifetime / My name would help light up the Chicago skyline…”. Claro, também há a habitual medição de contas bancarias com Lil Wayne em “Barry Bonds”. Ou a estranha mas interessante “Drunk and Hot Girls”, com Mos Def e um sample dos gigantes Can – nova prova de que Kanye andou a vasculhar os baús da melhor música europeia dos anos 70. E o delicioso hino ao sintetizador na forma de “Flashing Lights”, uma daquelas faixas em que mais se evidencia a genial capacidade de Kanye nadar com técnica olímpica em qualquer estilo… Nas mãos de outros, esta – e até “Champion” – teria imenso potencial para descambar. É aqui que as brilhantes capacidades de composição e produção vêm à tona. Ou o bom gosto, se preferirem. O mesmo raciocínio serve para o abraço ao gospel em “The Glory”, com este cagão do caraças a colocar as coisas em pratos limpos: “The hood love to listen to Jeezy and Weezy / And, oh yeah, Yeezy / I did it for the glory”.

 



Sem espanto, estamos perante um Kanye West igual a si próprio: cheio de bazófia, para não escrever armado ao pingarelho. Em Graduation, a novidade está na forma como praticamente deixa de olhar para os seus conflitos interiores. É muito mais sobre o rapaz de Chicago a começar a empinar o nariz, e a olhar para o mundo de cima para baixo. E quase nunca sobre o rapaz a olhar-se directamente ao espelho – como anteriormente se verificava até de forma quase obsessiva. Neste capítulo, somente a dica ao Jay-Z em “Big Brother” se consegue aproximar quer do estilo de escrita quer do ambiente dos álbuns antecessores.

Tanto na altura, em 2007, como agora quando já passaram 10 anos, há quem ainda dê outro ênfase a este terceiro álbum de Kanye West. Sobretudo, pela luta de vendas com Curtis, disco de 50 Cent lançado no mesmo dia. De acordo com os registos, o agora membro da família Kardashian vendeu mais álbuns. Também será oportuno destacar que 50 Cent já havia tido momentos bem mais inspirados na sua também e então curta carreira. E não, o número de dólares acumulados nunca foi barómetro de popularidade ou de qualidade. Contudo, neste contexto muito particular do hip hop, pode-se de facto olhar para esta batalha de géneros e estilos de uma forma, digamos, mais rebuscada. De um lado, um matulão com uma semi-automática ao fundo das costas. Do outro, uma proto-estrela com uma Louis Vuitton ao ombro. O durão. E o sensível. O das jóias e tronco nu. O das calças Versace e T-shirt Calvin Klein. O rap não mudou nem mudaria de um dia para o outro. Nem se atirou à conquista cultura pop como se de um leão faminto se tratasse, empurrado num só disco ou numa só batalha interna. Contudo, e com muito ou pouco rigor, é bastante possível que 11 de Setembro de 2007 – e a semana que se seguiu – tenha sido um dia com algum significado, nem que seja para ajudar a enraizar a ideia de que há mais vida para além do que a vista alcança… Não basta, bem sabemos, mas quase que apetece deixar aqui um “é só ver o que aconteceu depois” na indústria, com a porta escancarada para Drake e companhia.

 



Não sei se será justo. Mas Kanye West carregará para sempre um fardo engraçado, o de ser sobretudo reconhecido pelas suas brilhantes capacidades enquanto produtor. É um dos mais corajosos e empreendedores, parece-me justo caracterizá-lo desta forma. Um dos que cria tendências. Na altura e por directa comparação, Graduation não era o melhor disco de Kanye West. E à distância, também não será. Mas não invalida que não tenha sido, então, o maior salto em frente do norte-americano. Não são muitos os que conseguem sobreviver ao complicado turbilhão do sucesso, do orgulho, do dinheiro e até da ambição meio desmesurada. Sabemos hoje que Kanye conseguiu a cómica/trágica façanha de atirar ainda mais lenha para esta fogueira aparentemente descontrolada. Até hoje, o artista continua sem se queimar. É obra, carago.

 


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