Gil Scott-Heron / Brian Jackson // Winter in America

gil scott heron review

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

“Look around in any corner/if you see some brother/looking like a gonner/it’s gonna be me…” Quando Gil Scott-Heron gravou estas palavras na canção “The Bottle”, incluída no memorável Winter in América (o seu único álbum para a “cult labelStrata East, originalmente editado em 1974), não podia imaginar que por esta altura haveria de estar a cumprir uma sentença de prisão por posse e consumo de cocaína*. Diz-se que a arte imita a vida, mas no caso particular de Gil Scott-Heron parece que a sua vida cumpriu os desígnios que originalmente o inspiraram a escrever.

Scott-Heron é, sobretudo, um poeta que, como poucos, soube cantar a negritude na América, nunca se coibindo de expor os podres que avassalavam as suas ruas, apontando o dedo aos responsáveis de ambos os lados da barricada que delimita o ghetto. Neste álbum, por um lado, temos um profundamente irónico “H2O Gate Blues”, sobre o escândalo de Watergate denunciado pelo Washington Post, mas também se encontra “The Bottle”, um retrato agudo do vício dentro da sua comunidade. “See that black boy over there running scared/His old man in the bottle/He done quit his 9 to 5 he drinks full time/and now he’s living in the bottle…” Gil Scott-Heron, qual “griot” moderno, observa o pulsar do seu povo de uma esquina espiritual para depois disparar a pergunta “And don’t you think it’s a crime when/time, after time, after time, ‘people in the bottle?/There’s people living in the bottle…” Gil não fornece respostas, apenas se questiona, agitando bem em frente do seu próprio nariz um espelho que reflecte a complexidade de uma comunidade a braços com um novo género de devastação – interna, funda, dolorosa. Mas, como explica nas notas que assina no interior da capa deste álbum, “black people have been a source of endless energy, endless beauty and endless determination.” E realmente, a misteriosa beleza da arte de Gil Scott-Heron pode começar a explicar-se pelo facto da sua voz irradiar, a um tempo, dor e esperança, derrota e determinação.

Winter in America marcou o arranque da colaboração de Gil com o pianista e arranjador Brian Jackson, que o haveria de acompanhar até aos anos 80, através da sua discografia na Arista. A música que ambos criaram neste álbum é profundamente espiritual, descolando para um plano mais físico, como em “The Bottle”, quando as palavras adquirem a crueza de uma tentativa de abanão das consciências. Enleada na reverberação cristalina do Fender Rhodes, a voz de Gil Scott-Heron assume uma dignidade inabalável e, quase trinta anos depois da edição original, faz de Winter in America um presságio negro. Ainda nas notas do interior deste álbum, Gil Scott-Heron escreve: “We approach winter, the most depressing period in the history of this industrial empire, with threats of oil shortages and energy crises.” Os tempos não mudaram. E agora, é Gil que se encontra preso dentro de uma garrafa feita de grades. Peace go with you, brother! We will see you in the spring…

 


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  • Texto originalmente escrito para a revista Op.. À época, Gil Scott-Heron encontrava-se, de facto, encarcerado, sendo libertado pouco tempo depois, altura em que gravou I’m New Here e inclusivamente se apresentou ao vivo no nosso país. Faleceria depois em Maio de 2011.
Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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