GLDNSHWR: “O Manuel João Vieira é o principal culpado deste projecto existir”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Rafael Correia

O mundo está cada vez mais catita. Seja enquanto Candidato Vieira, Lello Minsk, Elvis Ramalho ou Orgasmo Carlos, alinhando a solo ou em grupos como Irmãos Catita, Ena Pá 2000 ou Corações de Atum, desdobrando-se em registos musicais que vão desde o fado ao rock ou da música popular ao jazz, apenas falta hip hop na discografia do multifacetado Manuel João Vieira, o homem que serve de principal fonte de inspiração para os GLDNSHWR de dB e RealPunch.

O rapper e produtor assumiram-se pela primeira vez enquanto dupla na semana passada. O Rimas e Batidas trocou algumas mensagens com o duo e mergulhámos — de nariz e boca tapados, claro — nessa piscina criativa de GLDNSHWR. dB e RealPunch parecem feitos um para o outro e esta colaboração seria quase inevitável. Apesar dos quilómetros que os separam, o tom com que abordam a arte do hip hop une-os pelo humor e a sátira que ambos tão bem dominam. Manuel João Vieira é outro ponto-de-encontro: ambos são grandes fãs do estilo inconfundível do capitão do Titanic Sur Mer — até já conseguimos imaginar a estreia de GLDNSHWR ao vivo em Lisboa…

“10 Anos” é a primeira amostra deste par perfeito e é-nos servido com o selo da Kimahera. Estamos todos a pensar no mesmo, certo? Vem aí um projecto em conjunto e GLDNSHWR está apontado para ter “7 ou 8 faixas, zero participações”. A receita é fácil de decorar: “Muitas punchlines. Muitos trocadilhos. Pouca lamechice.”

 



Falem-me deste projecto GLDNSHWR. Tu e o dB estão em pontas opostas do país. Como é que surgiu esta parceria?

[dB] Não são bem pontas opostas… Para estarmos em pontas opostas, eu teria que estar em Chaves, praí. Estou no Porto, e Faro-Porto hoje é um tirinho de Ryanair. Para além disso também há outra coisa dos quais somos os dois fãs: a Internet.

[Realpunch] Este projecto surgiu devido à Internet. Já falávamos anteriormente e até estávamos os dois a trabalhar noutro projecto, totalmente diferente. Achámos que fazia sentido criar algo onde tudo o que realmente importa pudesse coexistir: letra, flow e batida. Mas como uma das nossas particularidades é o fascínio pelas punchlines, pois lá teve que ser.

Porquê o nome GLDNSHWR? Podemos contar com muito conteúdo “explícito” daqui para a frente?

[dB] Quando o EP sair, perceberão. Mas o grande responsável por este nome é um dos meus maiores exemplos de carreira (e que samplo recorrentemente nos meus álbuns): Manuel João Vieira.

[Realpunch] O Manuel João Vieira é o principal culpado deste projeto existir. A sua minissérie Um Mundo Catita é toda ela um universo de doutrinas e frases citáveis importantes para as nossas vidas mundanas. Decidimos homenagear um excerto da série neste trabalho.

“São 10 anos a virar frangos”. Como é que olham para o momento que vive o hip hop em Portugal?

[dB] O hip hop em Portugal está como os países dos Balcãs na actualidade: eram um só, entraram numa guerra fraticida, dividiram-se, e com mais ou menos atritos agora cada um seguiu o seu caminho e respeitam os espaços uns dos outros. Assim está o hip hop em Portugal, e acho que muito bem: ninguem é obrigado a ouvir o que não gosta e não vale a pena chatearmo-nos nem desperdicar energia a odiar o que não gostamos… Isto dá para todos.

[Realpunch] Felizmente o hip hop português evoluiu e bem. Tal como o David Bruno disse, há espaço para toda a gente, há música para todos os gostos. Eu cá continuo a dar valor à letra, à técnica do MC, ao skill do produtor. Mas não estou nada chateado com quem prefere ouvir músicas com party feeling, refrão catchy e toques de auto-tune. No fim das contas, isto é música. E a música é boa ou é má, ponto.

O primeiro sinal está dado e agora vamos todos ficar alerta para novos conteúdos vossos. Querem antecipar um pouco daquilo a que se comprometem a trazer? Vem aí, talvez, um álbum ou um EP?

[dB] O que aí vem é um trabalho que está para a música como a comfort food está para culinária: para saborear de forma relaxada e descomprometida.

[Realpunch] O processo de maturação já foi cumprido, vai agora ao forno e estará pronto a ser servido. A fórmula é Punch nas letras e dB nos beats. 7 ou 8 faixas, zero participações. Muitas punchlines. Muitos trocadilhos. Pouca lamechice.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira